Imagine as seguintes situações.
Situação 1. Você está em um incêndio. O bombeiro consegue chegar até o local para resgatá-lo e ele dá orientações básicas para você sair do prédio sem sofrer queimaduras. Você seguiria as instruções? Sim ou não?
Situação 2. Seu médico diz que você tem uma doença comum, mas ela é fatal; se não tratar terá morte na certa. Ele receita o tratamento, que tem cobertura do Governo e não terá custo, mas você precisa readequar seus hábitos alimentares e padrão de vida. Você faria o tratamento? Sim ou não?
As perguntas que fiz são retóricas. A resposta para cada uma delas é o “sim”.
O Cristianismo tem sido esvaziado do seu papel principal, que é apresentar a Jesus Cristo como aquele que dá a orientação ao paciente para que este decida ou não pelo tratamento. Jesus mesmo usou a metáfora do médico que veio para salvar doentes, e não os sadios: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes.” (Mt 9.12)
Estamos todos doentes, individualmente, coletivamente. As pessoas estão doentes, os grupos estão doentes, as estruturas e instituições que formamos estão corrompidas. Os processos e mecanismos sociais se decompõem no vício.
Quanto a Jesus, o que ele fez, sabemos: morreu na cruz para trazer salvação e deixou o Evangelho, a Boa Nova. Qual o papel do Salvador? Salvar. E para isso dá orientações básicas, receita o tratamento. O que ele quer com isso? Salvar, salvar a nós – diga-se de passagem. Nós é quem estamos sob risco, no ambiente em chamas, e doentes, com os dias contatos. Não ele.
E o que decorre disso? Decorre que tudo o que as Escrituras dizem, dizem para o nosso bem: “Nossos pais nos disciplinavam por curto período, segundo lhes parecia melhor; mas Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade.” (Hb 12.10; ênfase acrescentada). A Bíblia traz o receituário de Deus para o homem e este pode ou não seguir suas instruções, simplesmente. Seguindo-o, a salvação virá, primeiro individualmente. Depois na coletividade, com grupos melhores, com instituições melhores, com uma sociedade melhor. Não estou, com isso, dizendo que Jesus é marxista; o foco é o homem, mas há desdobramentos.
A salvação também não virá pelo que fizermos, pois ela já existe e está disponível. Aceitar os pressupostos dessa salvação é a atitude esperada. O caminho para sair seguro do ambiente em chamas existe e quem o seguir as orientações viverá. Assim, a salvação não vem pelo esforço, mas pela mudança no rumo, no acerto do caminho já existente, no ajuste dos procedimentos para a manutenção da vida. O caminho foi criado, preciso percorrê-lo. O procedimento foi estabelecido, preciso adotá-lo.
Portanto, se a Bíblia descreve o papel de Jesus como Senhor e Salvador, cabe a nós a percepção dessa verdade e uma mudança para o nosso próprio benefício. A Deus nada muda se rejeitarmos a sua oferta de Salvação. A nós, entretanto, faz toda a diferença, a propósito, uma vida inteira de diferença.
Siga-me no Twitter: @magnopaganelli
Este espaço foi criado para discutir diferentes assuntos a partir da cosmovisão cristã. O que pretendo é o debate de ideias e o aprofundamento nas questões que interessam a Igreja de modo geral.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”. (2Timóteo 2.15)
Você tem certeza do seu chamado no Corpo de Cristo?
Seus obreiros estão na posição certa dentro do ministério?
Como você foi treinado para servir na obra de Deus?
Da mesma forma que o corpo humano é integrado por diversos membros e cada um possui a sua própria função, a Igreja – o Corpo de Cristo – também é composta por membros que diferem uns dos outros nas suas atividades.
Há quase duas décadas trabalhando com irmãos e obreiros que querem servir ao Senhor, o Pr. Magno Paganelli tem identificado a falta de orientação que muitos cristãos sofrem quanto à função que devem exercer no Corpo de Cristo. Isto o tem levado a dar cursos, palestras e a escrever sobre o assunto.
Foi assim que nasceram alguns de seus livros, como Qual a Sua Função no Corpo de Cristo. A obra deu origem ao curso que você tem em mãos e também a alguns cursos produzidos por igrejas locais. Além disso, o seu conteúdo foi adotado por faculdades e seminários teológicos de renome, como o Seminário Teológico do Sul do Brasil e Faculdade Betesda.
Neste curso, o participante irá identificar os talentos que possui, será desafiado a descobrir e desenvolver sua vocação ministerial, a identificar quais são os seus dons espirituais e ministeriais. Por meio de exercícios e testes práticos desenvolvidos por uma equipe ministerial experiente, será auxiliado a encontrar o foco do serviço que o Senhor espera para uma atuação frutífera no Corpo de Cristo.
Contatos: magnop@terra.com.br ou editora@arteeditorial.com.br
sexta-feira, 15 de junho de 2012
A igreja de Corinto desembarcou no Brasil
"Nós somos tolos por causa de Cristo, vós, porém, sois prudentes em Cristo. Nós somos fracos, vós fortes; vós sois honrados, nós somos desprezados" (1Co 4.10).
A igreja em Corinto apresentou muitos problemas e de diversas naturezas. Problemas morais, doutrinários, éticos, de educação, de respeito, entre outros. Em sua primeira carta àquela comunidade, Paulo empenhou muito esforço na tentativa de recolocá-los nos trilhos por conta dos problemas deles, já que na segunda carta seu maior esforço foi defender sua própria autoridade como apóstolo.
O versículo acima foi escrito quando Paulo lidava com duas questões específicas. Uma, o orgulho ufanista dos coríntios. A outra, a pretensa sabedoria alegadamente possuída por eles. Os corintios orgulhavam-se de algum bem ou situação social confortável, o que fica claro na ironia de Paulo no verso 8: "Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinastes!"
Está claro o deboche do apóstolo, ainda mais à luz do próprio versículo 10 transcrito acima. O experiente Paulo seria tão ingênuo assim que teria sofrido os males para que somente os corintios pudessem colher os bens? Ora, isso não é cogitado, Paulo sabe que se algum bem tão valioso pudesse ser desfrutado pelos cristãos, ele seria um dos primeiros, senão o primeiro, a ter ciência e a desfrutar.
O outro problema é a alegada posse de alguma misteriosa sabedoria, algo que os coríntios passaram a crer e do qual orgulhavam, mas que não estava alinhado ao que o apóstolo ensinava. Provavelmente a igreja tinha permitido a invasão de conceitos gnósticos, sincréticos, ocultistas até. Uma alegada doutrina que Paulo também está combatendo, especialmente a partir do versículo 6, quando diz para "não ir além do que está escrito".
Não se sabe a que texto ou fonte o apóstolo está se referindo; a pesquisa recente não responde a isso. O contexto e, novamente, a ironia é que revelam o desprezo de Paulo pela suposta revelação misteriosa, "a chave espiritual" que abrira aos coríntios a porta dos mistérios espirituais. Que tolice! Paulo desdenha a tudo isso.
A situação estabelece um abismo entre os espirituais de Corinto e os missionários que trouxeram o evangelho. Eles se consideram sábios, fortes e honrados, enquanto os apóstolos são fracos e desprezados (G. Brakemeier).
Como se descolássemos a cena da Ásia Menor e a transplantássemos na América Latina, a Igreja no Brasil tem grupos que se identificam com os coríntios nos mesmos problemas. Há quem pense ter descoberto no evangelho o toque de Midas, que a tudo transforma em ouro e riquezas vindas do dono do ouro e da prata. E também temos por aqui os novos sábios, que de repente descobriram uma chave hermenêutica que invalida tudo o que foi ensinado até aqui, nos últimos dois mil anos.
Tenho comigo que o apóstolo não mudaria a sua maneira da tratar o problema, caso desembarcasse por aqui. Ele continuaria irônico, sustentaria a sua situação com as próprias limitações e não mudaria a sua mensagem. Ele já havia preparado a sua defesa, quando antecipou-se dizendo ser "servidor e mordomo dos mistérios de Deus" (v. 1), indicando que "o que se requer dos mordomos é que seja encontrado fiel" (v. 2), já que "o Senhor trará à luz as coisas ocultas e revelará os desígnios dos corações" (v. 5).
Aí, então, será visto quais são os tesouros legítimos e a verdadeira sabedoria vinda de Deus.
Siga-me no Twitter: @magnopaganelli
A igreja em Corinto apresentou muitos problemas e de diversas naturezas. Problemas morais, doutrinários, éticos, de educação, de respeito, entre outros. Em sua primeira carta àquela comunidade, Paulo empenhou muito esforço na tentativa de recolocá-los nos trilhos por conta dos problemas deles, já que na segunda carta seu maior esforço foi defender sua própria autoridade como apóstolo.
O versículo acima foi escrito quando Paulo lidava com duas questões específicas. Uma, o orgulho ufanista dos coríntios. A outra, a pretensa sabedoria alegadamente possuída por eles. Os corintios orgulhavam-se de algum bem ou situação social confortável, o que fica claro na ironia de Paulo no verso 8: "Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinastes!"
Está claro o deboche do apóstolo, ainda mais à luz do próprio versículo 10 transcrito acima. O experiente Paulo seria tão ingênuo assim que teria sofrido os males para que somente os corintios pudessem colher os bens? Ora, isso não é cogitado, Paulo sabe que se algum bem tão valioso pudesse ser desfrutado pelos cristãos, ele seria um dos primeiros, senão o primeiro, a ter ciência e a desfrutar.
O outro problema é a alegada posse de alguma misteriosa sabedoria, algo que os coríntios passaram a crer e do qual orgulhavam, mas que não estava alinhado ao que o apóstolo ensinava. Provavelmente a igreja tinha permitido a invasão de conceitos gnósticos, sincréticos, ocultistas até. Uma alegada doutrina que Paulo também está combatendo, especialmente a partir do versículo 6, quando diz para "não ir além do que está escrito".
Não se sabe a que texto ou fonte o apóstolo está se referindo; a pesquisa recente não responde a isso. O contexto e, novamente, a ironia é que revelam o desprezo de Paulo pela suposta revelação misteriosa, "a chave espiritual" que abrira aos coríntios a porta dos mistérios espirituais. Que tolice! Paulo desdenha a tudo isso.
A situação estabelece um abismo entre os espirituais de Corinto e os missionários que trouxeram o evangelho. Eles se consideram sábios, fortes e honrados, enquanto os apóstolos são fracos e desprezados (G. Brakemeier).
Como se descolássemos a cena da Ásia Menor e a transplantássemos na América Latina, a Igreja no Brasil tem grupos que se identificam com os coríntios nos mesmos problemas. Há quem pense ter descoberto no evangelho o toque de Midas, que a tudo transforma em ouro e riquezas vindas do dono do ouro e da prata. E também temos por aqui os novos sábios, que de repente descobriram uma chave hermenêutica que invalida tudo o que foi ensinado até aqui, nos últimos dois mil anos.
Tenho comigo que o apóstolo não mudaria a sua maneira da tratar o problema, caso desembarcasse por aqui. Ele continuaria irônico, sustentaria a sua situação com as próprias limitações e não mudaria a sua mensagem. Ele já havia preparado a sua defesa, quando antecipou-se dizendo ser "servidor e mordomo dos mistérios de Deus" (v. 1), indicando que "o que se requer dos mordomos é que seja encontrado fiel" (v. 2), já que "o Senhor trará à luz as coisas ocultas e revelará os desígnios dos corações" (v. 5).
Aí, então, será visto quais são os tesouros legítimos e a verdadeira sabedoria vinda de Deus.
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segunda-feira, 4 de junho de 2012
Nosso templo, nosso orgulho, nossa ruína
"E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje" (Mt 11.23, ARC).
Cafarnaum era um pequena, porém, próspera cidade praticamente às margens do Mar da Galileia. Era uma cidade geograficamente estratégica pela proximidade com uma fonte assim, tão vasta em água, e por estar na chamada rota do incenso, produto manipulado no sul pelos árabes e comercializado no norte, na atual região da Síria.
A sinagoga de Cafarnaum era o marco da prosperidade local. Dois indicadores apontam para isso. O primeiro era o material do qual era feita a sinagoga. Ao contrário da pedra escura, quase preta, das casas da cidade, a sinagoga de Cafarnaum fora edificada de uma pedra clara (vide foto acima), seguramente importada por seus habitantes, importação financiada por ilustres moradores orgulhosos de suas doações.
O segundo indicador é a posição na qual a sinagoga se situava em relação às demais edificações locais. O ponto mais alto das moradias de Cafarnaum atingia no máximo a altura do piso da sinagoga, ou seja, como sede religiosa a sinagoga se destacava e se impunha na paisagem local, informando a presença de uma comunidade rica, supostamente abençoada e protegida por Deus e, portanto, no caminho certo e seguro de uma vida espiritual sólida. Essa é uma boa expressão do que a sinagoga transmitia: a segurança do povo de Cafarnaum que, por sinal, era o orgulho da cidade.
Jesus destacou tal segurança num de seus discursos ali, mas o fez por um viés negativo. O versículo que citei acima, "Cafarnaum... que te ergues até aos céus", aponta para a grandiosidade da sinagoga, como também o seu luxo. A confiança depositada numa instituição, mais que isso, numa edificação (um prédio), para nada serve; ainda hoje é assim. E como temos repetido esse erro apegando-nos e recorrendo aos mesmos expedientes? As igrejas evangélicas nos últimos anos redescobriram o caminho e a receita da suntuosidade estética da religião e não têm medido esforços para registrarem seu poderio por meio de suntuosos edifícios, até mesmo copiando o expediente usado em Cafarnaum de importar pedras (como a história se repete!). A parte inicial da zona leste em São Paulo que o diga! Parece que esse compromisso com a aparência é um vírus difícil de vencer, ao menos em alguns grupos cristãos que contabilizam boa arrecadação.
Por outro lado, a palavra dada por Jesus orienta-nos que nada mudou: a confiança na aparência, na estética, na suntuosidade não levará o homem até aos céus, como já pensavam os construtures de Babel, outra edificação que representou o orgulho e igualmente arruinou o gênero humano. Edificar em nós uma casa para o Senhor é a proposta mais segura para uma vida cristã. O menor sinal de confiança no mais discreto sinal da grandeza de Deus pode gerar efeito mais positivo no âmbito espiritual. E como tem sido difícil aprender isso!
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Cafarnaum era um pequena, porém, próspera cidade praticamente às margens do Mar da Galileia. Era uma cidade geograficamente estratégica pela proximidade com uma fonte assim, tão vasta em água, e por estar na chamada rota do incenso, produto manipulado no sul pelos árabes e comercializado no norte, na atual região da Síria.
A sinagoga de Cafarnaum era o marco da prosperidade local. Dois indicadores apontam para isso. O primeiro era o material do qual era feita a sinagoga. Ao contrário da pedra escura, quase preta, das casas da cidade, a sinagoga de Cafarnaum fora edificada de uma pedra clara (vide foto acima), seguramente importada por seus habitantes, importação financiada por ilustres moradores orgulhosos de suas doações.
O segundo indicador é a posição na qual a sinagoga se situava em relação às demais edificações locais. O ponto mais alto das moradias de Cafarnaum atingia no máximo a altura do piso da sinagoga, ou seja, como sede religiosa a sinagoga se destacava e se impunha na paisagem local, informando a presença de uma comunidade rica, supostamente abençoada e protegida por Deus e, portanto, no caminho certo e seguro de uma vida espiritual sólida. Essa é uma boa expressão do que a sinagoga transmitia: a segurança do povo de Cafarnaum que, por sinal, era o orgulho da cidade.
Jesus destacou tal segurança num de seus discursos ali, mas o fez por um viés negativo. O versículo que citei acima, "Cafarnaum... que te ergues até aos céus", aponta para a grandiosidade da sinagoga, como também o seu luxo. A confiança depositada numa instituição, mais que isso, numa edificação (um prédio), para nada serve; ainda hoje é assim. E como temos repetido esse erro apegando-nos e recorrendo aos mesmos expedientes? As igrejas evangélicas nos últimos anos redescobriram o caminho e a receita da suntuosidade estética da religião e não têm medido esforços para registrarem seu poderio por meio de suntuosos edifícios, até mesmo copiando o expediente usado em Cafarnaum de importar pedras (como a história se repete!). A parte inicial da zona leste em São Paulo que o diga! Parece que esse compromisso com a aparência é um vírus difícil de vencer, ao menos em alguns grupos cristãos que contabilizam boa arrecadação.
Por outro lado, a palavra dada por Jesus orienta-nos que nada mudou: a confiança na aparência, na estética, na suntuosidade não levará o homem até aos céus, como já pensavam os construtures de Babel, outra edificação que representou o orgulho e igualmente arruinou o gênero humano. Edificar em nós uma casa para o Senhor é a proposta mais segura para uma vida cristã. O menor sinal de confiança no mais discreto sinal da grandeza de Deus pode gerar efeito mais positivo no âmbito espiritual. E como tem sido difícil aprender isso!
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terça-feira, 29 de maio de 2012
Heresias que mudam de roupa
Marcião, um homem rico, filho do bispo de Sinope, na região do Ponto, na Ásia Menor, é um conhecido herege da igreja no século 2. Para Marcião (ilustração acima), somente Paulo conseguiu entender o Cristianismo. No canon que compilou, Marcião incluiu dez epístolas de Paulo (sem as pastorais) e o evangelho de Lucas, mas excluiu todas as passagens que dessem a entender que Cristo considerava o Deus do Antigo Testamento seu Pai ou de alguma maneira era relacionado com Ele.
Seu pensamento dualista, derivado do gnosticismo, não enfatizava a tradicional tensão entre o bem e mal, mas se dava entre a justiça e o amor. O Deus do Antigo Testamento, a seu modo de ver, era justo, e o do Novo Testamento era amoroso, descontinuando assim o Cristianismo e de suas raízes históricas. (1) Jesus veio trazer a essência da verdadeira religião que não era a justiça como executada pelo Deus do passado, mas trouxe o amor.
Trocando em miúdos, tem sido dito que a justiça e seus desdobramentos não conseguem nem devem conviver com o amor. A tendência natural hoje em dia, dadas as convenções e concessões que os setores liberais da Igreja têm feito, é excluir a justiça como agente na experiência cristã e eleger somente o amor como critério validador dessa experiência. Erro marcionista com pelo menos dois mil anos de existência.
Sabemos que o amor é o bem maior, é mandamento, e deve pautar as ações mais nobres que pudermos realizar. A justiça, no entanto, não pode ser compreendida como a vilã porque o mesmo amor que rege as ações cristãs pressupõe a justiça. Ambos, amor e justiça, são virtudes inseparáveis que compõem o paradoxo do Cristianismo: felizes os que choram, é preciso perder para ganhar, aquele que morrer viverá entre tantos outros.
Vejo pregadores e escritores que amputam a justiça e o juízo de seus discursos como se fizessem um favor a seus ouvintes e leitores, ou mesmo ao próprio Cristianismo. Nada mais herege. Justiça e amor são claramente demonstrados na vida de fé, nas Escrituras e na história; eliminar um em função do outro para adequar-se aos discursos pós-modernos de inclusão, de tolerância e de igualdade é o mesmo que privar ou sonegar a experiência mais ampla e completa com a própria essência da fé, do religare e do autêntico Cristianismo.
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos” (Mt 5.6).
(1) OLIVEIRA, Raimundo Ferreira de. História da Igreja. Campinas: FAETAD, 2000, p. 42.
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sexta-feira, 11 de maio de 2012
O retrato matemático de Deus
Um desejo antigo das pessoas de fé é ver a Deus. Moisés, há mais de três mil anos, expressou esse desejo e, mais recentemente, Filipe disse: “’Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta’. Jesus respondeu: ‘Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer: Mostra-nos o Pai?” (Jo 14.8,9, NVI).
Essa informação é central no Novo Testamento e a vemos em outros documentos. Paulo, por exemplo, está convencido que Jesus revela o Pai em sua totalidade, entendendo totalidade como aquilo que a nós, humanos limitados, é possível absorver, compreender e assimilar. Quando escreve aos colossenses, por duas vezes seguidas Paulo manifesta essa compreensão. “Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude” (Cl 1.19, NVI) e há uma alternativa na mesma NVI que traduz “Pois toda a plenitude agradou-se em habitar nele”.
Essa palavra plenitude traduz o grego pleroma, que também pode significar “aquilo que enche” ou “a plena divindade”. E Paulo a repete um capítulo depois, quando declara “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Neste último versículo há um novo elemento, a informação corporalmente. Corporalmente traduz o grego somatikós, indicando que a plenitude da divindade não habitou o corpo espiritual de Jesus, mas o próprio corpo físico dele. Em outras palavras, Jesus manteve-se Deus plenamente enquanto era homem. Ele não precisou esperar sua morte e ressurreição para “tornar-se” Deus como sugeriram alguns escritores desde o primeiro século. Ele apenas esvaziou-se de sua glória mantendo seus atributos distintivos da divindade (Fp 2.5-11).
Para concluir, outro documento do Novo Testamento atesta a mesma compreensão de que em Jesus encontramos tudo aquilo que de Deus podemos perceber. Refiro-me à Hebreus 1.3, que diz: “O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa”.
Que texto espetacular! Nele encontramos mais informações interessantes. A primeira delas é o grego karakter, aqui traduzido por expressão exata ou reprodução, representação exata. Em seguida temos hypóstaseos, que significa natureza, essência ou realidade. Jesus reproduz a exata natureza ou essência de Deus. Mas a frase original acrescenta uma ênfase: panton, indicando que Jesus é a expressão exata de todo o ser de Deus. Tudo o que de Deus podemos conhecer, em Jesus se manifesta.
E é essa exatidão quase matemática que atrai a minha atenção. Não que necessite de provas físicas para crer em Jesus pois é pela fé que o conhecemos, mas essa demonstração precisa, diria milimétrica, que remete a uma exatidão científica (para quem necessita dela) transmite a nossa alma a sensação do Emanuel, Deus está conosco, ele revelou-se da maneira mais absurda à criatura. Ele revelou-se do modo mais gritante, saiu do seu esconderijo celestial e literalmente habitou entre nós.
É fascinante conhecer um Deus assim, por esses meios, do modo como a Bíblia descreve.
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Essa informação é central no Novo Testamento e a vemos em outros documentos. Paulo, por exemplo, está convencido que Jesus revela o Pai em sua totalidade, entendendo totalidade como aquilo que a nós, humanos limitados, é possível absorver, compreender e assimilar. Quando escreve aos colossenses, por duas vezes seguidas Paulo manifesta essa compreensão. “Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude” (Cl 1.19, NVI) e há uma alternativa na mesma NVI que traduz “Pois toda a plenitude agradou-se em habitar nele”.
Essa palavra plenitude traduz o grego pleroma, que também pode significar “aquilo que enche” ou “a plena divindade”. E Paulo a repete um capítulo depois, quando declara “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Neste último versículo há um novo elemento, a informação corporalmente. Corporalmente traduz o grego somatikós, indicando que a plenitude da divindade não habitou o corpo espiritual de Jesus, mas o próprio corpo físico dele. Em outras palavras, Jesus manteve-se Deus plenamente enquanto era homem. Ele não precisou esperar sua morte e ressurreição para “tornar-se” Deus como sugeriram alguns escritores desde o primeiro século. Ele apenas esvaziou-se de sua glória mantendo seus atributos distintivos da divindade (Fp 2.5-11).
Para concluir, outro documento do Novo Testamento atesta a mesma compreensão de que em Jesus encontramos tudo aquilo que de Deus podemos perceber. Refiro-me à Hebreus 1.3, que diz: “O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa”.
Que texto espetacular! Nele encontramos mais informações interessantes. A primeira delas é o grego karakter, aqui traduzido por expressão exata ou reprodução, representação exata. Em seguida temos hypóstaseos, que significa natureza, essência ou realidade. Jesus reproduz a exata natureza ou essência de Deus. Mas a frase original acrescenta uma ênfase: panton, indicando que Jesus é a expressão exata de todo o ser de Deus. Tudo o que de Deus podemos conhecer, em Jesus se manifesta.
E é essa exatidão quase matemática que atrai a minha atenção. Não que necessite de provas físicas para crer em Jesus pois é pela fé que o conhecemos, mas essa demonstração precisa, diria milimétrica, que remete a uma exatidão científica (para quem necessita dela) transmite a nossa alma a sensação do Emanuel, Deus está conosco, ele revelou-se da maneira mais absurda à criatura. Ele revelou-se do modo mais gritante, saiu do seu esconderijo celestial e literalmente habitou entre nós.
É fascinante conhecer um Deus assim, por esses meios, do modo como a Bíblia descreve.
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sábado, 5 de maio de 2012
Suas expectativas são legítimas?
Por natureza o homem cria expectativas à partir das situações que vive. Ele tem expectativas sobre seu cônjuge, sobre seus filhos, sobre sua profissão, sobre seus amigos, expectativas pessoais, políticas e religiosas. Vamos nos concentrar nessas últimas.
As expectativas que criamos no campo religioso não vêm necessariamente de nós, mas do discurso religioso, das palavras e promessas feitas. Assim, toda pregação pode despertar expectativas as mais diversas. Se a pregação for honesta com o conteúdo da Bíblia, ela provocará as expectativas legítimas, aquelas que o Senhor quer despertar em nós. Se a pregação "usar" a Bíblia para despertar falsas expectativas ou expectativas erradas, nós poderemos ser iludidos ao alimentar esperanças que a Bíblia não pretende dar a ninguém.
No entanto, diante de uma necessidade pessoal, podemos distorcer o sentido da mensagem para fazê-lo ajustar-se às nossas expectativas. Se a mensagem diz, por exemplo, que o Senhor nos dará a vitória no final, indicando que a Igreja será arrebatada e irá para o céu, alguém poderá entender que o pregador está afirmando uma vitória financeira no final da luta e da prova, quando na verdade a mensagem não tratava de um assunto financeiro.
Há casos nos quais o próprio mensageiro, ou líder, cria expectativas erradas sobre a mensagem que transmite. O profeta Jonas é um caso típico. Após denunciar Nínive e acusar o seu pecado, o profeta subiu a uma colina e ficou ao longe aguardando a destruição daquele povo. Mas, a mensagem surtiu efeito pretendido por Deus e o povo arrependeu-se, dando ocasião ao perdão que poupou a cidade da destruição. Jonas, que queria ver o mal daquele povo pecador, ficou indignado, já que não contava com o efeito real, positivo e libertador da mensagem que ele mesmo anunciou.
O principal meio de proteger-se de expectativas enganosas, irreais, criadas a partir de uma mensagem religiosa, cristã ou não, é conhecer o conteúdo e o contexto do seu texto fundamental. A leitura da Bíblia, no caso dos cristãos, dará ao leitor orientações especiais e realísticas sobre o tema principal da sua mensagem: a salvação. O leitor deve saber que esse é o assunto geral da Bíblia e o motivo pelo qual ela foi escrita.
O leitor também deverá levar em conta o tema do livro que deu origem à mensagem. Por exemplo, dizer que o livro de Jó ensina que orar pelos inimigos é o segredo para receber bênçãos em dobro demonstra uma expectativa falsa. O tema principal e o motivo pelo qual este livro foi escrito é o sofrimento humano. Todos os outros subtemas no livro são de valor secundário. O comportamento humano frente ao sofrimento, as causas do sofrimento, a participação de Deus e o Diabo no sofrimento, tudo isso não constitui o tema principal do livro.
O mesmo vale para uma mensagem. Quando você lê ou ouve uma mensagem, deve considerar se ela faz jus ao texto (versículo ou porções bíblicas utilizadas) que dão a ela a sua base, o seu tema ou a proposição da mensagem. Desprezar isso dará a você, seguramente, a oportunidade de criar expectativas falsas. E como o Senhor não tem compromisso com expectativas falsas - o Seu compromisso é com a sua Palavra - o maior prejudicado será você. Esse não é o objetivo de boas mensagens, de mensagens honestas com o conteúdo da Bíblia. Por isso, seja vivo e preste atenção. Crie expectativas reais e seguras e mantenha a sua saúde espiritual - e emocional também!
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As expectativas que criamos no campo religioso não vêm necessariamente de nós, mas do discurso religioso, das palavras e promessas feitas. Assim, toda pregação pode despertar expectativas as mais diversas. Se a pregação for honesta com o conteúdo da Bíblia, ela provocará as expectativas legítimas, aquelas que o Senhor quer despertar em nós. Se a pregação "usar" a Bíblia para despertar falsas expectativas ou expectativas erradas, nós poderemos ser iludidos ao alimentar esperanças que a Bíblia não pretende dar a ninguém.
No entanto, diante de uma necessidade pessoal, podemos distorcer o sentido da mensagem para fazê-lo ajustar-se às nossas expectativas. Se a mensagem diz, por exemplo, que o Senhor nos dará a vitória no final, indicando que a Igreja será arrebatada e irá para o céu, alguém poderá entender que o pregador está afirmando uma vitória financeira no final da luta e da prova, quando na verdade a mensagem não tratava de um assunto financeiro.
Há casos nos quais o próprio mensageiro, ou líder, cria expectativas erradas sobre a mensagem que transmite. O profeta Jonas é um caso típico. Após denunciar Nínive e acusar o seu pecado, o profeta subiu a uma colina e ficou ao longe aguardando a destruição daquele povo. Mas, a mensagem surtiu efeito pretendido por Deus e o povo arrependeu-se, dando ocasião ao perdão que poupou a cidade da destruição. Jonas, que queria ver o mal daquele povo pecador, ficou indignado, já que não contava com o efeito real, positivo e libertador da mensagem que ele mesmo anunciou.
O principal meio de proteger-se de expectativas enganosas, irreais, criadas a partir de uma mensagem religiosa, cristã ou não, é conhecer o conteúdo e o contexto do seu texto fundamental. A leitura da Bíblia, no caso dos cristãos, dará ao leitor orientações especiais e realísticas sobre o tema principal da sua mensagem: a salvação. O leitor deve saber que esse é o assunto geral da Bíblia e o motivo pelo qual ela foi escrita.
O leitor também deverá levar em conta o tema do livro que deu origem à mensagem. Por exemplo, dizer que o livro de Jó ensina que orar pelos inimigos é o segredo para receber bênçãos em dobro demonstra uma expectativa falsa. O tema principal e o motivo pelo qual este livro foi escrito é o sofrimento humano. Todos os outros subtemas no livro são de valor secundário. O comportamento humano frente ao sofrimento, as causas do sofrimento, a participação de Deus e o Diabo no sofrimento, tudo isso não constitui o tema principal do livro.
O mesmo vale para uma mensagem. Quando você lê ou ouve uma mensagem, deve considerar se ela faz jus ao texto (versículo ou porções bíblicas utilizadas) que dão a ela a sua base, o seu tema ou a proposição da mensagem. Desprezar isso dará a você, seguramente, a oportunidade de criar expectativas falsas. E como o Senhor não tem compromisso com expectativas falsas - o Seu compromisso é com a sua Palavra - o maior prejudicado será você. Esse não é o objetivo de boas mensagens, de mensagens honestas com o conteúdo da Bíblia. Por isso, seja vivo e preste atenção. Crie expectativas reais e seguras e mantenha a sua saúde espiritual - e emocional também!
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