quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fala, que eu te escuto


O comportamento de muitos cristãos de hoje não endossa a fé que dizem sustentar. Aspectos que regem a prática cristã são encontrados, evidentemente, na Bíblia, e orientam atitudes simples e primárias como falar.

Um cristão pode se notabilizar pelos conhecimentos que tem, mas pode colocar tudo a perder se não moderar o seu vocabulário. Esse risco é previsto no Antigo e no Novo Testamento, mas como insinuei acima, muitos dos indicadores primários da fé cristã têm sido deixados para trás e substituídos por rotinas e expedientes das pessoas que não têm qualquer compromisso com a fé em Jesus Cristo.

Num texto clássico sobre o tema, Jesus advertiu: “Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mateus 5.22). Essa orientação não caducou. Então vejamos o seu sentido. Jesus escolheu o termo grego Γακά (raká). Não sabemos o que ele significa, mas uma pesquisa nos ensina que raká, para os falantes daquela época, era um termo abusivo. Entre os seus significados mais prováveis estão: tolo, cabeça-oca ou mesmo burro.

Na sequência do versículo lemos “louco”. Aqui Jesus empregou o termo Μώρέ (Môré), outra palavra que pode ser traduzida por tolo, insípido ou insensato; considere que os cristãos são advertidos por Jesus a que sejam o contrário de insípido: sejam sal, e não insípidos.

Noutro documento do Novo Testamento, Efésios 4.29, Paulo diz: “Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem”. Torpe é a tradução de σαπρός (saprós). Figurativamente ela transmite a ideia de mau, ruim, imprestável. No contexto de Mateus 7.17, onde Jesus fala dos frutos da árvore, ela significa podre.

E finalmente em Colossenses 3.8, a expressão “... abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar.” Essa “linguagem indecente” é a tradução de αισκρολογιαν (aiskrologian), uma junção de duas palavras para formar o que naqueles tempos era entendido por palavra indecente, obcenidade ou mesmo fala abusiva. Esta é a única passagem no Novo Testamento onde aparece aiskrologian.

Que devemos entender aqui? Que embora estejamos imersos numa sociedade que não zela pelo modo mais decente de expressar-se, que não faz qualquer esforço para ser gentil, educada e mesmo decente no uso da fala, essa tendência natural das pessoas que não professam a mesma fé que nós não pode engolir o nosso modo correto de falar, de agir e de nos mostrarmos na mesma sociedade. Chamar irmãos de “trouxas”, “imbecis” e “otários”, como vemos até mesmo em programas de televisão, não passa perto de qualquer padrão saudável no cristianismo bíblico. A inteligência do cristão deverá elaborar argumentos suficientemente fortes ao ponto de dispensar o uso de expressões chulas e vocabulário que possa ser equiparado a dos mais desprezíveis pecadores.

Para muitos isso parece difícil; mas seguramente é possível. Talvez seja esse o motivo porque Tiago dedicou boa parte de sua epístola (Tg 3.1-12), e mesmo o livro de Provérbios, a tratar da questão. O menor membro do corpo derruba a mais consagrada celebridade, mas o exercício persistente poderá ajudar a cada um de nós na eliminação de outros vícios que atrapalham o aprofundamento da mais simples espiritualidade.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nada novo debaixo do sol

A barriga dita as decisões da cabeça

Das histórias que o Antigo Testamento conta, lemos sobre a tomada e conquista hebreia da Terra Prometida. Tomada? Conquista? Não houve tomada nem conquista. Josué conduziu o povo no avanço da invasão, mas após a sua morte, os hebreus, vindos do deserto, “acomodaram-se” entre os povos que lá estavam, sem luta armada nem confronto, como o Salmo 44.1-8 leva a crer.

A tarefa ficou inacabada por décadas e foi registrada em textos como Juízes 1.27-34. Aos poucos os hebreus ocuparam as terras e apropriaram-se da lavoura e dos rebanhos dos povos estabelecidos. Fizeram alianças com uns e submeteram outros à escravidão.

Todos precisavam comer, adultos e crianças, hebreus e cananeus. Os hebreus ignoravam o funcionamento da agricultura, pois no Egito trabalharam em olarias e a jovem geração que entrou em Canaã havia nascido no deserto, onde nada se planta e nada se colhe. Os cananeus, que ocupavam o território, conheciam os métodos agrícolas e confiavam a fartura na colheita aos deuses da terra. Os hebreus, então, logo se curvaram a Baal, deus da fertilidade, encarregado de enviar chuva, tão essencial a agricultura.

Isso é o pragmatismo, faz-se o que funciona, o que é necessário “agora”. E para isso, vale até mesmo celebrar alianças condenadas por Yahweh, o Deus dos hebreus. Em nome das necessidades básicas prementes, a traição ao estatuto recebido por Moisés no Sinai encontra justificativa: os fins justificam os meios. O ideário da nação sacerdotal não enche barriga e não paga as contas; então, viola-se a aliança de sangue que os unia àquele que os removeu escravos e os tornaria senhores da terra.

O resultado, quem leu o livro dos Juízes já conhece. A vida espiritual do povo tornou-se uma roda gigante: ora no céu, ora no limbo. Os altares e sítios idólatras foram os para-raios da assolação que não falhou, resultado previsto nos decretos que o próprio povo concordou em chancelar ainda no deserto. Ora, não conheciam a norma dita por Deus? “Sim, mas precisavam comer”, dirão alguns.

Num bate-papo com um pastor amigo, falando sobre ideologia partidária nas eleições e sobre como o povo não leva em conta os termos que regem cada partido, meu interlocutor, amigo, defendeu o povo que vota no candidato “que faz pelos pobres”. Não importa a ideologia assumida pelo candidato: é preciso saciar a fome acima de tudo. Refletindo sobre esta sua fala, não demorei a lembrar dessa época quando os hebreus, colocando suas necessidades acima da ideologia pagã, assumiram um compromisso que os levaria a uma era de trevas.

A experiência seria repetida séculos mais tarde, no período dos reis de Israel, e o Senhor enviaria profetas para reclamar a falta de conhecimento do povo como razão da própria ruína (Isaias 1.3 e outros). Tudo em nome do utilitarismo e do pragmatismo: é preciso comer, mas isso pode justificar tudo? O Diabo também pode servir pão, mas Jesus advertiu que “nem só de pão viverá o homem” (Mateus 4.4). Há valores que aos cristãos devem considerar inegociáveis.

Se a necessidade o pressiona, se a aparência do novo o atrai, cuidado: não há nada novo debaixo do sol. Nem mesmo o erro de envolver a si, a família, a cidade e a nação numa aliança que viola princípios bíblicos básicos e a ideologia do próprio Cristianismo. Se esse texto reflete o debate eleitoral? Sim. Se estou procurando induzir a um partido específico? Gostaria, mas se o leitor levar em conta a reflexão acima nas suas próximas escolhas importantes, já terei sido recompensado.

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Tão burro quanto a jumenta de Jesus

Distorcer o sentido dos textos bíblicos não é so tarefa de gente mal intencionada, mas também desinformada. Com a finalidade de fazer os ouvintes crerem que a Bíblia é um “guia rápido para enriquecimento”, certos pregadores fazem verdadeira “reengenharia hermenêutica”. A hermenêutica orienta a aplicação do conteúdo do texto sagrado de modo adequado e honesto – prática que pouco interessa a quem está disposto a corromper o conteúdo das Escrituras.

Mas vamos a um fato. Vez ou outra alguém cita a passagem de Mateus 21, aquela clássica passagem que narra a entrada de Jesus em Jerusalém durante a festa. Como sabemos, Jesus faz a chamada “entrada triunfal” montado numa jumenta. A ocorrência havia sido profetizada por Isaias 62.11, tamanha a importância que da cena.

Os mal intencionados, para fazer de Jesus o “guru da prosperidade” afirmam ter ele entrado na cidade montado numa jumenta porque era o melhor veículo que dispunha. E acrescentam: “Se fosse nos dias de hoje, Jesus usaria uma BMW". Já ouviu essa besteira ou algo assim? O seu pastor já disse isso?

Pois bem, vamos revelar a “burrice” de quem pensa assim.

Em primeiro lugar, o espírito do Evangelho não é esse, digo, que o homem seja seduzido pelas riquezas. A Bíblia não estimula a isso. Nada mais longe da verdade. Pensar que as Escrituras orientam e até mesmo prometem/garantem riquezas e prosperidade a todos indistintamente equivale a dizer que os grandes nomes, os gigantes da fé do passado, foram muito desinformados. Paulo, Pedro, Agostinho, Wesley, Calvino, Lutero, Whitefield, Müller e dezenas de outros nomes nada souberam sobre essa proposta capitalista e mesquinha de fazer da Bíblia a chave para o aumento da renda e das posses. Quem pensa assim nunca leu um só parágrafo sobre a história da Igreja.

Em segundo lugar, é mais que burrice pensar isso a respeito da Bíblia, pois demonstra total desconhecimento sobre o seu próprio conteúdo. Eu explico: mil anos antes de Jesus, o rei Salomão já mantinha cidades-armazéns (isso, no plural: cidades) apenas para guardar os cavalos importados que trazia da Arábia e os carros de Guerra (1Reis 9.20). “Salomão possuía quatro mil cocheiras para cavalos de carros de guerra, e doze mil cavalos” (1Re 4.26). Essa quantidade absurda, Salomão usava para aparelhar o exército que herdou de seu pai Davi.

Se Salomão, que embora tenha sido um dos homens mais ricos da história, foi considerado por Jesus menor do que este, por que Jesus não usou algo melhor que uma jumenta? Se mil anos antes de Jesus, Salomão tinha recursos mais nobres, era de esperar que o próprio Jesus, o Messias esperado, fosse mais “esparto” que o antigo rei e “esnobasse” os incrédulos infiéis desfilando ao menos uma carruagem importada! Não foi isso o que aconteceu.

E por último, ao entrar em Jerusalém montado num jumento, Jesus desfez e frustrou propositadamente as expectativas erradas sobre a sua pessoa e missão. Os judeus, e alguns discípulos de Jesus, aguardavam um líder com motivações militares, um libertador forte, algo como o próprio Davi havia sido. Não foi o que aconteceu. O Reino de Jesus era de outro mundo e outra natureza e ele não alimentou expectativas erradas a esse respeito. Assim, em vez de montar um caríssimo cavalo árabe, coisa para “Salomões”, ele montou uma jumenta, mansa como ele mesmo. E com isso, ficou clara a natureza de sua missão.

Resta aos pregadores inconvenientes, que não lêem a Bíblia e ignoram o seu conteúdo, fazerem afirmações enganosas e levarem ouvintes interesseiros a crerem em discursos triunfalistas, de auto-ajuda, mas bem distante da verdade de Deus.

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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Platão, o profeta, estava certo

Em A República (Livro VII), Platão reproduz uma metáfora contida num diálogo entre Sócrates e seus interlocutores Glauco e Adimanto, irmãos mais novos de Platão. A metáfora é conhecida como a metáfora da caverna, mito da caverna ou alegoria da caverna e conta a situação de homens que nasceram e cresceram dentro de uma caverna, nada sabendo sobre o mundo externo. Esses homens ficam de costas para a entrada, presos, imóveis, e olham fixamente a parede do fundo da caverna, Nela são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, e esses sons são associados às sombras. Os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

Um dos prisioneiros consegue se libertar e avança na direção do muro. Ele o escala e consegue sair da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e em seguida o mundo e a natureza, o sol, e as aves, enfim, tudo o mais. Mas um dilema se instala: se voltar e anunciar sua descoberta pode ser desacreditado, tido como herege, preso, espancado e morto. Vamos parar aqui.

O mito da caverna tem sido interpretado como uma metáfora para a situação daqueles que há séculos vivem e confiam na religião, a caverna. Todo conhecimento religioso é obtido a partir do empirismo, daquilo que percebemos com os sentidos e intuição, sem o saber científico. Muitos que estão privados do saber científico às vezes pensam que tudo sabem, que o conhecimento que possuem é suficiente para que entendam e expliquem tudo.

No mito da caverna os homens que lá viviam achavam que a realidade da caverna era a única realidade existente. É preciso romper com esse mundo fechado, ter coragem para fugir na direção da luz para descobrir o mundo real. No caso, entendia-se que a luz que projetava sombras distorcidas na parede era a visão que eles tinham da realidade, distorcida do mundo real. E isso não ocorre somente com os prisioneiros de Platão, mas também com os que negam o saber científico, com os que nada sabem e pensam que tudo sabem.

Mas... espere um pouco. Não é a mesma ciência que nos dá certezas e convicções? Saber apurado e sólido, livre das ilusões e mitos? É a ciência que nos faz ver o mundo como ele é à partir da... observação insistente, repetida, catalogada e interpretada à luz...à luz de quê? À luz daquele saber preso a Leis e Padrões e Métodos, nada fora daquilo que ela mesma usa para validar o próprio saber científico.

Assim, Platão esteve certo o tempo todo e pseudo cientistas tomaram de assalto o mito da caverna para atacar quem vive pela fé. Pois é a fé – e não a ciência – que leva o homem para fora do seu mundo, para encontrar-se com estados e realidades fora desse ambiente onde vive. O homem não sai da caverna porque tem certezas – sai da caverna porque crê haver algo além das luzes projetadas, sai porque crê haver muito mais do que aquilo que esteve observando todo o tempo. Não são os crentes, os religiosos, que acreditam e esperam viver um dia num mundo melhor, e até mesmo num céu lá fora desse mundo?

Penso que Platão estava realmente certo. A filosofia da época não queria muita intimidade com a religião. A ciência de hoje, a legítima ciência, nada tem com a religião; são campos de atuação distintos e não conflitantes. Dão respostas à perguntas que reclamam cada qual o seu domínio. Mas há pseudo cientistas entre a ciência e a religião, muitos infiltrados até mesmo nos domínios desta, e que tentam miná-la porque pensam que aqueles que conhecem uma luz mais intensa, mais forte que a luz do sol ao meio dia, trouxeram e mantêm ideias fictícias, ilusórias demais para um mundo seguro, científico e tecnológico como o mundo da pós-modernidade do século 21.

Platão, porém, além de filósofo, pelo jeito também foi profeta. Viva a fé!

"Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho. Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que aquilo se vê não foi feito do que é visível". (Hebreus 11.1-3)

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Nosso estranho modo de amadurecer

“Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino” (1Corintios 13.11).

Já notou como reagimos diante do amadurecimento? O adolescente, quando se dá conta da eclosão da primeira espinha, estremece apavorado não pela deformidade facial, mas só por imaginar que alguém poderá “confundi-lo” com uma criança. Embora não alcance bem o pedal do acelerador do carro, criança ele também não é mais: agora é a-do-les-cen-te, com todas as letras, e espinhas.

Depois se torna jovem, olha para as coisas dos adultos já quase “podendo” fazê-las livremente, mas ainda não pode. E desdenha a fase anterior, embora as espinhas insistam em fustigar sua epiderme.

Quando adulto, tudo muda. A confusão entre as fases é dissipada por um simples olhar. Está lá: é um adulto, está na cara, já sem espinhas. Segue a fase madura e com ela um estranho modo de ver as coisas. Já pouco importam as classificações, as definições e rótulos. Imagino que os muitos anos olhando no espelho serviram para sedimentar uma autoimagem e, com ela, a compreensão própria de cada fase anterior.

O homem maduro fica sem vergonha? Não, só fica ressentido de uma palavra mal dita, um excesso recente, uma risada mais escandalosa. Mas já não liga tanto para classificações. Elas eram coisas de menino, como o apóstolo Paulo categorizou. Coisas de meninos no tempo de menino; depois, novos modos de raciocinar.

Assim também é na formação espiritual e mesmo a intelectual. O tempo cuida de despir-nos das categorias: não importa classificar, rotular, endurecer-se a todo custo, para não parecer isso ou aquilo. A quem interessa descolar uma ou outra imagem? Se olhando para nós veem quem somos, não será preciso dizer, afirmar, fazer distinções. Penso que em circunstâncias normais, aquele que precisa definir-se “assim ou assado” é porque ainda tem sido confundido com “isso ou aquilo”. É aqueles que não conseguimos distinguir, se “é ou não é”.

Espinhas todos vão ter. Há quem queira vê-las logo no rosto, há quem lute contra a sua insistente permanência e há quem as deixe para trás, como coisas de menino.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Imitar a Paulo, em quê?

Paulo, de Rembrandt

Com certa frequência advirto os alunos no seminário a que considerem o contexto de um versículo antes de emitir uma opinião. Regra básica na hermenêutica bíblica. E como evita erros!

Considere isoladamente 1Corintios 11.1: "Sede meus imitadores, como tambem eu de Cristo". A partir dessa declaração paulina, muitos irmãos têm se admirado do apóstolo, que nesta situação apareceria como padrão de maturidade e comportamento cristãos a ser seguido. Fico imaginando quantas mensagens foram incrementadas com a exclamação: "Vejam a coragem de Paulo, recomendar a si como cristão". Mas teria sido essa a sua intensão? Paulo estaria chamando para si a responsabilidade de tornar-se o paradigma da fé cristã para toda a Igreja ao longo dos últimos dois mil anos? Vejamos que diz o contexto.

No capítulo anterior ele tratava da liberdade do cristão, onde encontramos outro versículo clássico ("Tudo me é lícito, mas nem tudo convém"). Sua liberdade esbarrava na questão dos pratos oferecidos a outros deuses nos cultos pagãos. O cristão maduro, Paulo argumenta, deve privar-se de sua liberdade em favor dos mais fracos.

Nenhuma prática deve limitar-se ao simples prazer pessoal, quer eu beba, quer eu coma (v. 31). Se Paulo escrevesse isso hoje talvez incluísse em seu argumento coisas como ouvir rock, vestir determinadas roupas, frequentar certos ambientes, quem sabe? A maturidade de consciência de alguém não pode tornar-se impedimento ou escândalo a que outro chegue à fé, quem quer que seja. Nem judeu, nem grego, nem os próprios cristãos (v. 32). Hoje ele se preocuparia com etnias, minorias, guetos e tribos, sem esquecer-se da grande mídia.

Esse foi o cenário da declaração de Paulo. Após aconselhar a seus leitores ele disse agir assim: "Também eu procuro agradar a todos, de todas as formas. Porque não estou procurando o meu próprio bem, mas o bem de muitos, para que sejam salvos" (v. 33). Paulo construiu todo o argumento e agora está se encaminhando para o arremate, dizendo que não usou do seu direito à liberdade quando a questão envolve a consciência e mesmo a salvação de outros. E por que ou baseado em que ele faz isso? Por causa do exemplo que viu em Jesus. Onde? Em toda a sua vida e morte. A própria morte do Senhor demonstrou que Ele pensou na nossa salvação, e não em si.

Em Filipenses 2.5ss., por exemplo, Paulo usou o mesmíssimo recurso ao dizer: "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se". E por que Jesus fez isso? Pela nossa salvação, em nosso benefício.

Esta é a situação na qual o apóstolo fez a declaração que temos discutido. Se eu fosse parafrasear a citação, teria algo assim: "Não pensem somente em si, mas considerem também os outros, os que podem ser alvos da salvação. Cristo pensou assim ao encarnar-se e eu O imito. Façam a mesma coisa: sejam meus imitadores, como eu também imito a Cristo".

É a esse comportamento e preocupação que Paulo diz para que o imitássemos; mas não a toda a sua vida. Evidentemente que concordamos ser ele um grande apóstolo, talvez o mais expressivo. Sua vida é, para nós, de grande inspiração. Mas guardadas as devidas proporções, ele mesmo disse não ser perfeito.

Coisas que queria fazer por saber ser o certo, não conseguia. O que queria abandonar por saber ser errado, não tinha êxito. E mais, se Paulo estivesse dizendo para que o imitássemos em tudo, teríamos aqui a primeira crise da história da Igreja, a base bíblica para a divisão, um pecador igualando-se ao próprio Jesus, aquele incomparável Homem a quem verdadeiramente devemos procurar imitar, esse sim, em tudo.

Portanto, considerando as pessoas à nossa volta, façamos como Paulo, refletindo de que modo nossos atos podem contribuir com o fortalecimento da fé alheia. Vamos imitar a Paulo nisso e a Jesus em tudo!

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