sábado, 6 de novembro de 2010

Não quero candelabro

Existe uma expressão bíblica chamada “sombra” (Hb 8.5; 10.1). Como a própria palavra indica, uma sombra não é a realidade, mas uma projeção, uma parca figura daquilo que é real, verdadeiro: “A Lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não a sua realidade. Por isso ela nunca consegue, mediante os mesmos sacrifícios repetidos ano após ano, aperfeiçoar os que se aproximam para adorar.” (Hb 10.1, NVI).

A palavra sombra é usada para apontar todos os aspectos da lei, dos sacrifícios e toda a tipologia do Antigo Testamento, que teria cumprimento futuro na pessoa, vida e obra de Jesus Cristo. No passado, Deus não removia pecados, mas deixava-os ali, cobertos (Rm 3.25), até que o sacrifício perfeito fosse realizado. Por isso, quando João Batista vê a Jesus, diz que ele é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Os cordeiros usados nos sacrifícios antigos eram sombras do Cordeiro real, perfeito, que removeu definitivamente os pecados. Assim, não sacrificamos mais animais, pois o sacrifício perfeito já foi feito. Preferimos o real à sombra.

Há centenas de figuras tipológicas no Antigo Testamento cujo cumprimento está em Cristo. Eram todas sombras. Veja a tampa da arca, chamada propiciatório (Ex 25.21a), ou seja, um lugar onde o relacionamento entre Deus e o homem se tornava “propício” (Hb 9.11-15; comp. “trono da graça” em Hb 4.14-16 e “lugar de comunhão” em Ex 25.21-22). Mas a tampa da arca, o propiciatório, era sombra do que viria. Por isso João e Paulo referem-se a Cristo como nossa “propiciação” (1Jo 2.2; 4.10; Rm 3.25), pois somente por sua obra o nosso relacionamento com Deus se tornou favorável, propício. A sombra, então, deve desaparecer, já que o verdadeiro significado foi revelado. Preferimos o real à sombra.

Poderia mencionar muitas figuras do Antigo Testamento que eram simplesmente símbolos da realidade, sombra dos benefícios que haviam de vir. O candelabro, por exemplo, provia iluminação dentro do tabernáculo, já que não havia incidência de luz externa em seu interior. Isso significa que a compreensão das coisas de Deus não vem pela iluminação intelectual ou racional, mas pela iluminação dada pelo Espírito de Deus e nada mais. O próprio Jesus disse ser a verdadeira luz (“Eu sou a luz do mundo”. Jo 8.12). Quando Jesus se manifestou ao mundo, não foi preciso usar representações dele, sombras dele, pois o real já estava entre nós e compreendemos o que a sombra queria dizer veladamente.

Por isso, não entendo quando uma Igreja é enfeitada com elementos judaicos, ultrapassados e impróprios para aqueles que dizem já ter a revelação completa de Cristo. Não faz qualquer sentido usar arcas, candelabros, querubins, shofares, celebrar as festas judaicas, nem toda essa parafernália gospel que só deveria ser usada por aqueles que ainda não conhecem a Cristo.

Adotar qualquer desses objetos apenas indica que o real, o verdadeiro, ainda não está ali; por isso é preciso colocar algo no lugar onde o real ainda será manifestado. Adotar qualquer desses objetos ou cerimônias dá a seguinte mensagem: ainda estamos aguardando a revelação daquele que essas coisas representam. Ainda teremos o Cordeiro, ainda seremos propícios a Deus, ainda teremos luz, pois estamos em trevas, nas sombras dos benefícios que hão de vir.

Paulo escreveu a carta aos gálatas para esse fim: dizer que não deveriam retornar aos símbolos do passado, já que o real havia sido manifestado (“Maldito todo aquele que não persiste em praticar todas as coisas escritas no livro da Lei”, Gl 3.1-10). E o autor da carta aos hebreus também afirma que a sombra “... nunca consegue, mediante os mesmos sacrifícios repetidos ano após ano, aperfeiçoar os que se aproximam para adorar.” (Hb 10.1). No esforço por melhorar a aparência do culto, muitas igrejas têm dado testemunho de não conhecerem o que estão adorando.


* Para aprofundar-se no tema, sugiro a leitura do meu livro Onde Estava o Cristo. http://www.arteeditorial.com.br/catalogo/shopexd.asp?id=1

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Evangelho e cultura

A história da Igreja descreve algumas questões que, vez ou outra, retornam a pauta do dia, revelando que alguns pontos não são facilmente equacionados em relação a outros. Que Cristo é o único caminho para o Pai é ponto passivo, não se discute mais. Mas e a questão trazida pelo Rev. Julio Zabatiero em Evangelho e Cultura, da relação entre evangelho, cultura e contextualização tem surpreendido alguns cristãos ao longo dos séculos, notadamente aqueles envolvidos com a pregação do evangelho e com as missões.


O autor parte das definições de cultura e evangelho, pontuando cada uma delas de maneira clara e universalmente aceitas (embora não exclusivas), e indicando que nosso interesse, como fazedores de teologia, é “posicionar-se a respeito das relações entre Evangelho e Cultura” como tarefa fundamental. Mesmo tendo conceituado cada elemento da discussão, vemos, ainda, uma advertência de que “o Evangelho não é uma cultura, mas um conjunto de formas simbólicas originalmente construído através de um processo histórico em que Deus se revela à humanidade, no âmbito da sociedade e cultura judaicas”.

O destaque dado ao fato da existência de uma revelação de Deus à humanidade é notável, já que indica que, como revelação, (a) poderia ter sido manifestada a qualquer outra cultura ou sociedade e (b) não é – como de fato está explícito – uma cultura, como fruto da elaboração ou como produto essencialmente humano. Assim, “o Evangelho pode se encarnar em cada cultura na qual é anunciado, de modo que sua transcendência permaneça juntamente com a sua imersão nessa cultura específica” (grifo acrescentado).

O terceiro ponto, após trabalhar os conceitos de Evangelho e de cultura, é a questão da forma ou do modo como se dá a contextualização. E introduz o tema ou a discussão já antecipando que, “na medida em que a Palavra de Deus se encarna na igreja, o evangelho toma forma na cultura”, ou seja, a manutenção da genuinidade do evangelho (em oposição a uma pregação dogmática) promove a imediata ambientação da igreja à cultura na qual está inserida e a transformação da própria cultura – o que é, em última análise, uma resposta positiva a uma das funções do evangelho, que é a transformação do indivíduo. Esta é a avaliação de Mendonça e Velasques, sobre o fator que norteava as missões da corrente calvinista.

A outra corrente, de natureza “avivalista”, lidava com a conversão individual, “pela experiência pessoal e emotiva”. Nesta, notava-se a ruptura com o ambiente do indivíduo agora convertido, mas as mudanças eram notáveis “através da adoção de novos padrões de conduta”.

Concluindo, ambos os modelos frutificaram na cultura brasileira. E o mesmo, com pequenas ressalvas, poderia ser dito da inserção do Evangelho em outras culturas. William Carey (1762-1834), em missão pela Índia, decidiu que não pregaria contra o islamismo, mas que aproximaria dos indianos por meio do evangelho, mas isso decidiu apenas após anos sem colher um só fruto de seu trabalho no campo missionário.

Dessa forma, entendo ser necessária a contextualização, protegendo os princípios inegociáveis e negociando os parâmetros permitidos pelas Escrituras. O caminho deve permanecer sendo o mesmo anunciado pelo Senhor. Mas o modo como vamos andar por este caminho é determinado, ao que parece, pela topografia de cada cultura.

Citando Enio Müller, “a verdade não é um objeto do qual eu me aproprio, mas um caminho no qual eu ando”. E se ando por um caminho, é natural ver paisagens distintas a cada espaço percorrido.

Diante do protestantismo de missão em terras brasileiras, os brasileiros, muitos deles, não aceitaram a pregação norte-americana – e este é o questionamento que me ocorre diante do texto proposto. Mas será que foram os missionários dos EUA que abriram a porta para a importação da cultura daquele país? Sim, porque até então os padrões sociais eram determinados pelas matrizes católicas européias/portuguesas. Se foram esses missionários os responsáveis pela vinda dos hábitos e costumes norte-americanos e os brasileiros não aceitaram a fé que anunciavam, mas apenas a cultura – e esta de natureza questionável nas últimas décadas – são eles, em última análise, que podem ser responsabilizados pela atual situação na qual o brasileiro recebe como “sagrado” tudo o que desce ao hemisfério sul. Isto é apenas uma reflexão.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Espiritualidades contemporâneas


A fim de indicar a possibilidade de diferentes conceitos de espiritualidade discutidos hoje, dentro de cenários culturais e religiosos diversos, há dois textos recomendados pela academia. Um, de Ana Maria Tepedino, Espiritualidade: relações e conexões, parte do ponto de vista feminino e resvala na convicção de que questões milenares do âmbito social, de gênero (masculino x feminino), políticas e até mesmo econômicas podem ser resolvidas com a correta compreensão e formulação de uma nova sensibilidade espiritual, um ecocentrismo em vez de egocentrismo e a consequente promoção da saúde humana, social e, evidentemente, espiritual.


O outro texto, do Rev. Ricardo Barbosa de Souza, Espiritualidade e Espiritualidades, trilha um caminho bem diverso. Busca as raízes históricas da perda humana da espiritualidade, perda esta ocorrida após uma saudável explosão do cultivo desse aspecto da vida humana (e da própria relação com Deus e consigo), nos primeiros séculos da era cristã, passando pelo período monástico, medieval, escolástico e Reforma, desembocando no Iluminismo, quando a racionalidade sufocou a procura pelo significado espiritual do homem.

Mas esse “sufocamento” não passou desapercebido. O espírito humano “mandou a conta” por meio de uma sociedade sem referencias seguros e duradouros, emocionalmente doentia e desconectada da realidade mais ampla da vida, na qual são contemplados os elementos sociais, pessoais e transcendentais da experiência humana.

Identifico-me mais com a segunda proposta, pois diferente do primeiro texto, não aborta o olhar para do ambiente religioso – ao contrário – olha por meio da história e de seus desdobramentos sociais, mas usa as lentes da espiritualidade bíblica. O primeiro texto, apesar de ser apresentado por meio de um discurso que abusa das expressões e modismos mais atuais, lança um olhar para o alto sem ter lançado um fundamento para isso. Parece estar revestido de uma “aura” pós-moderna, com preocupações características do século 21, mas não trabalha com a herança recebida, e que nos legou a atual situação e configuração das coisas.

Assim, entendo que uma espiritualidade que faça sentido no século 21, não pode desconsiderar o homem, a compreensão que tem de si, mas partindo de um referencial adequado, qual seja, Deus. E que Deus ou que perspectiva de Deus? A partir da revelação contida na Palavra de Deus, na teologia cristã. A teologia cristã e sua ascendência (os textos bíblicos) lidam com aspectos emocionais e racionais promovendo a restauração do equilíbrio necessário para a formação de uma pessoa.

Essa pessoa, decorrente do exercício da espiritualidade que procura na teologia cristã o seu tutor, resultará num cidadão que vê a Deus, o próximo e o mundo no qual todos vivem e convivem harmoniosamente, como o ambiente social onde deverá ocorrer a manifestação da sua própria espiritualidade. Explico melhor. A reflexão teológica que parte da perspectiva cristã irá formar cidadãos para o mundo. Não irá formar cristãos para atuarem em seus guetos. A reflexão teológica cristã aponta para o valor da espiritualidade em função não de si mesmo, do isolamento, do sectarismo e alienação. Antes, leva a ver o mundo de Deus, com esse Deus presente, com as demais criações e criaturas de Deus.

Essa pessoa cuidará de promover a pacificação, terá um olhar ecológico, verá a Deus no próximo e a necessidade de estender a ele a misericórdia (que em última instância é proveniente de Deus). É nisso que se distingue a espiritualidade cristã. Ela não vê nas estruturas, nas demandas atuais e nos problemas pontuais o sinal de advertência. Ela faz uma leitura mais ampla e eleva o pensamento humano para, por meio dessa altitude, poder ver melhor e mais distante.

Para mim, espiritualidade é a prática de uma vida inserida na dinâmica social, que considera ou que leia o mundo e suas demandas com os olhos da Palavra de Deus. É ter a mente de Cristo e pensar os pensamentos dele nas tomadas de decisões em questões pessoais, religiosas, profissionais, sociais e políticas. É viver no mundo sem tirar os olhos de Deus. É como expressou o autor da carta aos Hebreus: “Olhando para Jesus, o autor e consumador da fé”, ou como orou Josafá, “Os nossos olhos estão postos em ti”. Josafá, rei, responsável pela segurança de Israel, estava cercado por três exércitos inimigos, mas mesmo assim não deixou de considerar a possibilidade da atuação e intervenção de Deus em sua causa militar.

Conseguir manter, nas mais diversas situações, a confiança em Deus, a presença diante dele e o equilíbrio que decorre essa postura é o objeto da espiritualidade, sua razão de ser e o seu objetivo.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Espiritualidade e saúde

O texto do Dr. Leo Pessini, A espiritualidade interpretada pelas ciências e pela saúde (2007), é uma importante e rica fonte de citações de renomados pesquisadores da área da saúde a respeito da secular discussão sobre religião e ciência. Aqui reside um aspecto que diferencia o enfoque do artigo, pois à questão “religião e ciência” (ou religião versus ciência), o autor acrescenta espiritualidade e saúde, elementos contemporâneos neste debate.


É conhecida a “batalha” travada entre os dois campos do conhecimento humano. Teólogos e cientistas acusam-se, refutam-se, rejeitam-se, argumentam contra e desdenham-se mutuamente, reivindicando legitimidade para o seu próprio discurso, para as suas próprias teses e teorias, para as suas cosmovisões.

Dentre muitos esclarecimentos que o artigo traz, é interessante destacar a distinção feita entre religião e espiritualidade. A religião é um sistema e é institucionalizada e a espiritualidade pode ser experimentada até mesmo por um ateu. Outro destaque importante para fixar a posição de cada área do conhecimento é a apontada pelo físico Marcelo Gleiser, de que a ciência ocupa-se em dar respostas para coisas do âmbito da natureza, enquanto que a religião vai lidar com o mundo da fé e da realidade sobrenatural.

De fato, baseado no que se pode observar no cenário religioso/espiritual (para não citar aqui diversas passagens das Escrituras do Novo Testamento) não é coerente desprezar as ocorrências que testemunham no sentido de que algo verificável (base do método científico) tem ocorrido. Os relatos de cura nos Evangelhos, os testemunhos ouvidos em nossos dias, todos são elementos palpáveis de que há uma relação umbilical entre os aspectos físicos e espirituais no ser humano.

O estudo etimológico do Antigo Testamento, por exemplo, revela que não há uma palavra no idioma hebraico para corpo. Não há distinção entre os âmbitos físico-químico e espirituais do ser. Alma ou alma vivente é o modo como os autores daquela porção das Escrituras referem-se ao homem. Uma unidade indivisível, um sistema fechado onde existem causas e efeitos próprios. Somente com os gregos veio o conceito de corpo físico e corpo imaterial, o que, mesmo assim, não elimina o vínculo e as reações correspondentes que podem ocorrer quando há desequilíbrio em algum desses “corpos” e o efeito que um provoca no outro.

Um conhecido meu, psiquiatra, confidenciou-me que já tratou casos de pacientes com dificuldades em sentir-se perdoado. Embora tivesse sido assistido em algumas seções de aconselhamento e terapia, somente a ministração de drogas que atuam em elementos químicos específicos nos neurotransmissores pode afastar a sensação de rejeição da divindade.

Poderia, aqui, dar o testemunho da minha própria conversão. Após mais de seis anos na dependência de drogas como cocaína e maconha, uma oração feita por uma cristã levou-me a fé libertadora. Na linguagem do artigo, houve cura somática por uma ação no âmbito da espiritualidade. Não fiquei internado num centro de reabilitação ou dependente de drogas lícitas para controlar qualquer síndrome de abstinência, não tive reações colaterais de qualquer natureza; simplesmente fui liberto, curado do vício, da dependência na qual vivia há anos por meio de um reequilíbrio entre o material e o espiritual. Quem não conhece alguém que teve a mesma experiência? É observável, só não se sabe como, do ponto de vista médico.

Assim, fazem bem as ciências médicas e mesmo as corporações experimentar um aprofundamento nas questões espirituais. Como disse David Sloan, até mesmo o ateu tem condições de experimentar a espiritualidade em suas mais diversas relações, seja com a família, com as amizades, com a natureza, com as artes.

É evidente que, como cristãos, indicaríamos a espiritualidade baseada ou a partir dos pressupostos bíblicos. Mas como o tema é a espiritualidade (e não espiritualidade cristã, somente) que pode aliar-se à ciência médica na busca por cura e melhoria na qualidade de vida das pessoas, não podemos dogmatizar e condicionar a legitimidade dessa experiência ao raio de ação da instituição religiosa cristã. Até porque seria uma franca heresia entender que o cristianismo detém os direitos de uso do exercício da espiritualidade ou que tenha patenteado as doses e a fórmula para a cura que advém da experiência mística.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Espiritualidade em busca de sujeitos


Quero comentar dois textos que podem ser chamados de síntese – cada um na sua respectiva área – do espírito distinto que rege ocidentais e orientais. O comércio do sagrado, do Pr. Dionísio Oliveira da Silva, é o retrato puro e simples da pragmática norte-americana. Embora não reflita com cem por cento de acerto a espiritualidade brasileira nem latino americana (ainda que parte dela), traz consigo a marca do sentimento popular, das ânsias e desejos, tanto dos americanos do sul quanto dos do norte.


Em determinados pontos do texto podemos identificar claramente o espírito malandro, o jeitinho, tão característicos do nosso povo, e também a própria idolatria tão característica de uma nação colonizada por católicos e amamentada por africanos, com suas práticas rituais. A caricatura que o autor faz da identificação da divindade com a mercadoria (no mercado) é a mais pura representação do rumo (e por que não dizer da práxis) que hoje algumas igrejas tem experimentado. Há quem vá dizer que isso é reflexo direto da importação da teologia dos EUA. Outros, por sua vez, dirão que é a precária cena social no nosso próprio continente que demanda esse tipo de busca, uma vez constatada a falência do Estado para dirimir questões que são (ou seriam) da sua esfera de responsabilidade. Ambos tem a sua parcela de razão.

No entanto, não podemos negar a culpa, por assim dizer, do sujeito, do negociante. As teologias e as espiritualidades não nascem por si; são elaboradas por alguém em função da sua relação com o outro (e muitas vezes até com a divindade!). Assim, o sujeito da ação é, ao menos em última análise, o responsável por esta demanda. Não houvesse interesse, busca, resposta, esse discurso materialista, pragmático, mercantilista não teria ecoado e se avolumado no cenário religioso, no terreno do sagrado, na esfera onde deveríamos encontrar refúgio para os cansados. Mas não, houve uma importação dos interesses pessoais para a mesa onde a ceia da comunhão com o espírito estava sendo celebrada. E o pão que deveria ser uma representação da presença de Deus passou a ser o objeto da adoração.

Já o outro texto, com a pauta oriental em suas construções, vai cumprir o papel que lhe cabe, qual seja, expressar a sensibilidade, a serenidade e a leveza do pensamento e comportamento orientais. Este, no entanto, tem um tempero mais agressivo que o habitual. A experiência religiosa e a meditação, de Jiddu Krishnamurti, trabalha a conceituação dos termos propostos no seu título (experiência religiosa e meditação), fazendo contrapontos com o que não é experiência religiosa e a má compreensão do que é a meditação. Claramente vê-se aqui um ataque com luvas de pelica ao – e novamente ele – pragmatismo ocidental e ao espírito de urgência alimentado e cultivado por cada um de nós. Mais que isso, ataca-se toda e qualquer forma de religião, organização religiosa ou os “gurus”. Falha o autor, pois ao pretender apontar o caminho, qualquer que seja, faz-se ele mesmo de guru. O texto é pontuado de contradições em suas conceituações e contradições internas (uma afirmação contradiz outra logo em seguida).

Ele não quer lidar com a religião e ataca frontalmente o objeto da religião e da espiritualidade ocidental (Deus), afirmando que se trata de projeção da mente. Não é possível, segundo ele, conhecer nem experimentar a divindade, qualquer que seja, pois como podemos experimentar algo que não sabemos de antemão como é? Assim, segundo ele, fica comprometida também a própria experiência religiosa. Mas o que ele coloca no lugar de Deus em seu texto é o próprio homem, e o homem que medita. Medita como? Novamente ele ataca, e agora o seu próprio ninho, os gurus da meditação zen, meditação transcendental etc. Para o autor, são “vendedores de sistemas” e “sistemas mecanizam” o homem em vez e libertá-los.

Qual a saída? “Comprar o pacote” que ele vende e, com isso, vejo um ciclo vicioso do qual ele não sairá facilmente; não neste texto. Pois o que faz em seguida é oferecer o seu sistema, embora dando-lhe outro nome para “evitar” ser confundido com o que ataca. Não estou mergulhado na cultura oriental, mas pareceu-me ser a versão asiática da pragmática e do comércio do sagrado.

Para concluir, gostaria de apontar algo que achei muito proveitoso, quando trata do modo como lidar com a memória, com as experiências e os pensamentos. O autor vai propor um “olhar para fora”, para fora de si em busca do belo, do ideal. É possível, aqui, para o cristão, refletir sobre o próprio significado da ecclesia, que nada mais é do que “sair do meio” (no caso, o sistema judaico). Ao menos nas obras que tenho lido, pouco se fala sobre esse ponto (devo confessar que leio pouco sobre o assunto e quando o faço, leio autores ocidentais).

A proposta é, ainda, muito similar ao conceito de kenose cristão, o esvaziar-se de si mesmo, a exemplo do que faz Jesus e que Paulo narra em Filipenses 2.5-11. Talvez o que ficará da leitura desses textos são o alerta para a materialização exacerbada que ocorre no comércio do sagrado e essa questão que acabei de apontar, da necessidade de um esvaziamento dos próprios interesses, das próprias ganâncias tão nossas e que prejudicam não outros, mas a nós mesmos. A troca de experiências com os orientais deveria, sim, ter algo a ensinar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Como esperamos a aurora?

A obra do historiador Jean Delumeau, À Espera da Aurora (2007, Loyola, 215pp.), é uma importante peça de análise e perspectivas sobre o Cristianismo, mormente o cristianismo Católico Romano.


Desse modo, é possível dividir a obra em duas partes, a primeira lançando um olhar retroativo nas questões, digamos, da sociologia da religião, comparando-o com outras cosmovisões e apontando certa “inocência” daquele em relação aos enganos destas.

A segunda parte Delumeau utiliza, após ter lançado o fundamento do seu edifício, para fazer uma leitura contemporânea sobre o diálogo inter-religioso e o faz do ponto de vista católico romano. Ele entende ser esta a instituição a responsável pela iniciativa de tal diálogo, uma vez que a vê como a majoritária instituição dentro do ambiente cristão. Mas não é apenas isso o que Delumeau pretende. Sua proposta é fundamentar o diálogo inter-religioso com vistas “à aurora”, a qual espera, e deve ser entendida como o novo limiar na comunidade religiosa global, quando as diferenças cúlticas serão mantidas cada qual no seu ambiente, mas o espaço público será marcado pela convergência de elementos comuns a todos os credos que se dispõem a uma convivência pacífica, de aprendizado mútuo e de troca de experiências. Nessa altura, ele pergunta, repercutindo a pergunta dos bispos em Lourdes, na França, em 2000: “Como anunciar o Evangelho hoje em dia?”

Delumeau, então, analisa o Cristianismo, primeiramente, em termos de números, e começa o seu texto citando pesquisas exaustivamente, todas elas executadas e levadas a cabo por órgãos do velho continente. É possível, a partir da leitura de tais pesquisas, notar (parafraseando Rubem Alves em Dogmatismo e Tolerância ou em Religião e Repressão) que as instituições estão em baixa, ao passo que a crença está em alta. Essa constatação é amparada pelo olhar evolucionista, quando deixa claro que somos (o Cristianismo) muito jovens.

É neste mesmo capítulo cuja tônica é apresentar números e a realidade – não considerada nas estatísticas – que os cristãos, à exemplo do que fez, também foram massacrados e martirizados. Não somente perseguiu (p. ex. na Inquisição), mas foi, notadamente no século XX, vítima de um programa de erradicação, num século quando a geração nada sabe a respeito do religioso cristão, mas demonstra, paradoxalmente (segundo as estatísticas), um crescimento do interesse em espiritualidade.

Em seguida, Delumeau, que já havia apontado o Cristianismo como responsável por grandes desenvolvimentos da humanidade, elabora um capítulo que se resume no seguinte: ciência e religião não devem excluir-se, mas ambas devem ficar maravilhadas diante da “obra da criação”. E esta obra, para a religião, aponta o Criador; para a ciência, aponta o belo. No entanto, Delumeau trata de colocar os devidos pontos a estes termos, quando fala da ciência e sua incapacidade de dar a palavra final. A cada descoberta, novos enigmas. A ética, por exemplo, não é simples alocamento químico-molecular. É transcendental, como em Dostoieviski (embora ele não cite o escritor russo). A palavra final é dada pela Bíblia e o fundamento da ética e da moral é Deus, e não o homem.

Na segunda metade do livro, Delumeau vai estreitando cada vez mais o seu foco para apontar, como já especifiquei no início dessa resenha, as questões do diálogo inter-religioso e este encabeçado pela igreja Católica. Cita vastamente frases e situações envolvendo Paulo VI e João Paulo II, suas viagens, concílios e documentos, com o claro intuito de demonstrar a existência de boa vontade por parte dessas lideranças – e também no arraial luterano e metodista – mas que é preciso fazer mais e fazer algo que retire do discurso e do papel e seja traduzido por ações e convivência que demonstre a eficiência de tais atitudes.

Gostaria de destacar dois pontos na obra de Delumeau, um positivo e outro negativo. O negativo é que, talvez por uma questão de “orgulho” nacionalista, o autor concentra suas leituras a fontes européias. As ocorrências de dados sobre a Ásia e América Latina não são dele, mas dessas mesmas fontes que – elas sim – preocuparam-se em dar um panorama mais abrangente do assunto tratado.

Delumeau peca com este “estreitamento”, pois ignora grandes trabalhos feitos, por exemplo, no Novo Mundo. Um caso bem conhecido, a obra de D. James Kennedy E se Jesus não tivesse nascido (2003, Ed. Vida), é imensamente mais abrangente (e faz isso num só capítulo, não em metade de sua obra!) quando cita as atrocidades cometidas por ideologias várias frente àquelas das quais os cristãos vez ou outra são acusados, como as Cruzadas e a Inquisição.

O Dr. Kennedy cita as mais de 40 milhões de pessoas mortas sob o regime de Stálin, o que Delumeau (embora Stalin seja do mesmo continente) ignora. O Dr. Kennedy aponta também, os seis milhões de judeus e “de nove a dez milhões de outras pessoas (na maioria cristãos)” que foram liquidados. E o que dizer de Mao Tsé Tung, com os mais de 70 milhões de chineses e mais dois milhões de pessoas de outras etnias?

O Dr. Kennedy chega até mesmo a fazer contas, somando as mortes ocorridas sob os regimes supra citados, adicionando aquelas ocorridas durante as guerras do século XX, e chega a um número aproximado de 130 milhões. “Usando os mais exagerados critérios e números não seria possível chegar a mais de 17 milhões de pessoas mortas por cristãos professos em nome de Jesus, em vinte séculos de história cristã” (p. 300, ênfase minha).

Do ponto de vista positivo, apreciei muito o capítulo 5 (A recusa da culpabilidade hereditária), no qual o autor resgata a origem da doutrina do pecado original e sua hereditariedade (ou, na expressão do autor, a solidariedade). A menos nas obras que tenho lido recentemente, pouco tem sido dito sobre o tema. Delumeau remonta tal doutrina a reflexões feitas por Agostinho e ampara sua afirmação dizendo que nem mesmo a “teologia” dos judeus considerava esse pecado. E mais, diz que “até o último quarto do século II a questão do pecado original permaneceu obscura nos textos dos Padres apostólicos” (p. 89).

Delumeau acusa a insistência na manutenção dessa doutrina a uma má interpretação da escolástica agostiniana. Não herdamos a culpa do pecado de Adão (ele cita Jesus e Ezequiel) mas os efeitos do mal “no mundo”. Chegamos aqui e o mal já estava instaurado. Neste sentido, justifica-se falar em “redenção”. É possível associar o dito de Delumeau ao de Huberto Rohden, quando antecipa que a “queda” não é negativa, antes, um impulso para o próprio desenvolvimento humano. Neste sentido, o que chamamos Queda pode ser o próprio “levantar-se”. Quem poderá suportar este discurso?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ele, a Vida


Ele, a vida é o título de um poema de Mouses. Quando leio João 5.39,40 lembro desse título: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida.”


Com essas palavras, Jesus está dizendo várias coisas. Muito pode ser dito sobre estes dois versículos, mas certamente o mais importante, a verdade mais impressionante, o ensino mais marcante que se pode extrair da passagem reside no fato do encontro com Jesus. O eixo do texto é o próprio Jesus e um aspecto é patente: as Escrituras são importantes, é necessário estudá-la, mas elas não nos dão vida. Jesus está dizendo que as Escrituras são a placa de sinalização para Ele. Elas são as placas que indicam que Ele é o Caminho. Elas apontam para Ele, o Caminho; Ele, a Vida.

O erro dos fariseus dos dias de Jesus e dos nossos fariseus é esse: estudar as Escrituras, decorá-la, repeti-la, ensiná-la, mas nunca promover o encontro com Ele, a Vida. As Escrituras testemunham a respeito de Jesus, mas é preciso ir a Ele para termos vida. As Escrituras e o Cristianismo sinalizam que é preciso relacionar-se pessoalmente com Jesus para haver qualquer vestígio de mudança em nós, para que vivamos.

Sem relacionamento pessoal com a Vida, não há vida. Tudo o que fizermos sem a mais íntima e profunda comunhão pessoal com Jesus deve ser apontado como religioso no seu sentido mais negativo, pois é intelectualmente enganoso e não promove vida. Porque conhecer as Escrituras é um modo eficiente de fazer-nos sábios, como conhecer teologia é um modo eficiente de fazer-nos intelectuais, mas aqueles que querem algo mais intenso e duradouro precisam ter um encontro com Ele, a Vida.