sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sobre espiritualidade, religiosidade, gays e religiosos


Ainda que possa ser mal interpretado por alguns leitores, quero fazer uma tentativa de corrigir um equívoco antes que se torne erro histórico. Diante dos últimos acontecimentos envolvendo a bancada evangélica no Congresso, ou parte dela, e mesmo o posicionamento de alguns cristãos sobre as questões que envolvem a sexualidade de quem quer que seja, no último dia 26 ouvi a parte final de uma entrevista dada pelo cartunista Laerte ao jornalista Marcelo Tas, o primeiro um homoafetivo assumido e o segundo seguindo a mesma trilha. Na parte entrevista que ouvi, Laerte repetiu o bordão de que os crentes querem privatizar o sagrado, privando “os outros” do acesso a Deus – como se Deus fosse objeto da propriedade de poucos em detrimento de muitos. Ele concluiu dizendo que evangélicos são um malefício a sociedade, “gente nefasta” foram suas palavras, para ser rigorosamente honesto.

A espiritualidade é uma característica inerente do ser humano. Todos, sem exceção, são dotados dessa capacidade, até mesmo aqueles que se dizem ateus. Está na alma do sujeito e de lá não sai. Sendo assim – como de fato é – todas as pessoas que se sentem inclinadas ao transcendente irão querer buscá-lo, e toda ação, manifestação, reflexão, reza, leitura, ou seja lá o que for, é chamado espiritualidade. Cada grupo, povo, cultura ou pessoa pode desenvolver sua própria maneira de expressar e desenvolver a espiritualidade. E é bom que o façam, como também é saudável até mesmo para o corpo físico. Há estudos acadêmicos sobre isso.

Do outro lado há a religião. A religião é o modo como determinados grupos que professam a mesma fé e a organizam dentro dos moldes concebidos ou admitidos por eles mesmos. Variações podem ocorrer dentro de uma mesma tradição em função de influência cultural, regional e até mesmo econômica.

A religião, por ser mais organizada que a espiritualidade, deve seguir uma tradição que normalmente parte de um texto, de um rito específico, de um mito. Vem de longe a sua fundação, ao menos na maioria das tradições religiosas. O Cristianismo, por exemplo, toma a tradição judaica, que nos tempos de Jesus contava cerca de dois mil anos, e avança para uma reorganização segundo a interpretação dada por Jesus. Assim, o Cristianismo resgata textos do Antigo Testamento e produz nova tradição a partir desses textos, inicialmente registrada nos escritos do Novo Testamento.

Quando ouço homoafetivos acusando cristãos de quererem privatizar a religião, logo imagino o desconhecimento gerador de uma afirmação como essa. Pastores, padres, evangelistas ou quem quer que represente algum ramo da tradição cristã, católica ou protestante (ou outra), está apenas procurando reproduzir a organização daquela religião específica. A privação do acesso a Deus não cabe a ser humano algum, porque não está no âmbito da religião privar acessos, mas no espaço da espiritualidade.

Não cabe a qualquer líder religioso interferir na espiritualidade individual de quem quer que seja. Já o ensinamento religioso sobre determinada tradição sim, e para isso há um código produzido na fundação de cada tradição, que regula o modelo a se reproduzido pela religião. E o ensino sobre uma tradição religiosa deve contemplar também orientações sobre aquela espiritualidade. Assim, pessoalmente não acredito que uma tradição religiosa deva se abrir para práticas que não são contempladas por sua tradição. Do contrário, imagine um religioso interferindo no modo como a comunidade LGBT deve se comportar! Não faz sentido, embora a comunidade LGBT em tempos recentes não esteja respeitando o espaço destinado a manifestação do culto evangélico, numa atitude bastante reprovável.

Penso que um grupo que queira iniciar práticas rejeitadas ou mesmo reprovadas por uma tradição religiosa deva começar sua própria tradição, sua própria religião, sem interferir em algo que já está estabelecido e consolidado. Não são pastores, deputados evangélicos, padres, bispos, apóstolos que impedirão alguém de desenvolver sua espiritualidade, mas dentro de um grupo religioso, qualquer que seja, quem preserva a ortodoxia e a prática adequada deve ser respeitado, porque até isso é previsto por lei. E se alguém entende que uns são mais “ajustados” aos novos tempos do que outros, deveriam ao menos mostrar respeito como ponto inicial numa relação humana e apropriada a que pretendem fazer crer.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Que tipo de “submissão às autoridades” Paulo ensinou?


Em decorrência das recentes manifestações nas ruas do país e nas redes sociais, alguns cristãos têm sido confrontados por seus pastores e irmãos quando tomam posição contrária aos Governos federal, estadual e municipal. O mote usado é o texto no qual o apóstolo Paulo recomendou “submissão às autoridades”, em Romanos 13.1: “Todos devem sujeitar-se às autoridades do governo, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram ordenadas por ele.”. Quero refletir, ainda que de maneira incompleta, sobre a questão.

Evidentemente este texto tem sido interpretado de modos distintos. Até onde vai o limite do Governo, “da autoridade”? Paulo submeteu-se cegamente a esses poderes?

Veja que dois versículos depois o texto dá a resposta mais imediata à questão quando diz sob que aspecto a submissão é requerida: “Porque os governantes não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas sim para os que fazem o mal.” (v. 3) O papel da autoridade é colocar em vigor a justiça, a Lei e a ordem. O v. 4 diz isso explicitamente: “Porque ela [a autoridade] é serva de Deus para o teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não é sem razão que ela traz a espada, pois é serva de Deus e agente de punição de ira contra quem pratica o mal.”. A “espada” é entendida como a própria pena de morte por alguns intérpretes, mas outros alegam ser a punição com maior rigor, enfim.

Mas, e quando o Governo pratica desmandos, quando é comprovado ilicitudes em sua gestão? E quando há injustiça por parte das mesmas autoridades? O mesmo Paulo, quando foi julgado por crime que não cometeu, não se submeteu, antes, apelou a Cesar (Atos 25.11). Ele desrespeitou seu próprio mandamento? Claro que não. Houve grande mobilização em função de sua apelação; um destacamento militar foi colocado à disposição do apóstolo, uma longa viagem teve de ser feita, ele ficou dois anos sob custódia do Império, tudo isso porque não aceitou as disposições legais contrárias a verdade a seu respeito.

Recentemente reli o livro de Ester, o qual mostra uma trama de morte contra o povo de Deus no Império Medo-persa. O que fizeram os judeus? Organizaram-se, jejuaram, mas manifestaram-se perante o rei. Ester enfrentou uma disposição real correndo risco de morte, uma vez que era proibido aproximar-se do rei sem a sua expressa autorização. No final, ela alcançou justiça e livramento para o seu povo.

No Brasil democrático temos uma situação distinta, pois que a democracia supõe o governo pelo povo e para o povo (em grego, democracia significa poder do povo). Obviamente o povo não governará, mas elegerá especialista para tal finalidade. Dentro do governo democrático, os mecanismos legais (lícitos) são os mecanismos políticos e as manifestações são direitos do povo (não confundindo com atos de vandalismo e violência).

Todo cristão é chamado a buscar a justiça, a igualdade, a paz, os recursos básicos para a sobrevivência do próximo (estou pensando em moradia, alimentação, saúde, segurança, educação etc.). E não somente para cristãos, mas para todo o povo. O próprio Jesus disse que Deus dá sol e chuva para justos e injustos (Mt 5.45), lembrando que “sol e chuva” afetavam diretamente a economia daquele povo, cuja base cultural eram a agricultura e a pecuária.

William Wilberforce (1759-1833), cristão e parlamentar britânico, no seu tempo, empreendeu luta árdua por grandes reformas sociais. Enfrentou incompreensões, calúnias, tentativa de desmoralização e desmobilização, reação dos poderosos e dos privilegiados, mas perseverou. Ele disse que “Deus Todo-poderoso colocou diante de mim dois assuntos: a abolição do comércio de escravos e a reforma dos costumes na Inglaterra”. Por toda a sua vida ele lutou por isso em sua carreira política. Se hoje a maioria das nações ocidentais oficialmente não tem escravidão, é porque ele lutou contra esse modelo. E não sejamos ingênuos em pensar que não houve reações dentro e fora da própria igreja. O comércio escravo mobilizava boa parte da economia, e quando “tocamos” no bolso dos ricos, nada acontece pacificamente.

O mesmo podemos dizer do pastor batista Martin Luther King Jr. (1929-1968), conhecido ativista político que mobilizou os Estados Unidos em favor dos direitos dos negros. E nós brasileiros do século 21 não podemos cometer a ingenuidade de pensar que Luther King tivesse dito: “Olha, por favor, vamos acabar com a segregação. Coitado dos negros. Vamos ajudá-los”. Não houve avanço algum sem que houvesse resistência. E a submissão às autoridades? Eram elas mesmas que segregavam, movidas por interesses culturais e econômicos – e até mesmo religiosos por parte de cristãos que usavam versículos bíblicos para defender suas posições, mas que por outro lado esmagavam os afrodescendentes.

Que dizer do pastor Dietrich Bonhoeffer, na Alemanha de Hitler, envolvido na operação Valquíria, que tramou a morte do ditador? Hoje contamos com alegria a sua história, mas onde fica a submissão às autoridades na vida de um pastor envolvido num caso como esses?

É preciso levar a questão também para o campo da ética, que busca o maior bem para o maior número de pessoas. Quando temos, hoje, igreja evangélica brasileira, diante de nós a oportunidade de exercer a cidadania pelos meios legais e lícitos da manifestação pacífica, seja nas ruas, seja nas redes sociais, não estamos transgredindo leis e desobedecendo a Bíblia. Antes, estamos buscando a justiça tal qual Jesus orientou (Mateus 5.6 e outros), um país melhor com distribuição de renda e oportunidade para todos, e não um modelo que privilegia os desvios de verbas e outros crimes comprovadamente demonstrados pelas investigações.
Entendo o temor que certos pastores e irmãos têm de desobedecer a Deus em função do poder secular, mas não é exatamente isso o que a história nos mostra em relação à participação do cristão na vida do seu país. Não podemos exigir que todos se envolvam, uma vez que nem todos refletem sobre as Escrituras com a mesma compreensão e nem todos têm vocação para assuntos dessa natureza, que claramente não é dos mais atraentes. Política não é para todos, como também o pastorado, o cuidado dos doentes, o envolvimento no ensino, etc. Mas o esforço e o envolvimento pela justiça e pela paz é. Cada um fique, portanto, na vocação em que foi chamado.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Quem são os fracos do cristianismo?

O estatuto acadêmico estabelece limites dentro dos quais cada pesquisador deve limitar o seu trabalho: história, filosofia, psicologia, sociologia, antropologia entre outras. Mas parece que quando o assunto é religião, impera o ditado "é a casa da mãe Joana"; qualquer um entende um pouco.
Ouvi a uma palestra da filósofa e poeta Viviane Mosé. Ela é bem conhecida na mídia e tornou-se bem popular após uma série que apresentou pelo Fantástico. Hoje participa de um quadro diário na rádio CBN-SP.
Pois Viviane falava sobre o pensamento do filósofo alemão F. Nietzche (1844-1900), quando, ao responder a uma pergunta sobre cristianismo, derrapou em pista sem curva:

"Dos fracos e oprimidos é o reino dos céus, dos aleijados, dos pobres de espírito. Se é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha [do que entrar um rico nos céus], nós devemos ser pobres, fracos, tristes e aleijados".

Com algum esforço é possível rastrear a fonte dessa conclusão infeliz da filósofa, uma vez que ela deu resposta generalizante destacando uma especificidade, isto é, uma particularidade do cristianismo. Toda a influência da tradição judaico-cristã resultou em pessoas com as características acima? Não, absolutamente. É possível encontrar esses traços dentro de algumas seitas cristãs, em parte do catolicismo e do protestantismo pentecostal clássico. Ponto final.
As denominações históricas não produziram cristãos assim; o calvinismo menos ainda. Se incluirmos os neopentecostais, a fala dela fica ainda mais herética.
Mosé comparava o vigor do pensamento de Nietzche em estimular que o homem científico, movido pelas luzes da razão, em contraste com a fraqueza que a tradição judaico-cristã gera nos crentes. Mas que fraqueza é essa? Sua denúncia procede?
Os aleijados que encontraram-se com Jesus foram curados; sabemos isso, basta ler os Evangelhos. É uma indicação de que a condição deficiente não é desejável no cristianismo. Parte das curas realizadas por Jesus foram realizadas por vontade dele; parte, pela fé do necessitado, fé que o levou não somente a uma ação e movimento em direção a Deus, mas também trouxe a este indivíduo nova condição (algo que Nietzche cria surgir por outras vias. Como não sou filósofo, não vou me entrometer).
Jesus nunca disse que o Reino dos céus é dos tristes. Não sabemos de onde Mosé tirou essa conclusão. O que mais se aproxima dessa fala seria, a meu ver, "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados" (Mateus 5.4),  um paradoxo como muitos outros encontrados nos Evangelhos. Há muitos motivos pelos quais se pode chorar.
O choro não é condição sine qua non do cristianismo. Paulo mesmo escreveu uma carta aos Filipenses conhecida como "a carta da alegria". Ele estava na prisão em Roma e incentivava os crentes na cidade de Filipos a alegrarem-se sempre e em toda a situação. Paulo era apóstolo de Jesus e, assim, não contradizia o seu Salvador.
Pode-se chorar por motivos vários: econômicos, sociais, políticos, filosóficos, inclusive. E se você precisa de consolo, a ciência chamada psicologia pode ajudá-lo. Portanto, chorar não é demérito, antes, próprio da natureza humana e cristãos [e ateus] são humanos e devem chorar.
Mosé ainda disse que a tradição judaico-cristã incentiva a sermos fracos e pobres, e em seguida encenou caricaturas de evangélicos em tal situação. Aqui ela equivocou-se seriamente. É preciso entender em que consiste a fraqueza e a pobreza com as quais o cristianismo coteja e, para isso, é preciso um pouco de conhecimento dos mecanismos da teologia, aparato que a filósofa não dispõe.
A fala de Jesus registrada por Mateus é: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mateus 5.3). Ela quis mostrar que Nietzche é superior em sua filosofia, pois Nietzche pregava que o homem deveria ser super-homem (do alemão ubermenshe). O homem com pensamento científico, racional, independe de Deus, da revelação e do milagre e cria, ele mesmo, o seu próprio destino. O homem se basta.
Jesus, ao contrário do que se pensa, não aplaude os espiritualmente fracos, antes, àqueles que erguem-se em atitude de fé e rompem com a sua natureza pecadora. Mas isso não é feito por fracos, pelo contrário, os fracos encontram força na fé no Filho de Deus e, por meio do espírito, abrem mão voluntariamente, livremente, despojadamente de seguir o curso e a ditadura das filosofias vigentes (no caso de Nietzche, o início da modernidade era a filosofia vigente).
A fala original de Jesus registrada por Mateus em grego é hoi makariói tó ptokói to pneumati, que quer dizer, felizes os pobres pelo [ou por meio de] espírito (to pneumati admite tradução "por meio de"). Assim, assumir a fraqueza odeão pobreza ou qualquer outra condição assumida por um crente é frutífera quando ele tira forças "pelo" ou "por meio do" espírito, e isso ele faz voluntariamente; é iniciativa sua, já que Jesus não o obriga a isso. É, portanto, atitude de gente forte, não fraca, uma vez que tal decisão o levará a renunciar o curso e padrões correntes, exigirá maior disposição e persistência frente a corrente contrária. Não há como chamar fraco e pobre alguém assim.
Se eu dissesse que Nietzche foi leitura de cabeceira de Hitler, não estaria errado, pois dizem que o conceito de ubermenshe (super-homem) inspirou o ditador ás barbáries que cometeu. Mas seria desonesto se eu tirasse essa informação do contexto da obra daquele filósofo e fizesse dela um cavalo de batalha. Também seria desonesto dizer o que alguns filósofos escondem, que Nietzche, o homem que criou o super-homem racional e científico, morreu num hospício. O que deu errado na experiência dele? Não é da minha conta.
O que sei é que os fracos, tristes, aleijados e pobres sustentam o cristianismo por dois mil anos, com todas as suas ambiguidades e paradoxos, e isso fazem incansavelmente.

sábado, 29 de dezembro de 2012

AUTORIDADE É PARA OS FRACOS - 2

O último texto sobre "autoridade" não me satisfez. Escrevi pouco sobre o que queria, de fato, enfatizar. Por isso a necessidade de avançar, insistir no tema.
Vejo a rarefação do cristianismo nessa sanha por autoridade como há na Igreja. Algumas delas, é bem verdade. Vejo muito pouco a Jesus e sobram perfis de líderes corporativos nas palestras; nem dá para chamar de pregação ou sermão a um discurso que destoa do que foi ensinado pelo Mestre da Galileia.
Jesus disse para termos autoridade sobre demônios e pecados. Os mestres modernos e pós-modermos ignoram isso, mas falam em autoridade sobre pessoas, equipes e líderes. Lembram mais a gerentes de venda de Consórcio Remaza querendo motivar equipes do que homens santos apontando o caminho para uma vida de desapego. Cansam.
De repente um batalhão de crentes avança orientado pelo desejo de liderar. Qierem liderar o mundo enquanto não resolvem a vida de um cônjuge e um parzinho de filhos. Não se fala outra coisa. Gostaria de voltar a ouvir sobre o fruto do espírito ("amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança", Gálatas 5.22) e como desenvolvê-los. Mas agora não dá, porque parte da Igreja está pautada pela agenda de valores estranhos ao Evangelho. O resultado são palestras ensinando religiosos a serem bons mundanos. "Bons" é por minha conta: religiosos orientados por valores mundanos não são maus religiosos nem bons mundanos. São fracos.
Quem são os fortes, então? Fortes não são os que se deixam levar pela inércia popular. Não se faz força para chegar ao erro e ao pecado: basta deixar-se levar. Pare de resistir e logo está lambuzado da sujeira: ela é o padrão do mundo.
É preciso esforçar-se - isso sim - fazer força para produzir valores legítimos, equalizados aos valores que encontramos na vida de homens e mulheres de fé. E é bom lembrar que fé em nada se parece com auto-sugestão nem com confissão positiva nem com autoajuda.
É preciso nos esforçarmo por virtudes e valores que privilegiem a vida pessoal modificada pelas boas Novas e pelos direitos do vizinho. É muito estranha essa preleção que ensina a conquistar o mundo lá fora e o nivelamento dos bons (seleção natural aplicada à sociedade), mesmo que para isso a família seja desintegrada e os direitos do meu semelhante sejam desconstruídos porque alguém se imagina "filho do rei".
Nada mais pobre do que essa prosperidade secular e poucas coisas são tão anticristãs como algumas mensagens ouvidas em certas igrejas.

AUTORIDADE É PARA OS FRACOS

Poucos temas despertam tanta atenção de evangélicos como a autoridade. Livros são escritos, congressos são realizados, DVDs são distribuídos, tudo com a finalidade de ensinar uma parcela de cristãos interessados a reconhecer, desenvolver e exercer sua autoridade nos mundos espiritual e físico.
Se você navegar pela TimeLine do Twitter de alguns pastores ou palestrantes, verá com que facilidade elaboram frases de efeito sobre autoridade. Vá a uma boa livraria evangélica e em cinco minutos você verá alguém que não consegue cuidar da própria vida, mas está inebriado pelo canto da sereia desse modismo, à procura de material sobre como se tornar um líder em umas poucas lições (lições dadas, muitas vezes, por gente que nada sabe sobre o tema; é bom que se diga).
Como conciliar esta tendência com a orientação dada por Jesus em Mateus 20? Vejamos o texto:

"Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal".

Tenho grande dificuldade em enfatizar certas passagens da Bíblia em detrimento de outras; isso é desonestidade, em primeiro lugar. Está claro que a procura e o desejo de possuir autoridade espiritual é um desvio flagrante e equivocado do espírito do Evangelho, do espírito cristão. O desejo de ter autoridade, como a vemos estimulado na Igreja, é uma tentativa de igualar-se ao sistema vigente, a cultura corrompida e ao padrão de comportamentos humanos, contra os quais cristãos cuidadosos deveriam exercer sua influência, caso tivessem sido influenciados por Jesus e por suas palavras. Isso não ocorreu. Esses cristãos não conhecem as palavras de Jesus nem gastam tempo com ele a fim de serem influenciados.
Há umas décadas, parte dos cristãos entenderam que era preciso aproximar-se das pessoas de fora da Igreja para poder apresentar-lhes o Evangelho. Mas entenderam que também era preciso mostrar que a Igreja tinha algum atrativo: músicas com os mesmos ritmos, reuniões com a mesma dinâmica e... comportamento e linguagem semelhantes. O sistema e a cultura permaneceram corrompidos como sempre foram, mas a Igreja, ao baixar a guarda para legitimar e expandir seu discurso, permitiu que a influência de fora entrasse pela porta da frente, e os cristãos estenderam palmas e cantaram: "Hosana! Somos atraentes e parecidos!".
Não parou aí. Aqueles que foram atraídos para dentro a Igreja, como não viram diferença entre lá e cá, demonstaram pouca disposição em manifestar sinais mínimos de mudança comportamental: não houve conversão, mas convencimento. Por seu lado, alguns cristãos que "abriram suas mentes" para a aproximação, passado algum tempo deixaram de buscar almas e contentaram-se repartir os despojos, isto é, aquilo que trouxeram de fora: ambição, egoísmo, individualismo, sede de poder, empenho por autoridade, necessidade de auto-afirmação e uma gama de defeitos e vícios os quais não precisávamos em hipótese alguma.
As virtudes que percebo como essenciais e que marcaram toda a história da Igreja, as mesmas que grandes religiões perseguem, foram abandonadas por esta parcela da Igreja; hoje fazem parte de um museu da história dos fracos. Humildade, serviço, mansidão, submissão, amor, longanimidade, paciência, prudência. Quem quer isso? Quem quer ser conhecido por essas qualidades?
Jesus não enganou os cristãos durante toda a trajetória da Igreja nos últimos dois mil anos. O Evangelho não foi reeditado; ele é o mesmo desde o primeiro século. Desse modo, todo aquele que procura ler e entender a Bíblia como um todo orgânico e unificado, que não deturpa o sentido original das Escrituras e tem se aproximado de Jesus com reverência, colocando-se no lugar do discípulo diante do Mestre perceberá facilmente que a autoridade apregoada em nossos dias é para os fracos. Cristãos que cuidam de sua espiritualidade não são encantados pela sedução de viver conforme o modelo caído e em estado de putrefação, modelo perverso e enganador da cultura vigente. Há cristãos boquiabertos diante da possibilidade de serem poderosos, reconhecidos, autoridades nacionais (ainda que, repito, não entendam bem o que é isso).
Não quero essa autoridade ilegítima, condenada e denunciada por Jesus, contrária ao Evangelho e essencialmente anticristã. Procuro e busco o modelo deixado pelo Senhor e insisto em fazer dele o meu modo de vida. Esforço-me por ser servo; autoridade é para os fracos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Onde está Deus na violência de São Paulo?

Moro em São Paulo há mais de quarenta anos. A recente onda de violência na cidade de São Paulo, na Grande São Paulo e nas demais grandes cidades do país não é recente. É bom que fique claro, desde o início, que todos os dias, há décadas, morrem pessoas na cidade. Houve tempos nos quais foram registrados picos de violência. Há pouco tempo a cidade vizinha Diadema ficou conhecida como uma das cidades mais violentas do mundo. Após pressão (internacional, inclusive), o poder público interveio e hoje o quadro naquela cidade é bastante diferente.
Fora o registro histórico, há outro dado lamentável: a pressão e o aproveitamento político da situação. Esse é pior, porque não importam as vítimas civis e as baixas nos quadros da polícia (até hoje 92 policiais mortos em 2012): importa manchar a imagem do atual Governante, do atual Prefeito, dos atuais gestores. O interesse político, somado ao papel da imprensa (de serviço ou desserviço público), manipulam uma população desinformada e com baixíssimo (senão inexistente) senso crítico para avaliar dados e informações.
Mas neste breve artigo vou destacar outro agente, ou ausência dele, na atual situação. Falo de Deus. Antes, no entanto, quero voltar vinte e poucos anos no tempo, quando eu ainda era um dependente químico, usuário de drogas na cidade. Dos quinze aos vinte e quatro anos de idade (antes de tornar-me cristão em 1991) usei drogas, leves e pesadas, em casa de conhecidos e em público. Quando fazia em público, éramos eventualmente surpreendidos quando uma viatura fazia as regulares rondas. Ao vermos uma viatura, jogávamos bem longe o que tivesse à mão, temendo o que a polícia faria, pois seguramente ela faria algo com bastante rigor.
Recordo que algumas vezes saíamos de carro, e ficávamos circulando pela Marginal do Tietê de ponta a ponta, indo e voltando, fazendo uso de drogas, por falta de um lugar para ficar. A intenção era despistar a polícia. Mas se houvesse uma blitz (ou comando, como chamamos hoje), era um pânico só!
Bem diferente a situação de hoje. Usuários e bandidos hoje recebem a polícia à bala. Respondem grosseiramente quando são abordados, dão socos, são violentos. Quanta diferença!
Se você perguntar a que atribuo isso, tenho uma resposta na ponta da língua: faltou aos pais de hoje ensinar aos seus filhos, ontem, sobre Deus, em casa. Eu aprendi, desde os primeiros anos, a existência de uma hierarquia, imaginaria mas que funcionava: Deus, meus pais, os professores, meus amigos e eu. E hoje? Os amigos até importam, mas os professores têm sido agredidos nas escolas (particulares, inclusive). Os pais são ausentes, isso quando conseguem permanecer casados. E Deus? Deus não está na contabilidade da família de hoje e, portanto, não pode estar presente nem ser responsabilizado pela violência nossa de cada dia.
Eu vivi o dia a dia de violência na cidade de São Paulo, nas madrugadas, nas ruas, e a violência que vivi cessou ao encontrar-me com Jesus. E as pessoas de hoje? Deus não faz parte da rotina delas, em parte por negligência dos próprios cristãos. Deus não faz parte dos planos dos casais, nem da educação dos filhos, nem do cotidiano de grande parte da população. Foi isso o que a mentalidade desde o Iluminismo fez: pôs Deus para fora. O resultado foi esse que descrevi acima.
O que não foi percebido é que Deus permaneceu no seu lugar, onde sempre esteve. O homem fechou a porta, mas quem ficou para fora foi ele próprio. Para resolver o problema da "nossa violência", esse homem deverá bater à porta de Deus, voltar-se para ele e refazer a velha estrutura que estava funcionando bem, obrigado. E a ordem a ser restabelecida é: Deus, nossos pais, nossos mestres e nós... se sobrar alguém.

Siga-me no Twitter: @magnopaganelli

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Reconciliação: uma mensagem para hoje

Fundada por por Selêuco c. 300aC, Antioquia tornou-se a terceira maior cidade do Império Romano. Antioquia foi importante ponto e rota comercial e tornou-se um influente centro do pensamento teológico, tendo nomes como Inácio e João Crisóstomo como bispos.

Havia ali farta diversidade no campo do pensamento. Dentro os habitantes, contava-se mais judeus em Antioquia do que em toda Jerusalém. O judaísmo predominante na igreja em Jerusalém impedia o amplo florescimento do cristianismo; mas em Antioquia havia sinagogas nas quais foi possível estabelecer vínculos com a nova religião. Soma-se o helenismo e cultura grega naturais na cidade de Antioquia, o culto ao Imperador, os elementos do gnosticismo, religiões asiáticas, chalatanismo babilônico e o templo de Apolo: o desafio não era pequeno.

Curiosamente foi em Antioquia onde os discípulos de Jesus foram, “pela primeira vez, chamados cristãos” (At 11.26). E um dos segredos que vejo para que isso acontecesse reside na mensagem de reconciliação ensinada por Paulo.

Revertendo o que Noé predisse milhares de anos antes, o Espírito Santo estava reconciliando consigo o mundo, etnias e classes sociais antes separadas. Vemos a conversão do cananita etíope (At 8); do semita Saul (At 9) e do jafetita Cornélio (At 10). Em seguida, em Atos 11, não mais um indivíduo, mas uma igreja entende o sentido plural de sua missão.

Paulo fala de reconciliação em quatro textos ao longo de sua obra: em Romanos 11 (sobre Israel), em 2Corintios, Efésios e Colossenses.

Rm 11.15: “Pois se a rejeição deles é a reconciliação do mundo...”.

2Co 5.18-20: “Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem [ou palavra] da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus.”

Ef 2.15,16: “[...] na sua carne desfez a inimizade [...] para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela [a cruz] as inimizades.

Cl 1.19,20: “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.”

A raiz grega da palavra reconciliar (apokatalassō) indica restauração, restabelecimento e cura. De fato as pessoas e a sociedade estão doentes. Quando um filho grita e estapeia sua mãe, quando um adolescente recebe a polícia à bala, quando um político eleito pelo povo desvia dinheiro que deveria ser usados na melhoria de vida de milhões de pessoas, estamos vendo o resultado da doença chamada pecado. Não gostamos mais dessa palavra; é obsoleta. Mas não há com ignorar seus efeitos diários em nossas vidas. Tapar o sol com peneira em nada ajuda.

A cura do homem é o que precisamos observar na expressão da nossa mensagem e missão diárias. A igreja deve curar as pessoas, não adulá-las. As pessoas estão separadas de Deus e para reconciliá-las, precisamos aplicar a Palavra que corta e opera, não uma filosofia ou promessa que ilude e mata.

Portanto, a mensagem da Igreja não deve ir ao mesmo sentido dos acontecimentos do seu tempo. Num ambiente que se separa de Deus matando o Salvador do homem, a igreja em Antioquia promovia a reconciliação pelo Evangelho, na prática missionária local e estrangeira. A igreja não pode ser uma alternativa cultural, ela deve ser a melhor – senão a única – opção espiritual: a única que reconcilia o homem com Deus.

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”. (2Co 5.17)
Siga-me no Twitter: @magnopaganelli

Rhema: poder adicional?

Desde que foi publicado no Brasil o livro de Paul Yonggi Cho “A Quarta Dimensão”, em 1981, uma safra de livros, artigos, pregações, editoras, ministérios e muito mais tem surgido utilizando a palavra rhema. Com isso, praticamente uma “lenda gospel” se sedimentou em torno da suposta eficácia dessa palavra rhema.

Na página 43 ele diz que “Romanos 10.17 mostra-nos que o material usado para edificar a fé é mais do que simples leitura de Deus: “a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”. Nesta passagem “palavra” não é logos, mas rhema. A fé, especificamente falando, vem pela pregação da palavra rhema.”

Jesus, chamado o Verbo de Deus (do grego Logos tou Theou) concordaria com essa declaração do autor? Vejamos.

Nos evangelhos, a palavra rhema aparece em

Mateus
12.36: “Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.”

Marcos 9.32: “Mas eles não entendiam o que ele queria dizer e tinham receio de perguntar-lhe.”

Lucas 2.17 (rématos): “Depois de o verem, contaram a todos o que lhes fora dito a respeito daquele menino.”

Lucas 2.50 (rēma): “Mas eles não compreenderam o que lhes dizia.”

João 5.47 (rémasin): “Visto, porém, que não creem no que ele escreveu, como crerão no que eu digo?” e

João 6.68 (rémata dzoēs aiōníōn): “Simão Pedro lhe respondeu: ‘Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna’.” Aqui com o significado de palavras de vida eterna.
  Note, em cada um dos versículos, que nada há de tão especial nessas passagens. A palavra rhema é usada em seu modo primário e nas variações gramaticais sem que qualquer indício de ação ou mesmo “geração de fé” ocorra.

Em língua portuguesa temos alguns léxicos, que são obras que trazem o significado das palavras conforme usados em seu contexto original. No caso, como eram usadas pelos autores que escreveram o Novo Testamento. No léxico de GINGRICH e DANKER1 lemos que rhema significa “aquilo que é dito, palavra, dito, expressão”. Esses foram os significados reais conforme usados originalmente. Os autores do Novo Testamento tinham essa compreensão a respeito da palavra rhema. Nada de especial ou excepcional com a palavra. Não se espera, em função disso, um detrimento da outra palavra grega, logos.

Portanto, não se pode imaginar a existência de algum poder sobrenatural que envolva determinadas expressões, ou esperar que a ocorrência de um milagre ou o rompimento de algum obstáculo espiritual ou natural ocorra simplesmente porque Deus deu a alguém “alguma palavra rhema” com esta finalidade.

A Palavra rhema é um dito como outro qualquer, como lemos no léxico e confirmamos nos evangelhos. Se há algo extraordinário acontecendo em nosso meio (e sabemos que há), isso se dá por soberania de Deus. Todos devemos saber isso, mesmo aqueles que não leem o grego. Para isto, se o leitor se der o trabalho de ao menos iniciar a leitura do Evangelho de João, verá que há uma expressão diferente usada pelo apóstolo para descrever a Jesus: Logos. Jesus é o Logos de Deus, a Palavra de Deus.

Ora, se o próprio Jesus inspirou ao apóstolo a descrevê-lo usando logos, por que deveríamos esperar que Jesus decidisse por um termo grego de menos importância ou eficácia? Se rhema fosse, assim, uma palavra tão poderosa como se pretende, acredito que João teria escrito:

“No princípio era o rhema. Ele o rhema estava com Deus, e o rhema era Deus”.

Veja se na sua Bíblia diz isso.



1 GINGRICH, F. Wilbur e DANKER, Frederick W. Léxico do N.T. Grego/Português. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984.


sábado, 27 de outubro de 2012

O diabo do homem faz a Bíblia falar

"E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela". (Gênesis 3.6, ênfases minhas)

Todos conhecemos o relato da tentação. Nele lemos ter o diabo sugerido a Eva que o fruto proibido daria um conhecimento tal que não se tinha domínio. Deus, ainda segundo o diabo, omitiu conhecimento, poder e domínio que agora tinham o seu desvelamento tornados possíveis seguindo os rastros indicados pela serpente. Eva, então, viu, desejou e tomou para si o fruto, e o deu a seu marido. O conhecimento veio, mas não do modo como desejaram.
Quando era pastor em uma igreja aqui em São Paulo, durante a reunião com o grupo de jovens, um deles perguntou: "Pastor, por que a Bíblia não fala nada sobre grandes temas da humanidade?". Perguntei "Quais temas?". O jovem disse: "A construção das pirâmides, o advento de Hitler...".
A Bíblia, o texto sagrado dos cristãos, deveria ser usada somente para anunciar a salvação da alma. A mim parece ser este o eixo natural, o tema central já em Gênesis que segue até ao Apocalipse. O assunto da Bíblia é a salvação por causa da Queda descrita acima, e esta salvação é realizada em Jesus, que é amplamente anunciado em suas páginas.
Assim, o texto da Bíblia tem sua maior concentração nos assuntos pertinentes a salvação. Para o autor divino (Yahweh) e os autores humanos (sacerdotes, apóstolos, profetas e outros), a "humanidade" a quem a Bíblia se dirige, é a humanidade toda. A Bíblia registra grandes temas relativos à humanidade. Em outras palavras, todas as coisas necessárias ao conhecimento humano (eventos, histórias, pessoas, testemunhos etc.) e inerentemente relevantes ao universo religioso judaico-cristão, estabelecido e permanente há pelo menos seis mil anos, estão contidos na Bíblia.
No entanto, do Iluminismo para cá, a Bíblia tem sido atacada de todas as formas, usada indevidamente, acusada de todos os crimes, recusada por todas as declarações que faz. Mas ela está aí, aumentando a sua presença, sendo traduzida para novos idiomas e dialetos e sendo exportada para culturas que antes a rejeitavam.
Os ataques contra ela parecem não ameaçá-la: ninguém há que ofereça substituto ao modelo de salvação da alma humana como a Bíblia. Acusá-la de imprecisão científica? A Bíblia não é um livro de ciências; é um livro que trata da salvação, como disse. Ela tem erros nas informações geográficas? Seu assunto é a salvação. Há imprecisão historiográfica? Ela se ocupa da alma humana. Essas acusações não dizem respeito ao seu "negócio principal" e ela não faz concessões: seu foco é a salvação do pecador perdido.
Se o empenho do Iluminismo e da modernidade não afetaram a credibilidade da Bíblia, a outras correntes mais modernas ela parece ter envelhecido; sua proposta precisava de uma repaginada.
Com lentes inadequadas para enxergar as propostas anunciadas por seus autores supracitados, novas abordagens foram aplicadas na leitura do texto bíblico para "readequá-la" a mente moderna. Resumidamente, num continente impregnado pelo racionalismo cientificista, o programa de demitologização dos teólogos liberais não sobreviveu até aos nossos dias. Ela não abriu mão de suas histórias, ainda que parecessem míticas.
Já nos Estados Unidos, o próprio berço de ouro deu ocasião a aplicação de uma abordagem capitalista e consumista, para que ela falasse a linguagem do mercado; e foi criada a pobre Teologia da Prosperidade (e da saúde do corpo).1
Na América Latina, quando a massa pobre era a regra no continente, uma leitura libertária da Biblia (ou ao menos de alguns textos específicos), deu ocasião, primeiramente no seio da Igreja Católica e mais recentemente no meio evangélico, a Teologia da Libertação. Quiseram que a Bíblia declarasse sua opção pelos pobres, já que eram muitos. Quando conjunturas econômicas mais favoráveis avançaram, os evangélicos importaram dos Estados Unidos o que havia sobrado da Teologia da Prosperidade, seduzindo-a a prometer vida mansa, tal qual um gênio da lâmpada.
E assim a Bíblia tem sido sequestrada e usada. No cativeiro da cultura onde ela é feita refém, quem se aproxima dela com concepções ou conveniências próprias usam-na para fazê-la falar o que querem ouvir, o que é agradável aos olhos e o que é desejável entender. Tal qual o diabo fez, toda tentativa de fazer ou usar a Bíblia para uma finalidade estranha ao seu sentido particular, é uma tentativa diabólica.
Ela, no entanto, sobreviverá a cada um de nós preservando em suas páginas a mensagem para a qual foi planejada e escrita. E que bom que tem sido assim, que ela viva por si, até mesmo sem essa minha defesa.

1 Health and Wealth Gospel (Evangelho da Saúde e Prosperidade), Faith Movement (Movimento de Fé), Faith Prosperity Doctrines (Doutrinas da Fé e Prosperidade) ou Positive Confession (Confissão Positiva).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fala, que eu te escuto


O comportamento de muitos cristãos de hoje não endossa a fé que dizem sustentar. Aspectos que regem a prática cristã são encontrados, evidentemente, na Bíblia, e orientam atitudes simples e primárias como falar.

Um cristão pode se notabilizar pelos conhecimentos que tem, mas pode colocar tudo a perder se não moderar o seu vocabulário. Esse risco é previsto no Antigo e no Novo Testamento, mas como insinuei acima, muitos dos indicadores primários da fé cristã têm sido deixados para trás e substituídos por rotinas e expedientes das pessoas que não têm qualquer compromisso com a fé em Jesus Cristo.

Num texto clássico sobre o tema, Jesus advertiu: “Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mateus 5.22). Essa orientação não caducou. Então vejamos o seu sentido. Jesus escolheu o termo grego Γακά (raká). Não sabemos o que ele significa, mas uma pesquisa nos ensina que raká, para os falantes daquela época, era um termo abusivo. Entre os seus significados mais prováveis estão: tolo, cabeça-oca ou mesmo burro.

Na sequência do versículo lemos “louco”. Aqui Jesus empregou o termo Μώρέ (Môré), outra palavra que pode ser traduzida por tolo, insípido ou insensato; considere que os cristãos são advertidos por Jesus a que sejam o contrário de insípido: sejam sal, e não insípidos.

Noutro documento do Novo Testamento, Efésios 4.29, Paulo diz: “Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem”. Torpe é a tradução de σαπρός (saprós). Figurativamente ela transmite a ideia de mau, ruim, imprestável. No contexto de Mateus 7.17, onde Jesus fala dos frutos da árvore, ela significa podre.

E finalmente em Colossenses 3.8, a expressão “... abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar.” Essa “linguagem indecente” é a tradução de αισκρολογιαν (aiskrologian), uma junção de duas palavras para formar o que naqueles tempos era entendido por palavra indecente, obcenidade ou mesmo fala abusiva. Esta é a única passagem no Novo Testamento onde aparece aiskrologian.

Que devemos entender aqui? Que embora estejamos imersos numa sociedade que não zela pelo modo mais decente de expressar-se, que não faz qualquer esforço para ser gentil, educada e mesmo decente no uso da fala, essa tendência natural das pessoas que não professam a mesma fé que nós não pode engolir o nosso modo correto de falar, de agir e de nos mostrarmos na mesma sociedade. Chamar irmãos de “trouxas”, “imbecis” e “otários”, como vemos até mesmo em programas de televisão, não passa perto de qualquer padrão saudável no cristianismo bíblico. A inteligência do cristão deverá elaborar argumentos suficientemente fortes ao ponto de dispensar o uso de expressões chulas e vocabulário que possa ser equiparado a dos mais desprezíveis pecadores.

Para muitos isso parece difícil; mas seguramente é possível. Talvez seja esse o motivo porque Tiago dedicou boa parte de sua epístola (Tg 3.1-12), e mesmo o livro de Provérbios, a tratar da questão. O menor membro do corpo derruba a mais consagrada celebridade, mas o exercício persistente poderá ajudar a cada um de nós na eliminação de outros vícios que atrapalham o aprofundamento da mais simples espiritualidade.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nada novo debaixo do sol

A barriga dita as decisões da cabeça

Das histórias que o Antigo Testamento conta, lemos sobre a tomada e conquista hebreia da Terra Prometida. Tomada? Conquista? Não houve tomada nem conquista. Josué conduziu o povo no avanço da invasão, mas após a sua morte, os hebreus, vindos do deserto, “acomodaram-se” entre os povos que lá estavam, sem luta armada nem confronto, como o Salmo 44.1-8 leva a crer.

A tarefa ficou inacabada por décadas e foi registrada em textos como Juízes 1.27-34. Aos poucos os hebreus ocuparam as terras e apropriaram-se da lavoura e dos rebanhos dos povos estabelecidos. Fizeram alianças com uns e submeteram outros à escravidão.

Todos precisavam comer, adultos e crianças, hebreus e cananeus. Os hebreus ignoravam o funcionamento da agricultura, pois no Egito trabalharam em olarias e a jovem geração que entrou em Canaã havia nascido no deserto, onde nada se planta e nada se colhe. Os cananeus, que ocupavam o território, conheciam os métodos agrícolas e confiavam a fartura na colheita aos deuses da terra. Os hebreus, então, logo se curvaram a Baal, deus da fertilidade, encarregado de enviar chuva, tão essencial a agricultura.

Isso é o pragmatismo, faz-se o que funciona, o que é necessário “agora”. E para isso, vale até mesmo celebrar alianças condenadas por Yahweh, o Deus dos hebreus. Em nome das necessidades básicas prementes, a traição ao estatuto recebido por Moisés no Sinai encontra justificativa: os fins justificam os meios. O ideário da nação sacerdotal não enche barriga e não paga as contas; então, viola-se a aliança de sangue que os unia àquele que os removeu escravos e os tornaria senhores da terra.

O resultado, quem leu o livro dos Juízes já conhece. A vida espiritual do povo tornou-se uma roda gigante: ora no céu, ora no limbo. Os altares e sítios idólatras foram os para-raios da assolação que não falhou, resultado previsto nos decretos que o próprio povo concordou em chancelar ainda no deserto. Ora, não conheciam a norma dita por Deus? “Sim, mas precisavam comer”, dirão alguns.

Num bate-papo com um pastor amigo, falando sobre ideologia partidária nas eleições e sobre como o povo não leva em conta os termos que regem cada partido, meu interlocutor, amigo, defendeu o povo que vota no candidato “que faz pelos pobres”. Não importa a ideologia assumida pelo candidato: é preciso saciar a fome acima de tudo. Refletindo sobre esta sua fala, não demorei a lembrar dessa época quando os hebreus, colocando suas necessidades acima da ideologia pagã, assumiram um compromisso que os levaria a uma era de trevas.

A experiência seria repetida séculos mais tarde, no período dos reis de Israel, e o Senhor enviaria profetas para reclamar a falta de conhecimento do povo como razão da própria ruína (Isaias 1.3 e outros). Tudo em nome do utilitarismo e do pragmatismo: é preciso comer, mas isso pode justificar tudo? O Diabo também pode servir pão, mas Jesus advertiu que “nem só de pão viverá o homem” (Mateus 4.4). Há valores que aos cristãos devem considerar inegociáveis.

Se a necessidade o pressiona, se a aparência do novo o atrai, cuidado: não há nada novo debaixo do sol. Nem mesmo o erro de envolver a si, a família, a cidade e a nação numa aliança que viola princípios bíblicos básicos e a ideologia do próprio Cristianismo. Se esse texto reflete o debate eleitoral? Sim. Se estou procurando induzir a um partido específico? Gostaria, mas se o leitor levar em conta a reflexão acima nas suas próximas escolhas importantes, já terei sido recompensado.

Siga-me no Tweeter: @magnopaganelli

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Tão burro quanto a jumenta de Jesus

Distorcer o sentido dos textos bíblicos não é so tarefa de gente mal intencionada, mas também desinformada. Com a finalidade de fazer os ouvintes crerem que a Bíblia é um “guia rápido para enriquecimento”, certos pregadores fazem verdadeira “reengenharia hermenêutica”. A hermenêutica orienta a aplicação do conteúdo do texto sagrado de modo adequado e honesto – prática que pouco interessa a quem está disposto a corromper o conteúdo das Escrituras.

Mas vamos a um fato. Vez ou outra alguém cita a passagem de Mateus 21, aquela clássica passagem que narra a entrada de Jesus em Jerusalém durante a festa. Como sabemos, Jesus faz a chamada “entrada triunfal” montado numa jumenta. A ocorrência havia sido profetizada por Isaias 62.11, tamanha a importância que da cena.

Os mal intencionados, para fazer de Jesus o “guru da prosperidade” afirmam ter ele entrado na cidade montado numa jumenta porque era o melhor veículo que dispunha. E acrescentam: “Se fosse nos dias de hoje, Jesus usaria uma BMW". Já ouviu essa besteira ou algo assim? O seu pastor já disse isso?

Pois bem, vamos revelar a “burrice” de quem pensa assim.

Em primeiro lugar, o espírito do Evangelho não é esse, digo, que o homem seja seduzido pelas riquezas. A Bíblia não estimula a isso. Nada mais longe da verdade. Pensar que as Escrituras orientam e até mesmo prometem/garantem riquezas e prosperidade a todos indistintamente equivale a dizer que os grandes nomes, os gigantes da fé do passado, foram muito desinformados. Paulo, Pedro, Agostinho, Wesley, Calvino, Lutero, Whitefield, Müller e dezenas de outros nomes nada souberam sobre essa proposta capitalista e mesquinha de fazer da Bíblia a chave para o aumento da renda e das posses. Quem pensa assim nunca leu um só parágrafo sobre a história da Igreja.

Em segundo lugar, é mais que burrice pensar isso a respeito da Bíblia, pois demonstra total desconhecimento sobre o seu próprio conteúdo. Eu explico: mil anos antes de Jesus, o rei Salomão já mantinha cidades-armazéns (isso, no plural: cidades) apenas para guardar os cavalos importados que trazia da Arábia e os carros de Guerra (1Reis 9.20). “Salomão possuía quatro mil cocheiras para cavalos de carros de guerra, e doze mil cavalos” (1Re 4.26). Essa quantidade absurda, Salomão usava para aparelhar o exército que herdou de seu pai Davi.

Se Salomão, que embora tenha sido um dos homens mais ricos da história, foi considerado por Jesus menor do que este, por que Jesus não usou algo melhor que uma jumenta? Se mil anos antes de Jesus, Salomão tinha recursos mais nobres, era de esperar que o próprio Jesus, o Messias esperado, fosse mais “esparto” que o antigo rei e “esnobasse” os incrédulos infiéis desfilando ao menos uma carruagem importada! Não foi isso o que aconteceu.

E por último, ao entrar em Jerusalém montado num jumento, Jesus desfez e frustrou propositadamente as expectativas erradas sobre a sua pessoa e missão. Os judeus, e alguns discípulos de Jesus, aguardavam um líder com motivações militares, um libertador forte, algo como o próprio Davi havia sido. Não foi o que aconteceu. O Reino de Jesus era de outro mundo e outra natureza e ele não alimentou expectativas erradas a esse respeito. Assim, em vez de montar um caríssimo cavalo árabe, coisa para “Salomões”, ele montou uma jumenta, mansa como ele mesmo. E com isso, ficou clara a natureza de sua missão.

Resta aos pregadores inconvenientes, que não lêem a Bíblia e ignoram o seu conteúdo, fazerem afirmações enganosas e levarem ouvintes interesseiros a crerem em discursos triunfalistas, de auto-ajuda, mas bem distante da verdade de Deus.

Siga-me no Twitter: @magnopaganelli

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Platão, o profeta, estava certo

Em A República (Livro VII), Platão reproduz uma metáfora contida num diálogo entre Sócrates e seus interlocutores Glauco e Adimanto, irmãos mais novos de Platão. A metáfora é conhecida como a metáfora da caverna, mito da caverna ou alegoria da caverna e conta a situação de homens que nasceram e cresceram dentro de uma caverna, nada sabendo sobre o mundo externo. Esses homens ficam de costas para a entrada, presos, imóveis, e olham fixamente a parede do fundo da caverna, Nela são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, e esses sons são associados às sombras. Os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

Um dos prisioneiros consegue se libertar e avança na direção do muro. Ele o escala e consegue sair da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e em seguida o mundo e a natureza, o sol, e as aves, enfim, tudo o mais. Mas um dilema se instala: se voltar e anunciar sua descoberta pode ser desacreditado, tido como herege, preso, espancado e morto. Vamos parar aqui.

O mito da caverna tem sido interpretado como uma metáfora para a situação daqueles que há séculos vivem e confiam na religião, a caverna. Todo conhecimento religioso é obtido a partir do empirismo, daquilo que percebemos com os sentidos e intuição, sem o saber científico. Muitos que estão privados do saber científico às vezes pensam que tudo sabem, que o conhecimento que possuem é suficiente para que entendam e expliquem tudo.

No mito da caverna os homens que lá viviam achavam que a realidade da caverna era a única realidade existente. É preciso romper com esse mundo fechado, ter coragem para fugir na direção da luz para descobrir o mundo real. No caso, entendia-se que a luz que projetava sombras distorcidas na parede era a visão que eles tinham da realidade, distorcida do mundo real. E isso não ocorre somente com os prisioneiros de Platão, mas também com os que negam o saber científico, com os que nada sabem e pensam que tudo sabem.

Mas... espere um pouco. Não é a mesma ciência que nos dá certezas e convicções? Saber apurado e sólido, livre das ilusões e mitos? É a ciência que nos faz ver o mundo como ele é à partir da... observação insistente, repetida, catalogada e interpretada à luz...à luz de quê? À luz daquele saber preso a Leis e Padrões e Métodos, nada fora daquilo que ela mesma usa para validar o próprio saber científico.

Assim, Platão esteve certo o tempo todo e pseudo cientistas tomaram de assalto o mito da caverna para atacar quem vive pela fé. Pois é a fé – e não a ciência – que leva o homem para fora do seu mundo, para encontrar-se com estados e realidades fora desse ambiente onde vive. O homem não sai da caverna porque tem certezas – sai da caverna porque crê haver algo além das luzes projetadas, sai porque crê haver muito mais do que aquilo que esteve observando todo o tempo. Não são os crentes, os religiosos, que acreditam e esperam viver um dia num mundo melhor, e até mesmo num céu lá fora desse mundo?

Penso que Platão estava realmente certo. A filosofia da época não queria muita intimidade com a religião. A ciência de hoje, a legítima ciência, nada tem com a religião; são campos de atuação distintos e não conflitantes. Dão respostas à perguntas que reclamam cada qual o seu domínio. Mas há pseudo cientistas entre a ciência e a religião, muitos infiltrados até mesmo nos domínios desta, e que tentam miná-la porque pensam que aqueles que conhecem uma luz mais intensa, mais forte que a luz do sol ao meio dia, trouxeram e mantêm ideias fictícias, ilusórias demais para um mundo seguro, científico e tecnológico como o mundo da pós-modernidade do século 21.

Platão, porém, além de filósofo, pelo jeito também foi profeta. Viva a fé!

"Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos. Pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho. Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que aquilo se vê não foi feito do que é visível". (Hebreus 11.1-3)

Siga-me no Tweeter: @magnopaganelli

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Nosso estranho modo de amadurecer

“Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino” (1Corintios 13.11).

Já notou como reagimos diante do amadurecimento? O adolescente, quando se dá conta da eclosão da primeira espinha, estremece apavorado não pela deformidade facial, mas só por imaginar que alguém poderá “confundi-lo” com uma criança. Embora não alcance bem o pedal do acelerador do carro, criança ele também não é mais: agora é a-do-les-cen-te, com todas as letras, e espinhas.

Depois se torna jovem, olha para as coisas dos adultos já quase “podendo” fazê-las livremente, mas ainda não pode. E desdenha a fase anterior, embora as espinhas insistam em fustigar sua epiderme.

Quando adulto, tudo muda. A confusão entre as fases é dissipada por um simples olhar. Está lá: é um adulto, está na cara, já sem espinhas. Segue a fase madura e com ela um estranho modo de ver as coisas. Já pouco importam as classificações, as definições e rótulos. Imagino que os muitos anos olhando no espelho serviram para sedimentar uma autoimagem e, com ela, a compreensão própria de cada fase anterior.

O homem maduro fica sem vergonha? Não, só fica ressentido de uma palavra mal dita, um excesso recente, uma risada mais escandalosa. Mas já não liga tanto para classificações. Elas eram coisas de menino, como o apóstolo Paulo categorizou. Coisas de meninos no tempo de menino; depois, novos modos de raciocinar.

Assim também é na formação espiritual e mesmo a intelectual. O tempo cuida de despir-nos das categorias: não importa classificar, rotular, endurecer-se a todo custo, para não parecer isso ou aquilo. A quem interessa descolar uma ou outra imagem? Se olhando para nós veem quem somos, não será preciso dizer, afirmar, fazer distinções. Penso que em circunstâncias normais, aquele que precisa definir-se “assim ou assado” é porque ainda tem sido confundido com “isso ou aquilo”. É aqueles que não conseguimos distinguir, se “é ou não é”.

Espinhas todos vão ter. Há quem queira vê-las logo no rosto, há quem lute contra a sua insistente permanência e há quem as deixe para trás, como coisas de menino.

Siga-me no Tweeter: @magnopaganelli

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Imitar a Paulo, em quê?

Paulo, de Rembrandt

Com certa frequência advirto os alunos no seminário a que considerem o contexto de um versículo antes de emitir uma opinião. Regra básica na hermenêutica bíblica. E como evita erros!

Considere isoladamente 1Corintios 11.1: "Sede meus imitadores, como tambem eu de Cristo". A partir dessa declaração paulina, muitos irmãos têm se admirado do apóstolo, que nesta situação apareceria como padrão de maturidade e comportamento cristãos a ser seguido. Fico imaginando quantas mensagens foram incrementadas com a exclamação: "Vejam a coragem de Paulo, recomendar a si como cristão". Mas teria sido essa a sua intensão? Paulo estaria chamando para si a responsabilidade de tornar-se o paradigma da fé cristã para toda a Igreja ao longo dos últimos dois mil anos? Vejamos que diz o contexto.

No capítulo anterior ele tratava da liberdade do cristão, onde encontramos outro versículo clássico ("Tudo me é lícito, mas nem tudo convém"). Sua liberdade esbarrava na questão dos pratos oferecidos a outros deuses nos cultos pagãos. O cristão maduro, Paulo argumenta, deve privar-se de sua liberdade em favor dos mais fracos.

Nenhuma prática deve limitar-se ao simples prazer pessoal, quer eu beba, quer eu coma (v. 31). Se Paulo escrevesse isso hoje talvez incluísse em seu argumento coisas como ouvir rock, vestir determinadas roupas, frequentar certos ambientes, quem sabe? A maturidade de consciência de alguém não pode tornar-se impedimento ou escândalo a que outro chegue à fé, quem quer que seja. Nem judeu, nem grego, nem os próprios cristãos (v. 32). Hoje ele se preocuparia com etnias, minorias, guetos e tribos, sem esquecer-se da grande mídia.

Esse foi o cenário da declaração de Paulo. Após aconselhar a seus leitores ele disse agir assim: "Também eu procuro agradar a todos, de todas as formas. Porque não estou procurando o meu próprio bem, mas o bem de muitos, para que sejam salvos" (v. 33). Paulo construiu todo o argumento e agora está se encaminhando para o arremate, dizendo que não usou do seu direito à liberdade quando a questão envolve a consciência e mesmo a salvação de outros. E por que ou baseado em que ele faz isso? Por causa do exemplo que viu em Jesus. Onde? Em toda a sua vida e morte. A própria morte do Senhor demonstrou que Ele pensou na nossa salvação, e não em si.

Em Filipenses 2.5ss., por exemplo, Paulo usou o mesmíssimo recurso ao dizer: "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se". E por que Jesus fez isso? Pela nossa salvação, em nosso benefício.

Esta é a situação na qual o apóstolo fez a declaração que temos discutido. Se eu fosse parafrasear a citação, teria algo assim: "Não pensem somente em si, mas considerem também os outros, os que podem ser alvos da salvação. Cristo pensou assim ao encarnar-se e eu O imito. Façam a mesma coisa: sejam meus imitadores, como eu também imito a Cristo".

É a esse comportamento e preocupação que Paulo diz para que o imitássemos; mas não a toda a sua vida. Evidentemente que concordamos ser ele um grande apóstolo, talvez o mais expressivo. Sua vida é, para nós, de grande inspiração. Mas guardadas as devidas proporções, ele mesmo disse não ser perfeito.

Coisas que queria fazer por saber ser o certo, não conseguia. O que queria abandonar por saber ser errado, não tinha êxito. E mais, se Paulo estivesse dizendo para que o imitássemos em tudo, teríamos aqui a primeira crise da história da Igreja, a base bíblica para a divisão, um pecador igualando-se ao próprio Jesus, aquele incomparável Homem a quem verdadeiramente devemos procurar imitar, esse sim, em tudo.

Portanto, considerando as pessoas à nossa volta, façamos como Paulo, refletindo de que modo nossos atos podem contribuir com o fortalecimento da fé alheia. Vamos imitar a Paulo nisso e a Jesus em tudo!

Siga-me no Twitter: @magnopaganelli

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Uma perspectiva que você deve considerar

Imagine as seguintes situações.

Situação 1. Você está em um incêndio. O bombeiro consegue chegar até o local para resgatá-lo e ele dá orientações básicas para você sair do prédio sem sofrer queimaduras. Você seguiria as instruções? Sim ou não?

Situação 2. Seu médico diz que você tem uma doença comum, mas ela é fatal; se não tratar terá morte na certa. Ele receita o tratamento, que tem cobertura do Governo e não terá custo, mas você precisa readequar seus hábitos alimentares e padrão de vida. Você faria o tratamento? Sim ou não?

As perguntas que fiz são retóricas. A resposta para cada uma delas é o “sim”.

O Cristianismo tem sido esvaziado do seu papel principal, que é apresentar a Jesus Cristo como aquele que dá a orientação ao paciente para que este decida ou não pelo tratamento. Jesus mesmo usou a metáfora do médico que veio para salvar doentes, e não os sadios: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes.” (Mt 9.12)

Estamos todos doentes, individualmente, coletivamente. As pessoas estão doentes, os grupos estão doentes, as estruturas e instituições que formamos estão corrompidas. Os processos e mecanismos sociais se decompõem no vício.

Quanto a Jesus, o que ele fez, sabemos: morreu na cruz para trazer salvação e deixou o Evangelho, a Boa Nova. Qual o papel do Salvador? Salvar. E para isso dá orientações básicas, receita o tratamento. O que ele quer com isso? Salvar, salvar a nós – diga-se de passagem. Nós é quem estamos sob risco, no ambiente em chamas, e doentes, com os dias contatos. Não ele.

E o que decorre disso? Decorre que tudo o que as Escrituras dizem, dizem para o nosso bem: “Nossos pais nos disciplinavam por curto período, segundo lhes parecia melhor; mas Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade.” (Hb 12.10; ênfase acrescentada). A Bíblia traz o receituário de Deus para o homem e este pode ou não seguir suas instruções, simplesmente. Seguindo-o, a salvação virá, primeiro individualmente. Depois na coletividade, com grupos melhores, com instituições melhores, com uma sociedade melhor. Não estou, com isso, dizendo que Jesus é marxista; o foco é o homem, mas há desdobramentos.

A salvação também não virá pelo que fizermos, pois ela já existe e está disponível. Aceitar os pressupostos dessa salvação é a atitude esperada. O caminho para sair seguro do ambiente em chamas existe e quem o seguir as orientações viverá. Assim, a salvação não vem pelo esforço, mas pela mudança no rumo, no acerto do caminho já existente, no ajuste dos procedimentos para a manutenção da vida. O caminho foi criado, preciso percorrê-lo. O procedimento foi estabelecido, preciso adotá-lo.

Portanto, se a Bíblia descreve o papel de Jesus como Senhor e Salvador, cabe a nós a percepção dessa verdade e uma mudança para o nosso próprio benefício. A Deus nada muda se rejeitarmos a sua oferta de Salvação. A nós, entretanto, faz toda a diferença, a propósito, uma vida inteira de diferença.

Siga-me no Twitter: @magnopaganelli


terça-feira, 19 de junho de 2012

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”. (2Timóteo 2.15)

Você tem certeza do seu chamado no Corpo de Cristo?
Seus obreiros estão na posição certa dentro do ministério?
Como você foi treinado para servir na obra de Deus?

Da mesma forma que o corpo humano é integrado por diversos membros e cada um possui a sua própria função, a Igreja – o Corpo de Cristo – também é composta por membros que diferem uns dos outros nas suas atividades.

Há quase duas décadas trabalhando com irmãos e obreiros que querem servir ao Senhor, o Pr. Magno Paganelli tem identificado a falta de orientação que muitos cristãos sofrem quanto à função que devem exercer no Corpo de Cristo. Isto o tem levado a dar cursos, palestras e a escrever sobre o assunto.

Foi assim que nasceram alguns de seus livros, como Qual a Sua Função no Corpo de Cristo. A obra deu origem ao curso que você tem em mãos e também a alguns cursos produzidos por igrejas locais. Além disso, o seu conteúdo foi adotado por faculdades e seminários teológicos de renome, como o Seminário Teológico do Sul do Brasil e Faculdade Betesda.

Neste curso, o participante irá identificar os talentos que possui, será desafiado a descobrir e desenvolver sua vocação ministerial, a identificar quais são os seus dons espirituais e ministeriais. Por meio de exercícios e testes práticos desenvolvidos por uma equipe ministerial experiente, será auxiliado a encontrar o foco do serviço que o Senhor espera para uma atuação frutífera no Corpo de Cristo.

Contatos: magnop@terra.com.br ou editora@arteeditorial.com.br

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A igreja de Corinto desembarcou no Brasil

"Nós somos tolos por causa de Cristo, vós, porém, sois prudentes em Cristo. Nós somos fracos, vós fortes; vós sois honrados, nós somos desprezados" (1Co 4.10).

A igreja em Corinto apresentou muitos problemas e de diversas naturezas. Problemas morais, doutrinários, éticos, de educação, de respeito, entre outros. Em sua primeira carta àquela comunidade, Paulo empenhou muito esforço na tentativa de recolocá-los nos trilhos por conta dos problemas deles, já que na segunda carta seu maior esforço foi defender sua própria autoridade como apóstolo.

O versículo acima foi escrito quando Paulo lidava com duas questões específicas. Uma, o orgulho ufanista dos coríntios. A outra, a pretensa sabedoria alegadamente possuída por eles. Os corintios orgulhavam-se de algum bem ou situação social confortável, o que fica claro na ironia de Paulo no verso 8: "Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinastes!"

Está claro o deboche do apóstolo, ainda mais à luz do próprio versículo 10 transcrito acima. O experiente Paulo seria tão ingênuo assim que teria sofrido os males para que somente os corintios pudessem colher os bens? Ora, isso não é cogitado, Paulo sabe que se algum bem tão valioso pudesse ser desfrutado pelos cristãos, ele seria um dos primeiros, senão o primeiro, a ter ciência e a desfrutar.

O outro problema é a alegada posse de alguma misteriosa sabedoria, algo que os coríntios passaram a crer e do qual orgulhavam, mas que não estava alinhado ao que o apóstolo ensinava. Provavelmente a igreja tinha permitido a invasão de conceitos gnósticos, sincréticos, ocultistas até. Uma alegada doutrina que Paulo também está combatendo, especialmente a partir do versículo 6, quando diz para "não ir além do que está escrito".

Não se sabe a que texto ou fonte o apóstolo está se referindo; a pesquisa recente não responde a isso. O contexto e, novamente, a ironia é que revelam o desprezo de Paulo pela suposta revelação misteriosa, "a chave espiritual" que abrira aos coríntios a porta dos mistérios espirituais. Que tolice! Paulo desdenha a tudo isso.

A situação estabelece um abismo entre os espirituais de Corinto e os missionários que trouxeram o evangelho. Eles se consideram sábios, fortes e honrados, enquanto os apóstolos são fracos e desprezados (G. Brakemeier).

Como se descolássemos a cena da Ásia Menor e a transplantássemos na América Latina, a Igreja no Brasil tem grupos que se identificam com os coríntios nos mesmos problemas. Há quem pense ter descoberto no evangelho o toque de Midas, que a tudo transforma em ouro e riquezas vindas do dono do ouro e da prata. E também temos por aqui os novos sábios, que de repente descobriram uma chave hermenêutica que invalida tudo o que foi ensinado até aqui, nos últimos dois mil anos.

Tenho comigo que o apóstolo não mudaria a sua maneira da tratar o problema, caso desembarcasse por aqui. Ele continuaria irônico, sustentaria a sua situação com as próprias limitações e não mudaria a sua mensagem. Ele já havia preparado a sua defesa, quando antecipou-se dizendo ser "servidor e mordomo dos mistérios de Deus" (v. 1), indicando que "o que se requer dos mordomos é que seja encontrado fiel" (v. 2), já que "o Senhor trará à luz as coisas ocultas e revelará os desígnios dos corações" (v. 5).

Aí, então, será visto quais são os tesouros legítimos e a verdadeira sabedoria vinda de Deus.

Siga-me no Twitter: @magnopaganelli



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Nosso templo, nosso orgulho, nossa ruína

"E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje" (Mt 11.23, ARC).

Cafarnaum era um pequena, porém, próspera cidade praticamente às margens do Mar da Galileia. Era uma cidade geograficamente estratégica pela proximidade com uma fonte assim, tão vasta em água, e por estar na chamada rota do incenso, produto manipulado no sul pelos árabes e comercializado no norte, na atual região da Síria.

A sinagoga de Cafarnaum era o marco da prosperidade local. Dois indicadores apontam para isso. O primeiro era o material do qual era feita a sinagoga. Ao contrário da pedra escura, quase preta, das casas da cidade, a sinagoga de Cafarnaum fora edificada de uma pedra clara (vide foto acima), seguramente importada por seus habitantes, importação financiada por ilustres moradores orgulhosos de suas doações.

O segundo indicador é a posição na qual a sinagoga se situava em relação às demais edificações locais. O ponto mais alto das moradias de Cafarnaum atingia no máximo a altura do piso da sinagoga, ou seja, como sede religiosa a sinagoga se destacava e se impunha na paisagem local, informando a presença de uma comunidade rica, supostamente abençoada e protegida por Deus e, portanto, no caminho certo e seguro de uma vida espiritual sólida. Essa é uma boa expressão do que a sinagoga transmitia: a segurança do povo de Cafarnaum que, por sinal, era o orgulho da cidade.

Jesus destacou tal segurança num de seus discursos ali, mas o fez por um viés negativo. O versículo que citei acima, "Cafarnaum... que te ergues até aos céus", aponta para a grandiosidade da sinagoga, como também o seu luxo. A confiança depositada numa instituição, mais que isso, numa edificação (um prédio), para nada serve; ainda hoje é assim. E como temos repetido esse erro apegando-nos e recorrendo aos mesmos expedientes? As igrejas evangélicas nos últimos anos redescobriram o caminho e a receita da suntuosidade estética da religião e não têm medido esforços para registrarem seu poderio por meio de suntuosos edifícios, até mesmo copiando o expediente usado em Cafarnaum de importar pedras (como a história se repete!). A parte inicial da zona leste em São Paulo que o diga! Parece que esse compromisso com a aparência é um vírus difícil de vencer, ao menos em alguns grupos cristãos que contabilizam boa arrecadação.

Por outro lado, a palavra dada por Jesus orienta-nos que nada mudou: a confiança na aparência, na estética, na suntuosidade não levará o homem até aos céus, como já pensavam os construtures de Babel, outra edificação que representou o orgulho e igualmente arruinou o gênero humano. Edificar em nós uma casa para o Senhor é a proposta mais segura para uma vida cristã. O menor sinal de confiança no mais discreto sinal da grandeza de Deus pode gerar efeito mais positivo no âmbito espiritual. E como tem sido difícil aprender isso!

Siga-me no Twitter: @magnopaganelli