sexta-feira, 25 de junho de 2010

Contribua com a “minha” incompetência


O programa de rádio começou assim: “– A paz do Senhor. Não, eu não deveria desejar a paz, porque vocês não depositaram nem 30% do valor do programa; nem R$ 5,00 vocês podem depositar?” Na outra banda, o programa na TV mantém os dados bancários e a indesejável solicitação: “Ajude-nos. Seja um mantenedor do nosso programa”. Há outros apelos piores.


Se existe algo que envergonha a muitos cristãos é a “pedição” de dinheiro para manter programas de rádio e TV. Por que alguém pediria recursos para essa ação “evangelística”? Porque não é do ramo, não sabe planejar – e pior, é incompetente.

Veja programas no rádio e na TV que não são para o público cristão. Eles são bons, têm qualidade, são organizados, alcançam o público-alvo, dão IBOPE e vendem o produto. Por quê? Porque alguém sabe montar o projeto, alguém planeja, sabe prever crescimento e sai da cadeira para ir atrás de patrocinadores (e muitos desses patrocinadores até mesmo ajudam no planejamento das ações do programa com seus especialistas).

Mas os pastores e apóstolos midiáticos não. Eles querem comer camarão a preço de arroz com feijão. Primeiro contratam um horário no rádio ou na TV, sem planejamento, “tudo pela fé”, e depois colocam a culpa da sua desorganização, da sua fantasia, da sua falta de responsabilidade (e mais uma porção de adjetivos) nos ouvintes e telespectadores – se é que os têm. E fazem isso em rede nacional, lavando roupa suja ao vivo – e muitas vezes a cores. É lamentável, é vergonhoso.

Eu penso que não há necessidade de todas as igrejas serem representadas no rádio e na TV. Noventa por cento dos casos é o “apresentador-pastor” que quer aparecer, equiparar-se com o outro que está no ar, ou mesmo querem aumentar o rebanho para faturarem mais. Qual programa desses, que está na TV, pode ser rotulado de evangelístico? Nenhum! Todos são programetes de crente para crente. Alguns estão na TV para lavarem roupa suja da denominação, para falarem e serem ouvidos sem que a outra parte tenha direito a resposta. É uma aula de falta de amor e de falta de civilidade. Pessoalmente, fico envergonhado. Fico como avestruz, com vontade de enfiar a cabeça na terra. A falta de união fica evidente e isso é desserviço ao evangelho, não evangelização. Perdemos almas com isso, não as ganhamos. Ganhamos antipatia da população mais atenta e perdemos moral diante de todos. Se a pastorada quer pregar o evangelho, que comece organizando a própria casa (a igreja e a doméstica também).

Encher os templos com visitantes convidados no ar pode indicar outra deficiência: a falta de programas de discipulado, de treinamento, de ensino. Essas igrejas não têm essa preocupação, pois estão completamente dependentes de recursos midiáticos para manter os bancos de suas igrejas lotados. “Sai um, Deus manda outro”, dizem.

Quem quiser ajudar esses pastores a fazer a coisa certa, que pare de contribuir com a incompetência deles. Apóie iniciativas sérias. Nas igrejas há bons profissionais do ramo, estrategistas, especialistas em planejamento, em mídias sociais, que poderiam ser aproveitados com a finalidade de melhorar a apresentação do evangelho, quando essa for de fato a proposta. Do contrário, atenda ao apelo do pastor: “Financie a minha incompetência. Deposite agora mesmo a sua contribuição”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Tchau, teologia! Vai com Deus...


Jesus respondeu: “Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!”


A história da Igreja ensina que as diferenças de opinião sobre modos de interpretação (abordagens) e doutrinas (posicionamentos) sempre ocorreram. A novidade nos últimos anos é que os cristãos não mais divergem sobre abordagens nem sobre posicionamentos, porque nada sabem sobre a Bíblia nem sobre teologia. A maioria dos cristãos não considera a teologia e suas doutrinas algo importante, relevante e nem de aplicação prática em suas vidas.

Nas igrejas (e reuniões informais dos “sem-igreja”), no entanto, todos querem acertar o alvo e se darem bem. Mas como isso acontecerá, se não conhecem a proposta bíblica? O clímax da afirmação acima, feita por Jesus, é que nós “erramos”, e ele dá o motivo: por falta de conhecimento. Vincent Cheung em sua obra diz que “não há propósito maior para o homem senão o de conhecer a Deus”, e, “visto que Deus se revelou através da Escritura, conhecer a Escritura é conhecê-lo, e isto significa estudar teologia”. Isso não significa, necessariamente, matricular-se numa escola de teologia.

Até para servir a Deus em nossas “igrejas de bairro” necessitamos, ao menos, de uma teologia “funcional”, formulações para que nosso serviço seja feito de acordo a Palavra de Deus. Nada pode ser realizado na vida espiritual cristã sem a mínima noção de teologia: não podemos crer, não podemos evangelizar, não podemos pregar, não podemos ensinar, não podemos nem orar sem conhecimento teológico!

Em Romanos 10.13-15a há, por exemplo, uma proposição teológica: “Porque ‘todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo’. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” (NVI). Em outras palavras, é preciso aprender a verdade de Deus para pregá-la e levar outros a crer.

Alguém pode não gostar de teologia sistemática (Cristologia, Harmatiologia, Escatologia), mas precisa ao menos da teologia bíblica (do Antigo Testamento ou do Novo Testamento, ou a dos apóstolos – João, Lucas, Paulo, Pedro). A Teologia, portanto, é inevitável. A questão então se torna: Sua Teologia é correta?

A Teologia equivocada leva inevitavelmente ao desastre espiritual (e a outros desastres também!). Há grupos que, por não formularem corretamente uma teologia básica, chegam a negar a existência de Deus. Outros formulam conceitos errados sobre Jesus e sua divindade, e assim invalidam a sua obra eficaz. Também há formulações erradas sobre o Espírito Santo e sobre as Escrituras, como Jesus advertiu no versículo acima.

Há exemplos clássicos de erros por causa do desconhecimento das Escrituras e da Teologia:

- Jesus nunca disse: “De mil passarás, a dois mil não chegarás”, como alguns dizem
- A reencarnação não existe, mas sim a ressurreição
- Jesus também nunca disse: “Não cai uma folha de uma árvore sem que Deus não saiba”
- Jesus nunca disse aos perdidos: “Eis que estou à porta e bato...”. Ele disse isso à Igreja (a cristãos!).

Há uma lista que poderia ser relacionada aqui. Uma lista não, algumas boas páginas!

Diante da necessidade do estudo das Escrituras e visto que estudar as Escrituras é procurar conhecer a Deus para servi-lo melhor e sem erros, a Teologia é a maneira mais segura de preparar nossa vida espiritual para que seja uma vida de acertos constantes. Você pode programar-se para o estudo da Palavra de Deus se sentir em seu coração que ama o Senhor e quer melhorar o seu conhecimento a respeito dele e o seu relacionamento pessoal com o Senhor Jesus. Mas negar-se a conhecê-lo melhor e conhecer a Palavra que testifica a seu respeito é garantia de erros e afastamento. Quem dá adeus ao estudo das Escrituras não vai com Deus...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Pontos de contato para a comunicação num mundo pós-moderno


1. Existe farta abertura para a espiritualidade. O homem é um ser espiritual: “Mas é o espírito dentro do homem que lhe dá entendimento; o sopro do Todo-poderoso”. (Jó 32.8. RC: “Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-poderoso os faz entendidos”). “Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (Ec 3.11).


Na modernidade a exaltação era a razão e ao conhecimento científico: o que pode ser provado? “Antigamente, o que estava sendo dito não era questionado. Ele questionou o saber constituído e criou a cultura moderna, a cultura em que a verdade não é questão de autoridade, mas de comprovação. Nasce com esta atitude de Galileu o homem moderno, que pode ser mostrado assim: não é o que a Igreja diz, o que Aristóteles (cuja autoridade era indiscutível) diz, mas o que se pode provar”. (Isaltino Gomes). Com isso, houve um esfriamento em relação aos postulados da religião e da fé, uma descrença na Palavra de Deus associada às “promessas não cumpridas” feitas por setores da cristandade.

Na pós-modernidade, há novamente uma explosão de espiritualidade. O homem estava sufocado com o pensamento científico que produziu duas Grandes Guerras e não melhorava a vida das pessoas com a modernidade e o avanço tecnológico. Agora até as grandes corporações investem em espiritualidade, livros sobre espiritualidade, sobre “Jesus isso“, “Jesus aquilo” estão nas listas dos mais vendidos. Mas também houve um resgate da superstição: gnomos, duendes, pedras, cristais e outros.

2. Os absolutos. O homem pós-moderno diz não haver absoluto. O que é verdade/absoluto para alguém pode não ser para outro. Isso é discurso desconstrutivista. Não corresponde a verdade, pois:

a) todos lutam por um mundo melhor (se não há absolutos, o que é um mundo melhor?)

b) experimente agredir alguém (o que é agressão para um, pode não ser para outro)

c) Dostoievski: “Se Deus está morto, então tudo é permitido”. Vamos roubar e matar.

A Bíblia é supra-cultural embora sua escrita revele traços profundos de determinadas culturas. Sua aplicação cabe em qualquer grupo, pois a verdade não é a minha verdade, mas a Verdade de Deus; não é a verdade da instituição que importa, mas os princípios eternos do Criador.

Arnold Toymbee: “Alguns dos nossos especialistas-sacerdotes são chamados de psiquiatras, alguns de psicólogos, alguns de sociólogos, alguns de estatísticos. Chamam pecado de “desvio social”, que é um conceito estatístico, e chamam o mal de “psicopatologia”, que é um conceito médico”.

A igreja deve dar ênfase a dois conceitos fortemente atacados: a moralidade e a verdade. Lutero: “A prova definitiva do pecador é que ele não conhece seu próprio pecado. Nossa tarefa é fazer com que ele o veja”. Proclamar a o evangelho da salvação em Jesus Cristo pode trazer convicção do pecado

3. Individualismo. Em Juízes 21.25: “Cada um fazia o que achava mais reto”. Isso decorre da falta de uma estrutura moral, onde a sociedade se desintegra em facções que guerreiam entre si e contra indivíduos isolados e depravados. É um retorno ao barbarismo, a perversão, a anarquia como nos tempos mais antigos.

Paulo, quando escreve aos Coríntios, já enfrentava esse problema. “Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo” revela o embrião do comportamento pós-moderno há 2 mil anos. Ele diz que o ser, a persona é desintegrada naquele que É, no Deus que tudo pode. Nós não somos, mas Ele é tudo em todos (aldeia global).

Os pós-modernistas dizem que o sentido da linguagem só pode ser determinado dentro da “comunidade interpretativa”. Para os cristãos, a igreja é a sua comunidade interpretativa. E também a síntese de unidade e pluralismo no Corpo quase soa como pós-moderna.

Pessoas pós-modernas são voltadas para o grupo. Reside aí um forte apelo aos pequenos grupos, grupos de comunhão, grupos de estudo etc.

Por outro lado, o Senhor respeita a individualidade de cada um (vide a analogia da Igreja como um Corpo formado por diversos membros individualmente).

4. Testemunho vivo. Leith Anderson afirma que “as pessoas de hoje tendem a não pensar de forma sistemática nem dar atenção a uma argumentação racional. Assim as idéias podem ser mais bem abordadas de questão em questão e pela influência de relacionamentos. Pessoas que sirvam como modelo, mentores e amigos moldam o pensamento das pessoas, para melhor ou para pior, mais do que uma lógica objetiva”.

Jesus se comunicava por meio de parábolas, não por meio de tratados abstratos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A tecnociência é a parteria da pós-humanidade


Futurólogos preveem que antes do final do século XXI desaparecerá o último humano da face da Terra, dando lugar aos cyborgs, seres biológicos e maquínicos, anunciou a filósofa argentina Esther Diaz, professora da Universidade Nacional de Lanús.


“A tecnociência é a religião global de hoje e a saúde é o seu bem maior”, disse Esther na segunda-feira, 10, para uma platéia de professores e estudantes da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, ao falar sobre “O desejo e a ética como base para a investigação e a docência universitária”.

A ciência, enfatizou Diaz, é muito mais do que conhecimento, porque ela lida com o poder. Daí que a biopolítica, ou o biopoder, quer o controle da vida, da saúde, do sexo, da morte.

Antigamente, quando o coração parava de bater era o indicativo de que a pessoa estava morta. Hoje, um aparelho marca o momento da morte encefálica. Na atualidade, a pessoa não morre mais em casa, numa cama rodeada de parentes e num ambiente familiar, mas morre numa Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), solitariamente.

Hoje, o biopoder atua sobre a vida, como aconteceu nos campos de extermínio, e atua sobre a morte, como se verifica nas unidades de terapia intensiva. As UTIs não passam de locais onde se espera a morte, disse.

Se no passado cabia às religiões aspirarem a vida eterna, hoje é a técnica que almeja a vida eterna biológica, disse Diaz. “As promessas de salvação não vêm mais do mundo religioso, mas do mundo científico”, agregou.

As pessoas passam a ser, então, uma fusão de natureza e técnica, início da era pós-humana. “A técnica, hoje, se introjeta no corpo por manipulação genética, implante, transplante”, arrolou a palestrante.

Parodiando Karl Marx – “a violência é a parteira da história” – a filósofa argentina mencionou que “a tecnociência é a parteira do pós-humano”.

Embora o poder tente convencer a humanidade de que a ciência é neutra, universal, é preciso questionar a racionalidade científica, brigar para que a ética perpasse a ciência, e ter claro que a ciência não é neutra nem universal.

Enquanto a Aids se restringiu ao continente africano, o vírus HIV mereceu pouca atenção da indústria de fármacos. Assim que a pandemia chegou a países desenvolvidos, o quadro mudou, ganhou pesquisas e medicamentos, apontou a filósofa, ressaltando, assim, que a ciência não é universal nem neutra, que ela não está aí para todos da mesma forma.

Não se trata de negar a técnica e a ciência, frisou, mas de pensá-las, questioná-las e definir que papel elas desempenharão no futuro.

por Edelberto Behs. Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sobre a profissão de fé


O número de líderes que dedicam tempo integral ao ministério é grande. Via de regra o caminho percorrido até que um desses obreiros chegue ao topo dessa “pirâmide” é igualmente longo.


Certamente o leitor conhece, por experiência ou por observação, a trajetória da carreira espiritual. O sujeito nasce, cresce, aceita a Cristo, serve ao Senhor, é consagrado e embrenha-se pelo matagal do ministério. Muito bem. Mas e quando esse obreiro, esse pastor, ou bispo – seja lá o que for, “chega lá”? Ele passa a viver da fé, jargão que responde a tantos questionamentos... e já não olha mais o ministério de baixo para cima, como um objetivo, uma meta a ser alcançada. Agora ele é o objetivo, ele é a meta, ele é o topo. Curioso, não?

A igreja ou a comunidade está ali, os membros, as parcerias, os departamentos, os colaboradores ou obreiros. Tudo sob sua batuta, às suas ordens.

A profissão de fé passa de uma simples confissão para uma complexa carreira, uma profissão como a maioria dos mortais conhece – pelo menos aqueles que têm um emprego formal. Sim, porque profissão de fé é o ato de proferir, de confessar uma orientação religiosa e primar por seguir os ensinos adotados por tal orientação. E profissão formal é o emprego onde trabalhamos diariamente para ganhar nosso sustento material.

Mas agora, aquele crente não só profere uma orientação religiosa como também vive dessa profissão, trabalha, dá expediente. A obra passa a ser o seu negócio, o seu ramo de atividade, a sua área de atuação e o gabinete pastoral torna-se o seu escritório. O que muda aí? Qual a postura a ser tomada?

Estou seguro que a postura não deveria ser mudada. A motivação precisa permanecer: continuar a serviço do Reino e trabalhar para ganhar almas, ensinar cristãos, treinar obreiros, edificar o Corpo.

Mas não é assim tão fácil. Um dia o camarada olhará para o seu ofício e verá que ele vive daquilo. E a tentação pressionará para que ele encare seu ministério como um negócio, e como tal deve dar lucro, gerar renda, igualar-se aos mais bem-sucedidos profissionais. Afinal ele está no topo!

Reconheçamos: não é tarefa fácil. E é nessa hora que a “roda gigante” deve funcionar. Ele que está lá em cima deve saber que a descida o impulsionará a nova subida. Que isto quer dizer? Quer dizer que alguns dos fundamentos da vida cristã ajudarão, tais como oração devocional, vida dependente, comunhão.

Dedicar-se a esses pontos primários e fundamentais são de vital importância para a manutenção de uma vida espiritual sadia. O olhar para a carreira ministerial como uma profissão como outra qualquer deve existir, e existirá. A motivação, no entanto, é que deve diferir. Ainda que alguns profissionais pautem suas ações pelos lucros, pelos ganhos cada vez maiores, outros há que vêm suas profissões como meio de realização pessoal. Aquele que vive da fé deve ver além: deve ver sua carreira, sua profissão de fé como meio de realização do projeto do seu Senhor.

Reside aí a fonte de toda a satisfação que irá gozar e a razão de toda a motivação que irá sentir.

Olhar, racionalizar e discernir. Olhar para a carreira; compreender o que há por trás e distinguir entre o secular e o sacro. É um exercício aparentemente simples e eficiente. Mas o sedentarismo mental ronda até mesmo essa tão simples prática.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Cristianismo na era de sua própria síntese


O Cristianismo, ao longo dos séculos, foi e é marcado pela pluralidade. Pluralidade litúrgica, pluralidade teológica, pluralidade na praxis, pluralidade na espiritualidade, pluralidade nos problemas em determinadas culturas, enfim. Certa abordagem teológica interpreta, por exemplo, as cartas do Apocalipse como retrato dessa realidade, ou seja, sete características num mesmo momento histórico.


No entanto, essas características todas são abarcadas por uma predominância qualquer ao longo dos séculos. Explico. Mesmo que cada igreja enfatize, por exemplo, a doutrina da divindade de Cristo, outra enfatize a necessidade da santidade e uma terceira dê ênfase a outro aspecto, naquele momento ou época, olhando à distância, pode haver a predominância de um tema comum a todas, indistintamente.

Foi assim no início, no meio e nos últimos anos do Cristianismo. No início a Igreja foi marcada pelas controvérsias, pelos trabalhos apologéticos, pelas obras dos pais apostólicos, que tentavam estruturar a doutrina cristã e estabelecer o Cristianismo em bases sólidas e comuns. Mas um olhar macro revela que o problema era a necessidade e a luta por estabelecer o Cristianismo no Império Romano e ter o reconhecimento do povo. Logo, essa tensão derivada das relações Igreja x Estado desembocou na corrupção da primeira e alguns grupos, no final deste longo e primeiro período, manifestara sua indignação dando início ao movimento monástico.

Estava em foco a espiritualidade, a pureza doutrinária, a preservação dos ideais ensinados pelo Senhor Jesus e por seus apóstolos. Era o período da tese. Mas esses movimentos monásticos também sucumbiram, colapsaram e desviaram de seus objetivos iniciais, passando a orgulhar-se intelectualmente das próprias conquistas. Vieram, então, os grupos pré-reformadores, por volta do século 10, em diante, o que desembocou nos pré-reformadores e nos próprios reformadores do século 16.

A partir daí, novo ciclo. Entraram em cena as disputas teológicas, os embates doutrinários e uma argumentação mais racional entra na pauta do dia. A espiritualidade, o cuidado pastoral, a preocupação com a diaconia são postos de lado em virtude da necessidade de estabelecer as bases da Reforma e combater o engano teológico (e da Tradição) que é o mal há séculos minando a força da Igreja e do Cristianismo. Esse foi o tempo da antítese.

Entretanto, a antítese também sucumbiu diante dos movimentos recentes (iluminismo, modernismo, p. ex.) e da realidade atual (era da informação, globalização, entre outros). Agora a Igreja e o Cristianismo precisam de respostas que envolvam a razão e a emoção. Céticos estabelecem diálogo com a espiritualidade (até mesmo nas universidades) e também nas organizações os especialistas interessam-se por assuntos dessa área. Religiosos querem provar novas experiências e olhares diversos que os leve a dimensões mais amplas. E o Cristianismo não pode calar-se, mas precisa preservar o seu núcleo, guarnecer seus princípios e negociar os parâmetros, as áreas de sua doutrina que são mais flexíveis. É o momento da síntese, é o tempo de juntar a experiência à reflexão, de apresentar o texto e a paráfrase.

Quem não gosta da igreja, bom sujeito não é...


Agora é pra valer: o que dá Ibope e gera receita é falar mal da igreja! Igreja não tem cara, não tem personalidade jurídica, igreja não se defende. É como chutar cachorro morto. Com a proliferação de websites e blogs, muita gente dispara: “Eu não vou mais à igreja”. “A igreja sou eu, vou cultuar sozinho”. “Igreja não leva ninguém pro céu”. “Igreja é latifúndio de pastor”. “Igreja é pra gente atrasada”. E por aí vai. Marqueteiros, vendedores, blogueiros, artistas (que nunca foram “muito” crentes mesmo), diretor de faculdade, pastores, gente graúda e gente miúda, desviados também. Todo mundo resolveu bater na igreja. Hipocrisia. Para dizer o mínimo!


Eu não tenho procuração “da igreja” para defendê-la, nem ela precisa disso, mas considere o seguinte. Quem é a igreja? Fala-se muito sobre a igreja. Mas que igreja? Dê nomes. Verifique se sua bronca não é contra o modo de governo da igreja: episcopal, presbiteriano, democrático, células. O problema pode ser no modo como a sua igreja entende a eclesiologia. Aí o problema não é “da igreja”, mas da teologia de alguém que iniciou o seu grupo dentro desse molde. Mas há outros modelos de governo e isso não tem a ver com a igreja em si.

Pode ser que você não goste da panelinha que muitos chamam “ministério”. Aí o problema não é “da igreja”, mas seu, que permite a panelinha estar onde está e fazer o que faz. Oriente-se, estude, envolva-se e uma hora a “panelinha” terá que ser desfeita. Ou então admita, como Lutero, que não adianta sair da igreja, pois não há igreja perfeita. O jeito é reformá-la de dentro para fora, e aí você terá apoio de muitos outros que estão no mesmo barco.

Verifique se o que você chama de “igreja” não são alguns pregadores, tele-evangelistas, artistas, gente que faz campanhas e subtraem dinheiro “da igreja” em benefício próprio. A igreja não é essa gente, ela “contém” essa gente. Nunca leu na Bíblia (provavelmente não) que o joio está onde o trigo está? Assim, sempre teremos o joio, ele faz parte da igreja, mas o joio não é a igreja. Então não justifica falar mal da igreja.

Veja também se o problema não é você! Sim, nós é que formamos a igreja. Já imaginou isso? Há quem não mova uma palha, mas a-d-o-r-a falar mal de quem? Da igreja, coitada dela. O problema é que “a igreja” não é pra qualquer um. Gente que quer falar palavrão (agora é moda); viver como um nababo; deixar-se atrair pelas delícias do jardim do vizinho; gente frustrada que quer desabafar; gente que precisa de atenção e paparicos, não gosta de ser enquadrado pelas exigências naturais da Bíblia para quem quer ser discípulo. É simples, o problema não é a igreja; ela nada tem a ver com isso.

Quem fala mal da igreja, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou não está em pé. (Quem está em pé, cuide para que não caia, 1Co 10.12)