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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

História e Tradição: qual o problema com elas?

Não podemos confundir história com tradição, pois não são a mesma coisa. História é a narrativa dos fatos, ainda que tal narrativa seja unilateral. Diz-se que após uma guerra os vencedores contam a História, ou seja, narram os fatos como lhes convém. A tradição não tem a ver com a narrativa dos fatos, mas com a preservação das práticas, a partir de uma interpretação dos mesmos (ou das conveniências). Uma está contida na outra, a tradição está contida na história e a história traz à memória a tradição.

O Cristianismo, à parte o seu elemento sobrenatural (transcendental), é histórico (apoiado por fatos) e tem histórias, boas e más. Mas o Cristianismo também tem, dentro de sua história, tradição; melhor, várias tradições. Tradição católica, tradição ortodoxa, tradição copta, tradição armênia, tradição protestante. Cada uma dessas tradições também traz suas variantes, ou seja, a história é uma, a tradição não. Dentro da tradição católica é possível identificar variações da prática, isto é, a tradição pode se ajustar em função de atenuantes.

Não há como romper com a história: ele ocorreu e ponto. Há como romper com a tradição. Lutero talvez seja o ícone dessa ruptura. No entanto Lutero, rompendo com a tradição, manteve-se na história – e fez história! Não há como escapar. O monge alemão entendeu que aquele modelo, aquela práxis, já não amparava as convicções que ele sustentava a partir da sua leitura da Escritura. Ele, então, rompeu com a tradição e entrou para a história.

A história é história por si e pode ser revista, aclarada. Tradições são mantidas por movimentos, e movimentos são estimulados por aqueles que avançam numa direção. No Brasil temos o movimento reformado, o movimento gospel, o movimento carismático, o movimento pentecostal, o movimento evangélico, o movimento liberal, o movimento da libertação – que já não se movimenta tanto e encostou na teologia pública tentando avançar um pouco mais. Há outros.

Quando perdem suas forças, obviamente, os movimentos param, ou ficam agonizando, como o movimento liberal da teologia no início Século 20 (o liberalismo decorrente é que insiste em vingar no Brasil). Quando alguém não quer mais mover-se numa direção, muda de movimento. Ou para. Mas todos estamos – se estamos caminhando – num movimento. Não podemos, isso sim, é sair da história. A história se mantém, segue, abarcando os movimentos e denunciando tradições espúrias, desequilibradas e incoerentes. A história tem esse “dom da revelação”.

Jesus disse que parte dos judeus invalidava (distorcia) a história (das palavras de Deus) valendo-se da tradição (das palavras humanas). Dado momento a tradição quer sobrepujar a história e fazer-se maior; algo como o episódio do Diabo querendo usurpar o trono de Deus. Talvez por isso o Diabo “curte” algumas tradições. Mas a história sempre será maior que o movimento e maior que a tradição. A maior duração de um movimento o torna tradição, mas nunca história. Lembram do G-12? Virou história... agora é passado.

Portanto, quando pensamos interpretar a Palavra de Deus (que se revelou na história), não podemos abrir mão de considerar a história. A tradição é uma circunstância se comparada à história; é temporal. A história não. A tradição considera comportamentos temporais, circunstanciais, tendências, convergências localizadas, culturas. Isso não acontece com a história, já que ela é ampla e por isso mesmo nos faz ver à distância; favorece a imparcialidade.

Hoje podemos, olhando para a história, avaliar melhor os erros cometidos nas tradições. Às vezes chamamos “erros históricos”, não porque a história errou, mas porque foram erros que “entraram para a história”, por terem origem n’alguma tradição. Quer conferir? Leia a história.

E por que o texto? Para indicar que erramos menos quando consultamos a história, toda ela, antes de abraçar movimentos e criar tradições. Há muitos erros que poderiam ser evitados em nossa vida, e particularmente na vida cristã, se olhássemos com maior cuidado para a história. Deixaríamos de cometer enorme lista de erros apenas por observar a história. Mas envolvemo-nos em movimentos que anunciadamente não darão em lugar algum, apenas por descuido da história. Não há nada “muito” novo debaixo do sol.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Aversão ao Templo

A atual aversão ao cristianismo institucionalizado tem raízes mais profundas. Remonta ao seu próprio nascimento, quando alguns judeus e muitos helenistas não sentiam prazer nos cultos “oficiais”. Os helenistas, por serem considerados “mestiços” ou mesmo impuros. Alguns judeus, por preferirem uma vida espiritual mais vibrante que a promovida e mantida por sacerdotes de conduta suspeita.

O livro de Atos dá indicação de ter sido esses helenistas que levaram o evangelho de Jerusalém para Samaria após a perseguição contra os doze, já que estes não saíram de Jerusalém. Mas os helenistas (gr. hellenistai), sim. Hellenistai deriva do verbo hellenizein que não significa “falar grego”, mas viver à maneira grega. Poderia tratar-se de judeus ou descendentes desses que viviam de maneira grega, judeus com tendências mais místicas, com tendências sincréticas. Isso explica o repúdio por parte dos que se consideravam mais santos e justos.

Os helenistas recusam o culto no templo e pregam contra ele assim como os essênios, razão pela qual foram expulsos de Jerusalém. Em João 4.38, Jesus declara que os “outros” (gr. alloi) inauguram a missão em Samaria e então os apóstolos “entram” em seu trabalho. Definitivamente não foram os apóstolos nem os discípulos originais que levaram o evangelho até aquela região.

Oscar Cullmann admite que o quarto evangelho tem um laço de afinidade com os helenistas e com a seita de Qunram. Os três, o quarto evangelho, os essênios e os helenistas, têm em comum a aversão ao templo. Neste sentido, a metáfora de Paulo para a Igreja, o corpo como templo, e a missão paulina aos gentios alinham-se a esse discurso e até mesmo prepara a sua defesa.

João, por sua vez, situa a purificação do templo no início do seu evangelho, diferente dos sinóticos ― o templo está no foco. É nesse evangelho, no início também, que Jesus afirma a uma samaritana que nem em Samaria nem no templo em Jerusalém é o lugar onde o Pai seria adorado. Nada mais adequado.

Lucas, em Atos 6, justamente quando fala dos helenistas, afirma que numerosos “sacerdotes” se têm unido à Igreja (v. 7). Com efeito, muitos membros da seita de Qunram eram sacerdotes. Excelente maneira de “esvaziar” o templo dos seus oficiais levando-os para “o novo templo’, que é a Igreja nascente.

Os helenistas, portanto, eram aqueles que não faziam parte do judaísmo oficial, nem mesmo da comunidade de Israel. Não existia outro nome para designá-los. Do mesmo modo, parte do cristianismo oficial chama “sincretistas” (ou mesmo liberais, dependendo do caso) àqueles que não concordam com os posicionamentos e agendas da liderança estabelecida... isso quando não os chama de hereges mesmo!

“Os helenistas eram a parte mais viva e mais interessante da igreja primitiva”. (Cullmann)

Paulo, como lhe convém, constrói a sua teologia a partir de Cristo na cruz (1Co 1.23; 2.2). E ele mesmo afirma em 1Co 1.23 que até para os judeus a mensagem de Cristo na cruz é escandalosa, contra cultural. Mas, “para os que foram chamados é o poder de Deus” (v. 24). Nada de Templo; o assunto é a cruz.

A função básica da mensagem não é adequar-se à cultura: nem Jerusalém, nem Samaria. Também não deve adequar-se aos chamados em cada cultura. A mensagem é o poder de Deus e a sabedora de Deus, ou seja, aquilo que cada cultura necessita. Portanto, está implícita a sugestão de que a mensagem tem o poder de modificar cada cultura. E como a cultura é dinâmica, está sempre sendo alterada, justifica-se o lema da Reforma “Igreja reformada sempre reformando” (lat. Ecclesia reformata et semper reformanda est) No v. 24 o apóstolo indica que Deus faz sentido para todas as culturas em todos os tempos.

Cullmann sustenta, ainda, que o evangelho de João tenha uma relação ou elementos que o liguem a um tipo de judaísmo tanto mais “esotérico”, no sentido de marginal ao judaísmo oficial do final do primeiro século, já existente na Palestina. Este judaísmo específico teria sido a manjedoura do cristianismo. Estevão, helenista, deve ter tido alguma ligação com este grupo. Foi ele quem citou Isaias 66.1: “O céu é o meu trono, e a terra, estrado dos meus pés. Que espécie de casa vocês me edificarão?” Vejam só o desprezo pelo Templo em preferência a uma religião mais aberta a novas possibilidades. Seria já o efeito da graça?

Para concluir, João parece “opor-se” a Mateus 10.5 (“Não entrem em cidade samaritana”), quando em seu quarto evangelho faz questão de mostrar que Jesus queria sim a missão em Samaria. Já no quarto capítulo narra Jesus opondo-se ao modelo religioso oficial de Jerusalém com o seu Templo. Se podemos aprender algo com esse discurso, não percamos tempo.

A partir da ressurreição de Jesus, a shekinah, a glória de Deus no Templo, se desliga deste e se une ao Logos feito carne. Cristo substitui o templo! Antes de sua morte, a presença divina se manifestava na encarnação; após ela, nos sacramentos, celebrado por todos os cristãos, judeus e pagãos, que em todos os lugares formam a Igreja. Definitivamente Deus não está num templo feito por mãos de homens.

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terça-feira, 5 de abril de 2011

A nova metáfora para o cristianismo

Este é um texto apócrifo, diferente de 1Corintios 12, quando Paulo usou a metáfora do corpo para representar a Igreja, as múltiplas funções de seus membros e sua interrelação. Quero propor uma metáfora para o Cristianismo brasileiro, a do vestuário. Assim como o corpo é formado por diversos membros, assim cada membro é vestido por diversas peças de roupa; desse modo, a Igreja é revestida por peças de vestuário, se da moda “não sei, Deus o sabe”.


De baixo para cima temos, na Igreja, os tênis que, quando estão limpos são como jeans – servem para toda ocasião, mas quando estão sujos, nem mesmo os meninos devem usá-los.

A Igreja é vestida de calças jeans, peça básica, cai bem com tudo. É resistente, serve para todos os dias. Vão bem com camiseta, camisa, paletó, jaqueta; tudo vai bem com o jeans.

As calças jeans, por sua vez, têm bolsos. Você é “crente-bolso”? Os bolsos gostam de estar cheios de alguma coisa, não! A vestimenta da igreja tem bolsos também. E também tem cuecas. Crentes-cueca. Paulo falou de partes do corpo que precisam ser vestidas com mais honra (1Co 12.23). Para isso temos os crentes-cueca.

As vestes são uma metáfora das denominações, das diversas orientações teológicas à disposição – as “alas” da Igreja, as alianças em prol da preservação disso e daquilo, as comunidades, os conselhos e convenções humanas. Isso tudo nada mais é do que peça de vestuário para cobrir o verdadeiro corpo, do qual Cristo é a cabeça. Quer ver o corpo? Desnude-o. Peças de vestuário ficam sujas de tempo em tempo e precisam ser trocadas – o Corpo sempre estará lá. As peças de roupas saem da moda e não as usamos mais no ano que vem. Como escreveu um autor já demonizado em nosso meio, são “uniformes e cosmético evangélico”. Mas o Corpo estará lá.

A minha metáfora ilustra a atual situação da Igreja brasileira e sua teologia (ou falta dela). Estamos defendendo muito as vestes mas o que está ligado à cabeça são os membros do Corpo, não suas vestes. Mesmo os grandes expoentes que alardeiam defender a pureza, a doutrina, a tradição ou qualquer outro aspecto relacionado ao corpo, está na verdade dizendo: “Gosto mais de camisa do que de camiseta”, ou “Prefiro tênis a sapato”. Não estão defendendo a Igreja – de forma alguma, mas aquilo que as reveste e dá a sua aparência.

Não acredito em 90% desses movimentos surgidos nos últimos anos ou meses (nem em muitas tradições mais centenárias) alegando serem guardiões da verdadeira Igreja (eleita ou não) e sua doutrina. E tenho evidências pessoais e experiências suficientes no trânsito entre esses grupos para fazer esta afirmação.

O que Paulo indicou como sendo o verdadeiro Corpo de Cristo são seus membros, não as roupas que os vestem. O que elas encobrem é o que vale a pena. Ao apresentar-nos ao Senhor naquele dia receberemos novas vestes, as velhas roupas ficarão aqui, serão descartadas como inúteis. O Corpo, no entanto, é o que será regenerado na Sua vinda para estar para sempre com o Senhor.



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segunda-feira, 28 de março de 2011

Fariseus, saduceus, escribas e cristianismo

Este post poderia ter outros títulos, como Fariseus, saduceus e escribas do cristianismo ou, ainda, Mais do mesmo.


Após a invasão de Jerusalém sob liderança de Antíoco IV (Epífanes) em 168 a.C., judeus devotos, sob a liderança de um sacerdote chamado Matatias, revoltaram-se em 167 a.C. Matatias logo morreu, mas a liderança da revolta passou para um de seus filhos, Judas. A família de Matatias tornou-se conhecida como “Macabeus” a partir do apelido Maccabeus (o Martelo) dado a Judas.

A história do reinado macabeu (hasmoneanos) é uma história de luta e discórdia causada pela ambição pelo poder. Os objetivos políticos alienavam muito dos religiosos judeus. Os descendentes dos hasmoneanos tornaram-se os saduceus da época do Novo Testamento (e talvez dos essênios). Os sucessores dos judeus devotos que se opuseram aos hasmoneanos tornaram-se os fariseus.

No Novo Testamento, o maior e mais influente grupo era o dos fariseus. Eles surgiram logo depois dos macabeus. Por volta de 135 a.C, estavam bem estabelecidos. Os fariseus guardavam a lei rigidamente, criam na existência de anjos e espíritos e esperavam a ressurreição do corpo. No início os fariseus eram um partido legítimo que protestava contra o mundanismo da liderança religiosa vigente, os saduceus. Alguns cristãos primitivos vieram da seita farisaica (At 15.5). Aqueles dentre os fariseus que creram encontraram em Jesus o cumprimento de suas esperanças.

Os saduceus eram em número menor do que os fariseus, mas tinham maior poder político. A maioria das famílias de sumos sacerdotes dos tempos do Novo Testamento era de saduceus, que seguiam a interpretação literal da Lei ou Torá, aceitando apenas esses livros da Bíblia. Eles rejeitavam a tradição oral que os fariseus aceitavam, negavam a existência de anjos e espíritos e não acreditavam na imortalidade pessoal. Os saduceus estavam prontos para apoiar qualquer governante que pudesse preservar a influência que tinham.

Nas narrativas dos Evangelhos encontramos ainda os escribas (ou mestres da Lei, Mt 23). Jesus censurou a estes juntamente com os fariseus. Os escribas eram especialistas na Lei de Moisés, encarregados dos rolos, reproduções dos antigos livros e, como o nome já diz, eram versados, mestres da Lei diante do povo e consultados quando havia alguma divergência na aplicação da Lei.

Olhando em retrospectiva, vejo que o cristianismo também produziu os mesmos grupos. Assim como os fariseus, há um grupo de cristãos que manipula as massas e as leva a exigirem a crucificação do Senhor pelos seus falsos ensinos; um grupo que mata o Senhor diariamente, ao menos de vergonha. Saduceus também são vistos por aqui, numa pretensa elite que não crê na contemporaneidade das manifestações sobrenaturais de Deus e que aposta em alianças políticas. Não faltam, também, os escribas, os “mestres da lei” (com “l” minúsculo). Um grupo que começou bem com as Escrituras, mas progrediu até criar a sua própria norma de fé e prática, os seus próprios cânones e midrashs, a qual traz à ponta da língua, mas tal tradição tem posto um véu sobre o que foi escrito originalmente. Jesus diria a esta turma: “Leste no seu catecismo o que foi escrito, eu porém vos digo...”.

A Bíblia descreve a história da raça humana como linear e a história das religiões é descrita como cíclica. A religião cristã não é exceção e tem trazido de volta, com novas roupagens, os seus próprios fariseus, os seus saduceus e os escribas. De suas próprias trincheiras, o discurso muitas vezes se assemelha. Fala-se muito em unidade (em todos as frentes ouço isso), fala-se em alianças, fala-se consultas, em Corpo, em Reino, mas praticamente nada é feito de fato além dos muros dos seus próprios arraiais. Reino não, mas os impérios são defendidos, sejam eles de poder, financeiro e mesmo intelectual.

Graças a Deus que preserva os Cornélios, os Simeões e as Anas.

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terça-feira, 8 de junho de 2010

O Cristianismo na era de sua própria síntese


O Cristianismo, ao longo dos séculos, foi e é marcado pela pluralidade. Pluralidade litúrgica, pluralidade teológica, pluralidade na praxis, pluralidade na espiritualidade, pluralidade nos problemas em determinadas culturas, enfim. Certa abordagem teológica interpreta, por exemplo, as cartas do Apocalipse como retrato dessa realidade, ou seja, sete características num mesmo momento histórico.


No entanto, essas características todas são abarcadas por uma predominância qualquer ao longo dos séculos. Explico. Mesmo que cada igreja enfatize, por exemplo, a doutrina da divindade de Cristo, outra enfatize a necessidade da santidade e uma terceira dê ênfase a outro aspecto, naquele momento ou época, olhando à distância, pode haver a predominância de um tema comum a todas, indistintamente.

Foi assim no início, no meio e nos últimos anos do Cristianismo. No início a Igreja foi marcada pelas controvérsias, pelos trabalhos apologéticos, pelas obras dos pais apostólicos, que tentavam estruturar a doutrina cristã e estabelecer o Cristianismo em bases sólidas e comuns. Mas um olhar macro revela que o problema era a necessidade e a luta por estabelecer o Cristianismo no Império Romano e ter o reconhecimento do povo. Logo, essa tensão derivada das relações Igreja x Estado desembocou na corrupção da primeira e alguns grupos, no final deste longo e primeiro período, manifestara sua indignação dando início ao movimento monástico.

Estava em foco a espiritualidade, a pureza doutrinária, a preservação dos ideais ensinados pelo Senhor Jesus e por seus apóstolos. Era o período da tese. Mas esses movimentos monásticos também sucumbiram, colapsaram e desviaram de seus objetivos iniciais, passando a orgulhar-se intelectualmente das próprias conquistas. Vieram, então, os grupos pré-reformadores, por volta do século 10, em diante, o que desembocou nos pré-reformadores e nos próprios reformadores do século 16.

A partir daí, novo ciclo. Entraram em cena as disputas teológicas, os embates doutrinários e uma argumentação mais racional entra na pauta do dia. A espiritualidade, o cuidado pastoral, a preocupação com a diaconia são postos de lado em virtude da necessidade de estabelecer as bases da Reforma e combater o engano teológico (e da Tradição) que é o mal há séculos minando a força da Igreja e do Cristianismo. Esse foi o tempo da antítese.

Entretanto, a antítese também sucumbiu diante dos movimentos recentes (iluminismo, modernismo, p. ex.) e da realidade atual (era da informação, globalização, entre outros). Agora a Igreja e o Cristianismo precisam de respostas que envolvam a razão e a emoção. Céticos estabelecem diálogo com a espiritualidade (até mesmo nas universidades) e também nas organizações os especialistas interessam-se por assuntos dessa área. Religiosos querem provar novas experiências e olhares diversos que os leve a dimensões mais amplas. E o Cristianismo não pode calar-se, mas precisa preservar o seu núcleo, guarnecer seus princípios e negociar os parâmetros, as áreas de sua doutrina que são mais flexíveis. É o momento da síntese, é o tempo de juntar a experiência à reflexão, de apresentar o texto e a paráfrase.