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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Jesus ao pé da letra

Uma resposta aos inconformados com a Igreja


Hoje li um post feito por um amigo. Ele reclamava da situação da Igreja brasileira – muitas das reclamações eram as chamadas “mais do mesmo” – e dizia com todas as letras que não frequentaria mais a qualquer igreja, nem organizada, nem emergente, nos lares, nada. Desviou?


Segundo ele, é agora que ele será chamado essencialmente cristão. É agora que ele poderá fazer coisas como beber cerveja, dormir até mais tarde, amar sua esposa, ficar com seu filho, não ser espremido por agendas rigorosas e, principalmente, não ter que ouvir a pregações vazias e pedição de dinheiro para sustentar pastores. A igreja, segundo ele, distorce a vida cristã. Ele quer ser como Jesus, que – segundo ele – foi à sinagoga uma só vez na vida.

A situação da igreja brasileira é caótica. Convenhamos. Pesquisa feita por um conhecido que entrevistou mais de mil e setecentos pastores revela que 50,68% deles nunca leram a Bíblia toda uma só vez. Daí para a frente o que se pode esperar? A liderança pede muito dinheiro? Pede. Ela o desvia, vivendo nababescamente? Sim, muitos deles. Os cristãos, em boa medida, não sabem “do que estão sendo salvos”? É constatação; pensam que estão sendo salvos da falência no seu empreendimento, ou do divórcio, ou do filho morrer viciado em craque. No entanto, a Bíblia não trata, em primeira instância, desse tipo de salvação. Só que a maioria esmagadora dos neopentecostais não foi avisada sobre isso. Quem os avisaria? Aqueles pastores que nunca leram a Bíblia? Não, nós que lemos, relemos e insistimos que seja assim.

A Reforma Protestante ensina que os chamados gigantes, Lutero, Calvino, e outros tantos, não abandonaram a Igreja para fundar suas denominações nem a abandonaram alegando a sua falência iminente. Sabemos que na sua época “as visitas pastorais [de Lutero] a diversas igrejas revelaram uma miséria moral da qual não se fazia ideia. Os líderes eclesiásticos eram ignorantes, alguns nem sabiam recitar a oração do Senhor nem a confissão de fé. O povo era rude e refratário à instrução. Desconhecia o hábito da oração.” (1)

Calvino, nas Institutas, ensina porque a Igreja é necessária dizendo que a ação redentora e santificadora de Deus em favor do homem ocorre na Igreja, e não em outro lugar. Ele identifica a Igreja como organização de origem divina e confirma a doutrina suprema da Igreja citando duas máximas de Cipriano de Cartago: “Você não pode ter Deus como Pai, a menos que tenha a igreja como mãe” e “fora da Igreja não há salvação”. (2)

Depois de dois séculos o grande avivamento, e um nome se sobrepõe: John Wesley. Leia a sua história e ficará marcada em sua mente os milhares de quilômetros cavalgados ao lombo de seu cavalo percorrendo a Inglaterra para cuidar das suas sociedades metodistas: manutenção desse projeto de natureza divina chamado Igreja.

Outro grande nome a tratar da questão da validade da Igreja, em anos mais recentes, foi Dietrich Bonhoeffer. Bonhoeffer constrói sua cristologia e todo o seu edifício teológico a partir da sua compreensão da Igreja. A comunidade é a base para onde se desdobra a experiência cristã. Evidente que o autor não refere-se a instituição física da Igreja, mas a comunidade é, primeiramente a comunidade de fé, para depois chegar-se à comunidade político-social.

Dessa forma, esta introdução nanica que faço ao tema, esboça o que a história ensina – tanto menos que a própria Bíblia – que nada há de errado com a Igreja. O joio não é a Igreja. Pensar assim é tomar a parte pelo todo, e constitui erro perigoso de incorrer. A Igreja, sendo instituição de natureza divina, como diz Calvino, não tem em si qualquer problema; nós os temos. Ficar inconformado com desmandos e calamidades ocorridas nos nossos arraiais não é sensação das mais novas: o próprio Deus já ficou assim no tempo dos profetas do Antigo Testamento! Aqueles que lamentaram pela situação da Igreja em seu tempo não abandonaram-na, mas tentaram fazer o possível para que ela chegasse a um quadro clínico mais favorável. Reformar por dentro, é a expressão comumente usada aqui. Fato é que ninguém resolverá o problema sozinho, principalmente com manifestações individuais de protesto, já que um planta, outro rega, mas Deus é quem dá o crescimento.

E por que este artigo chama-se “Jesus ao pé da letra”? Exatamente para chamar a atenção que, para ser tal qual Jesus, todo cristão deverá viver a experiência cristã de depender integralmente da contribuição alheia, depender de ajuda financeira, acolhimento e moradia alheias, sem trabalho formal, sendo sustentado por terceiros – tal qual os pastores que hoje são acusados, na Igreja que alguns querem abandonar. Nossa interpretação de como a fé sadia pode ser interpretada e vivida nunca será das mais favoráveis. Não estamos em condições de levar Jesus ao pé da letra.

Leia também “Quem não gosta de Igreja, bom sujeito não é”.


1. Lutero, A. de Saussure. Ed. Vida, p. 108.

2. A vida de João Calvino, Alister McGrath. Cultura Cristã, p. 198.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Igreja não tem problemas, que os têm somos nós

Quero tocar no tema novamente, mesmo – repito – não tendo procuração nem sendo advogado da Igreja (tratei de um aspecto desse tema no artigo A Semântica da Igreja).


Ao importar os modelos de igreja dos norte-americanos, trouxemos à reboque os problemas culturais e as expectativas dos gringos. Pragmatismo e sua sombra capitalista, Destino Manifesto, o geocentrismo que eles alimentam. Na década de 90, o próprio Carl Sagan em seu livro póstumo O mundo assombrado pelos demônios já apontava a ignorância daquele povo sobre tudo além de suas fronteiras e de seu umbigo.

Muito bem, aceitamos uma carroceria de Ferrari tendo um chassi e motor de Fusca. O sonho e o modelo eram deles, a realidade e a fraqueza eram nossas. As teologias, os modelos de crescimento de igreja, a alegada e incompreendida “Lei da semeadura” que faz enriquecer... tudo! Esse “kit felicidade”, num país pobre, mas emergente, com parte da pretensa liderança cristã ansiosa por poder e dinheiro, não poderia gerar outro tipo de gente e de igreja que essa anomalia que temos visto. Sim, o ajuntamento de crentes nos últimos anos não se configura a Igreja, mas desfigura-se em grupos sociais que precisam encontrar outro rótulo, porque não são crentes em Jesus. João disse que os que são de Cristo devem andar e viver como Ele andou.

Ouvi um pregador dizer: “Hoje vou ensinar o segredo para tirar os tesouros do céu e desfrutar aqui na terraaaaa!”. E “a platéia” aplaudiu! Aplaudiu por quê? Porque não eram cristãos. Se fossem, teriam reconhecido prontamente que a proposta do pregador é anticristã, é antibíblica, já que Jesus ensinou exatamente o contrário: “Não ajuntem aqui... mas no céu”.

A Igreja é a obra que Jesus disse que faria. Ela, a Igreja espiritual, que reúne cristãos, salvos, piedosos, esse organismo místico, invisível, não pode ter problemas, porque ela é a solução para o cansado e sobrecarregado. Igrejas não são denominações, não são programas. Mas as denominações, os moldes humanos, os programas de gestão e expansão, o “show gospel” e tudo o mais que fazemos e implantamos, isso sim tem problemas. Nós é que criamos e mantemos e nos afundamos em problemas, não a Igreja. O problema está em nós e em nossa ambição. A Igreja está bem, sempre esteve, e é com ela que o Senhor fará a sua cerimônia de núpcias; mas os “simpáticos” à Igreja, esses sim é que têm problemas.

Não podemos confundir o organismo espiritual com a instituição humana. Pior: não é justificável sair daqui para ali, pois enquanto estivermos nesse corpo, nada mudará radicalmente. Como Lutero, devemos querer reformar a igreja (instituição humana e temporal) de dentro para fora. Com todo o joio em seu meio, o Senhor ainda está no controle e não autoriza a poda da semente indesejável enquanto Ele mesmo não fizer isso (Mt 13.28-30). O ajuntamento humano é necessário (Hb 10.25) e, segundo Paulo, suportar os fracos é evidência da fraqueza dos fortes (Ef 4.2).

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Cristianismo na era de sua própria síntese


O Cristianismo, ao longo dos séculos, foi e é marcado pela pluralidade. Pluralidade litúrgica, pluralidade teológica, pluralidade na praxis, pluralidade na espiritualidade, pluralidade nos problemas em determinadas culturas, enfim. Certa abordagem teológica interpreta, por exemplo, as cartas do Apocalipse como retrato dessa realidade, ou seja, sete características num mesmo momento histórico.


No entanto, essas características todas são abarcadas por uma predominância qualquer ao longo dos séculos. Explico. Mesmo que cada igreja enfatize, por exemplo, a doutrina da divindade de Cristo, outra enfatize a necessidade da santidade e uma terceira dê ênfase a outro aspecto, naquele momento ou época, olhando à distância, pode haver a predominância de um tema comum a todas, indistintamente.

Foi assim no início, no meio e nos últimos anos do Cristianismo. No início a Igreja foi marcada pelas controvérsias, pelos trabalhos apologéticos, pelas obras dos pais apostólicos, que tentavam estruturar a doutrina cristã e estabelecer o Cristianismo em bases sólidas e comuns. Mas um olhar macro revela que o problema era a necessidade e a luta por estabelecer o Cristianismo no Império Romano e ter o reconhecimento do povo. Logo, essa tensão derivada das relações Igreja x Estado desembocou na corrupção da primeira e alguns grupos, no final deste longo e primeiro período, manifestara sua indignação dando início ao movimento monástico.

Estava em foco a espiritualidade, a pureza doutrinária, a preservação dos ideais ensinados pelo Senhor Jesus e por seus apóstolos. Era o período da tese. Mas esses movimentos monásticos também sucumbiram, colapsaram e desviaram de seus objetivos iniciais, passando a orgulhar-se intelectualmente das próprias conquistas. Vieram, então, os grupos pré-reformadores, por volta do século 10, em diante, o que desembocou nos pré-reformadores e nos próprios reformadores do século 16.

A partir daí, novo ciclo. Entraram em cena as disputas teológicas, os embates doutrinários e uma argumentação mais racional entra na pauta do dia. A espiritualidade, o cuidado pastoral, a preocupação com a diaconia são postos de lado em virtude da necessidade de estabelecer as bases da Reforma e combater o engano teológico (e da Tradição) que é o mal há séculos minando a força da Igreja e do Cristianismo. Esse foi o tempo da antítese.

Entretanto, a antítese também sucumbiu diante dos movimentos recentes (iluminismo, modernismo, p. ex.) e da realidade atual (era da informação, globalização, entre outros). Agora a Igreja e o Cristianismo precisam de respostas que envolvam a razão e a emoção. Céticos estabelecem diálogo com a espiritualidade (até mesmo nas universidades) e também nas organizações os especialistas interessam-se por assuntos dessa área. Religiosos querem provar novas experiências e olhares diversos que os leve a dimensões mais amplas. E o Cristianismo não pode calar-se, mas precisa preservar o seu núcleo, guarnecer seus princípios e negociar os parâmetros, as áreas de sua doutrina que são mais flexíveis. É o momento da síntese, é o tempo de juntar a experiência à reflexão, de apresentar o texto e a paráfrase.

Quem não gosta da igreja, bom sujeito não é...


Agora é pra valer: o que dá Ibope e gera receita é falar mal da igreja! Igreja não tem cara, não tem personalidade jurídica, igreja não se defende. É como chutar cachorro morto. Com a proliferação de websites e blogs, muita gente dispara: “Eu não vou mais à igreja”. “A igreja sou eu, vou cultuar sozinho”. “Igreja não leva ninguém pro céu”. “Igreja é latifúndio de pastor”. “Igreja é pra gente atrasada”. E por aí vai. Marqueteiros, vendedores, blogueiros, artistas (que nunca foram “muito” crentes mesmo), diretor de faculdade, pastores, gente graúda e gente miúda, desviados também. Todo mundo resolveu bater na igreja. Hipocrisia. Para dizer o mínimo!


Eu não tenho procuração “da igreja” para defendê-la, nem ela precisa disso, mas considere o seguinte. Quem é a igreja? Fala-se muito sobre a igreja. Mas que igreja? Dê nomes. Verifique se sua bronca não é contra o modo de governo da igreja: episcopal, presbiteriano, democrático, células. O problema pode ser no modo como a sua igreja entende a eclesiologia. Aí o problema não é “da igreja”, mas da teologia de alguém que iniciou o seu grupo dentro desse molde. Mas há outros modelos de governo e isso não tem a ver com a igreja em si.

Pode ser que você não goste da panelinha que muitos chamam “ministério”. Aí o problema não é “da igreja”, mas seu, que permite a panelinha estar onde está e fazer o que faz. Oriente-se, estude, envolva-se e uma hora a “panelinha” terá que ser desfeita. Ou então admita, como Lutero, que não adianta sair da igreja, pois não há igreja perfeita. O jeito é reformá-la de dentro para fora, e aí você terá apoio de muitos outros que estão no mesmo barco.

Verifique se o que você chama de “igreja” não são alguns pregadores, tele-evangelistas, artistas, gente que faz campanhas e subtraem dinheiro “da igreja” em benefício próprio. A igreja não é essa gente, ela “contém” essa gente. Nunca leu na Bíblia (provavelmente não) que o joio está onde o trigo está? Assim, sempre teremos o joio, ele faz parte da igreja, mas o joio não é a igreja. Então não justifica falar mal da igreja.

Veja também se o problema não é você! Sim, nós é que formamos a igreja. Já imaginou isso? Há quem não mova uma palha, mas a-d-o-r-a falar mal de quem? Da igreja, coitada dela. O problema é que “a igreja” não é pra qualquer um. Gente que quer falar palavrão (agora é moda); viver como um nababo; deixar-se atrair pelas delícias do jardim do vizinho; gente frustrada que quer desabafar; gente que precisa de atenção e paparicos, não gosta de ser enquadrado pelas exigências naturais da Bíblia para quem quer ser discípulo. É simples, o problema não é a igreja; ela nada tem a ver com isso.

Quem fala mal da igreja, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou não está em pé. (Quem está em pé, cuide para que não caia, 1Co 10.12)

É preciso evangelizar a Igreja


A cena descrita a seguir foi presenciada por mim. Participava de um culto quando, durante a mensagem o pregador, com a toda a “coreografia pentecostal” que lhe era peculiar, disse: “Hoje eu vou ensinar como fazer para tirar os tesouros do céu e desfrutar aqui na terra.” Foi efusivamente aplaudido.


Existe afirmação mais antibíblica do que esta? Sendo ela antibíblica – e é –é também uma declaração anticristã. Se for anticristã, por que o pregador foi aplaudido, estando numa igreja (cristã!)? A resposta é simples: a igreja não conhece o texto bíblico, não sabe o que diz a Bíblia, é ignorante sobre aquilo que – de fato – Jesus e os apóstolos ensinaram. A igreja evangélica de hoje é ignorante, do ponto de vista do conhecimento bíblico. Como disse Antonio Vieira há 400 anos, “conhece palavras sobre Deus, mas não conhece a palavra de Deus.”

Uma das afirmações feitas por Jesus, afirmação das mais conhecidas pelos cristãos (em outros tempos, é verdade) é: “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam.” (Mt 6.19,20, NVI)

A proposta do pregador em questão apontava a contramão do ensino de Jesus. Naquela noite o pregador ensinou o contrário do que Jesus ensinou e que seus apóstolos e discípulos veem ensinando há dois mil anos!

Por que um pregador assim deve ser aplaudido? Quem o tem aplaudido ainda hoje? Onde ele tem sido aplaudido?

É possível enumerar dezenas de falsos ensinos como esse. Eles são ouvidos todos os dias nas igrejas. São sementes lançadas aos montes e vão frutificar aquilo que Jesus irá lançar no fogo para ser queimado, porque se parece genuíno, mas não é: parece trigo, mas é joio e por isso, para nada serve.

Alguém tem responsabilidade por isso? A quem deveríamos reclamar essa ignorância que assola a igreja? Se muitos pregadores não entregam mensagens de acordo com as Escrituras... se os ouvintes não sabem o que a Escritura diz e, portanto, não podem defender-se dos falsos ensinos, a quem recorrer? A quem reclamar? Não há um balcão onde alguém anote reclamações; a igreja não tem 0800 nem SAC. Mas deveria ter, porque hoje a igreja tornou-se uma instituição que negocia bens de consumo e não mais bens eternos.

A meu ver, há uma responsabilidade mútua da liderança e dos ouvintes. E é um caso cíclico: ouvintes querem mensagens que afagam o ego e prometem coisas boas com o mínimo esforço e, por sua vez, pregadores que precisam sobreviver “da fé” pregam as mensagens que esses vasos vazios querem ouvir, pois do contrário não terão vida (ou arrecadação) longa. A bem da verdade, não a terão nem mesmo pregando essas mentiras, pois o passar do tempo já tem denunciado que promessas antibíblicas não se cumprem e os mais “espertos” têm saído de fininho.*

As pessoas que vão às igrejas não sabem o que a Bíblia ensina. Recentemente, pregando em uma igreja tradicional na região do ABC paulista, liderada por um figurão do meio cristão, pedi para que levantasse a mão quem sabia o que é a doutrina da justificação. Não sei quem ficou mais envergonhado: eu ou aqueles míseros 10% que levantaram a mão. A doutrina da justificação ocupa espaço central no ensino de Paulo e é, igualmente, o eixo em torno do qual a Reforma Protestante do Século 16 moveu-se. Como não conhecer esse ensino? Como dizer-se membro da Igreja sem saber dos seus fundamentos, das suas bases, das suas diretrizes? A pessoa está na igreja pensando ter sido salva do quê? Do atropelamento? Da falência? Da separação conjugal? O que ela imagina ser a igreja? Uma Amway para crentes? Uma Omni cristã? um Rotary gospel? onde as pessoas vão para se darem bem na vida ou para sentirem-se socialmente inseridas e úteis?

Finalmente, devo dizer que nem tudo está perdido: de Deus não se zomba. Vejo em diversos lugares, movimentos e cristãos individualmente gritando contra o desvio do que a Escritura ensina como adequado ao cristão, gritando e apontando a escassez de profundidade bíblica e espiritual, contra a amoralidade no trato da igreja e do ministério e tantas outras questões que encheriam esse blog. Também há, é verdade, ouvintes ávidos pela pregação que exale o aroma de Cristo, que faça promessas com fundamento na obra da cruz e na ressurreição do Salvador, pregação que lave as vestes e cure as fissuras que a alma pós-moderna tem apresentado: solidão, individualismo, isolamento digital, relativismo moral, banalização da vida humana, descaso com o altar. Essa é também uma longa lista.

Somente a pregação do Evangelho pode promover qualquer alteração neste cenário, e a pregação deve começar na igreja. A igreja precisa de salvação. É preciso evangelizar a Igreja.

*Para constatar essa situação, sugiro a leitura de Decepcionados com a Graça, de Paulo Romeiro (Ed. Mundo Cristão). É atual e implacável.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A semântica da Igreja


Nos últimos meses, alguns de nós ouvimos sobre cristãos reunindo-se longe dos templos, no aparente resgate de um dos aspectos do cristianismo primitivo. Ouvimos, também, e lemos livros de autores apontando o dedo contra a Igreja e criticando-a. Algumas dessas manifestações são bem compostas, outras, medonhas, sem qualquer valor.


Mas, como dizia o velho sábio, nada novo. Nem necessariamente cristão. Os essênios, antes de Cristo, reuniam-se longe do centro religioso oficial. Até mesmo Elias, o tisbita, ensaiava algo assim oitocentos anos antes de Cristo. Depois de Cristo, como reação a estatização da Igreja, o monasticismo do terceiro século com Antão, foi o pontapé inicial do movimento mais expressivo no primeiro milênio da Igreja, transmutando-se ao longo dos séculos. Do mesmo modo, os grupos pré-reformistas de reação contra o papado, como o reavivamento monástico de Cluny, no século 10, as ordens monásticas e mendicantes posteriores, como os cistercienses, os albigenses, os franciscamos, os valdenses. A própria Reforma Protestante! Todos movimentos reagentes contra algum aspecto da Igreja considerado inapropriado. Reações contra a “Instituição” Igreja, nunca, jamais, contra o “organismo” Igreja, o Corpo.

Hoje vemos a igreja orgânica, a igreja emergente, o movimento de volta à Bíblia (um pouco mais antigo), o movimento de igrejas nos lares. Todos movimentos promovidos por alguns cristãos que, cansados do abuso do poder, do enfraquecimento ou ausência total do ensino, do enriquecimento às expensas do evangelho e às custas da ingenuidade, da falta de oportunidade para manifestarem-se, criaram coragem para romper com o modelo vigente. E é isto o que os movimento são: reação contra a atual situação.

Quem pensa que o problema está na Igreja, nunca entendeu o que a Igreja é! A Igreja não tem problemas, vai bem, obrigado. Quem tem problema é a instituição feudalizada por alguns papas evangélicos. O problema está na “república da igreja” com seus coronéis, com seus políticos, com seus lobistas. A instituição Igreja, desde Constantino, tem problemas, porque sua base de gestão é humana e, ainda que com boas intenções, é pecaminosa, imperfeita e falível. Isso também não é privilégio cristão, pois desde a eleição de Saul para rei em Israel é que banda vem tocando desafinada.

Já a Igreja de Cristo, essa segue com vento à favor. A Igreja não é, nem jamais será, atingida por textos de blogueiros, por livros de autores agoniados, por declarações de cristãos desconfortáveis e deslocados. A Igreja, o organismo, o Corpo cuja cabeça é Cristo, está acima de tudo e de todos. Ela continua socorrendo os doentes, amparando os cansados, aliviando os oprimidos, porque ela é o templo que Jesus disse ergueria em três dias tendo a si mesmo como fundamento. Esta é a verdadeira Igreja.

Muitos desses movimentos são legítimos, até mesmo necessários, fundamentais eu diria, para que a Instituição, os “papas” e mesmo a membresia revejam seus dogmas desalinhados das Escrituras, suas liturgias engessadas e excessivamente formais, sua falta de caminhada pelo Caminho. Mas quem confunde instituição com organismo também confunde manequim com modelo, Lei com Graça... e aí a questão é semântica, de analfabetismo espiritual, teológico e bíblico.