A pequeníssima epístola de Judas nunca foi tão atual e profética (com o perdão dessa expressão desgastada). O versículo 3 encoraja a "batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos" (RC). A expressão "fé que uma vez foi dada aos santos" faz pensar nas novidades teológicas no ambiente cristão (ainda que com cem, duzentos anos ou mais).
A fé dada há dois mil anos já era suficiente para realizar o seu papel e levar-nos a cumprir a carreira proposta. Pensar que essa fé dada uma vez pudesse ou devesse atingir um estágio de evolução ou alcançar posteriormente alguma revelação, por mais privilegiada que fosse, é uma certeza estranha ao Evangelho. A fé dada uma vez aos santos era, por si, pronta e acabada, usando um termo pobre para explicar tamanha riqueza.
Ninguém precisa de uma "nova fé", porque Cristo não está promovendo ou delegando uma fé nova ou diferente da que entregou aos santos há dois mil anos. Alguém está cansado do Evangelho como ele é, é caso admissível. Há irmãos que vivem de novidade em novidade e precisam de estímulo extra para "fazer funcionar" algum mecanismo ou fazer girar alguma roda, mesmo que da fortuna. Mas não há novidade: a fé foi dada uma vez aos santos. Ponto final.
É inconcebível uma nova revelação que já não tenha ocorrido entre os apóstolos, como é impensável alguma nova associação da fé com um ramo da ciência no intuito de fazer a fé ganhar novo vigor, assumir significado renovado e fazer sentido no contexto pós-moderno. Nada disso existe. É preciso muita fé para crer que o homem de hoje - justo hoje! - está redescobrindo um novo jeito de construir sua espiritualidade ou estabelecer diálogo com "outros saberes". Nada disso é necessário. A fé é um caso à parte, independente. Ou você crê ou não crê. Mas remodelar a fé ou o seu significado etimológico para que ela desça ao nosso nível é perversão e por isso, no mesmo versículo, Judas diz que queria escrever sobre a "salvação comum", mas mudou o texto para "encorajar-nos a batalhar pela fé".
Preservar a fé é crucial para manter a salvação sobre a qual ele queria escrever. E ele usa todo o texto da epístola demonstrando quais são as ameaças à fé: falsos irmãos que se desviaram mas permanecem nas reuniões (v. 4); os incrédulos que estão fora da Igreja (v. 5); os pervertidos (v. 10); os egoístas individualistas que são insubmissos (v. 12); os murmuradores (v.16); os escarnecedores (v. 18); os maliciosos (v. 19).
As novidades que têm sido introduzidas na Igreja nos últimos tempós faz da pequena carta de um dos irmãos de sangue de Jesus um verdadeiro "jornal do dia". Leia-a, é curta, apenas 25 versículos da mais clara e saudável revelação. Eu creio na Bíblia como Palavra de Deus e sei que ela está ensinando a verdade para todo aquele que crê que a fé foi dada um vez aos santos... e não precisou de amuleto para andar nem de plástica para parecer nova.
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Este espaço foi criado para discutir diferentes assuntos a partir da cosmovisão cristã. O que pretendo é o debate de ideias e o aprofundamento nas questões que interessam a Igreja de modo geral.
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sexta-feira, 13 de abril de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
Eu creio assim
A Igreja na Europa e nos Estados Unidos vive uma pálida sombra do vigor que um dia foi a sua maior marca. Isso não significa que ela tivesse vivido um período incomparável de perfeição. Não. Lá nasceram grandes avivamentos e a Reforma. De lá partiram missionários, lá foi elaborada a teologia que nos alcançou, a boa e a, digamos, controversa.
Vou deixar os aspectos técnicos e históricos para outra hora, mas em linhas gerais tivemos a Alemanha como epicentro do pensamento no Século 20, quando a Teologia viveu seu maior apogeu no uso que fez das ciências sociais, e o fez a fim de mostrar-se relevante durante o modernismo. Nesta época as ciências ditavam o tom e diziam no que crer e no que não crer ― ao menos aos demasiadamente preocupados com a racionalidade da vida e da fé.
Ao buscar apoio nas ciências, a Teologia desenvolveu uma dependência tamanha que a afetou radicalmente. Destaque deve ser dado à sociologia que, por lidar com o fenômeno e o discurso religioso, teve as portas abertas e introduziu conceitos que se estabeleceram no ambiente teológico.
O que resulta disso, resumindo, são os modernos teólogos-sociólogos. Converse com um e você logo notará um papo estranho. Ele explica tudo à partir dos pressupostos humanos. Cada aspecto da religião tem um porquê natural, cultural, cujo perfil é tratado perfeitamente por algum argumento sociológico.
Claro que todas as religiões podem ser analisadas sociologicamente, não nego isso. Não admito, mas entendo a aplicação que essa teologia faz da evolução, como também o faz a economia, a biologia e outras. Mas preocupa-me o aspecto religioso, transcendente da questão.
A religião não diminui a ninguém. O Cristianismo em particular exibe os louros de grandes avanços na sociedade Ocidental e basta comparar historicamente os países que permitiram a expansão do Evangelho com os que o proibiram. Por isso não vejo motivo para o Cristianismo como tal (e os cristãos) abrir mão dos elementos sobrenaturais e místicos do seu discurso para tornar-se relevante, interessante ou mesmo palpável ao homem de hoje.
Ao fazer essa faxina incorrem-se dois erros, ao menos. Primeiro, destitui-se a fé do seu próprio objeto. A fé procura o invisível, o improvável, o mistério. O contrário é razão e, portanto, pertence às ciências. E segundo, a fé cristã quando saqueada dos elementos que constituem a sua cosmovisão sobrenatural deixa de ser cristianismo e desce ao nível de qualquer código ético, até mesmo – guardadas as devidas proporções – ateísta.
Aqueles que admitem a Deus de modo diferente dos cristãos também vivem bem com o próximo, preservam a natureza, lutam pela igualdade de direitos, trabalham, pagam impostos. Essa é a norma ética vigente e pessoas de bem procuram esses valores. Muitas até lutam por eles. Jesus, no entanto, não encarnou nem morreu nem ressuscitou para vivermos eticamente. Esse não foi o anúncio feito pelos profetas. Jesus veio para dar-nos vida em abundância, nesta vida e na próxima.
Por isso resisto em eliminar o nascimento virginal, a ressurreição e ascensão do Cristo glorificado e não permuto a esperança no arrebatamento por melhor que seja a teoria ou modelo acadêmico proposto. Espero, como uma criança, a volta de Jesus, que levará a mim e a todos quantos esperam ansiosamente por sua vinda.
Ele nos levará a um céu longe daqui. Trabalho, pago impostos, dou emprego, respeito às leis, preservo a natureza. Isso vai contra o que dizem, que quem espera morar no céu tem deixado as responsabilidades de lado em nome do messianismo que solucionará tudo por aqui. Esse discurso era válido há décadas atrás.
A esperança dos que creem e esperam a Jesus do modo como eu é uma esperança responsável, inclusive com o texto bíblico, e nossos argumentos não são precedidos por nomes como Weber, Berger e outras lendas da sociologia. O que falamos é acompanhado por um firme e convicto “assim diz o Senhor”.
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Vou deixar os aspectos técnicos e históricos para outra hora, mas em linhas gerais tivemos a Alemanha como epicentro do pensamento no Século 20, quando a Teologia viveu seu maior apogeu no uso que fez das ciências sociais, e o fez a fim de mostrar-se relevante durante o modernismo. Nesta época as ciências ditavam o tom e diziam no que crer e no que não crer ― ao menos aos demasiadamente preocupados com a racionalidade da vida e da fé.
Ao buscar apoio nas ciências, a Teologia desenvolveu uma dependência tamanha que a afetou radicalmente. Destaque deve ser dado à sociologia que, por lidar com o fenômeno e o discurso religioso, teve as portas abertas e introduziu conceitos que se estabeleceram no ambiente teológico.
O que resulta disso, resumindo, são os modernos teólogos-sociólogos. Converse com um e você logo notará um papo estranho. Ele explica tudo à partir dos pressupostos humanos. Cada aspecto da religião tem um porquê natural, cultural, cujo perfil é tratado perfeitamente por algum argumento sociológico.
Claro que todas as religiões podem ser analisadas sociologicamente, não nego isso. Não admito, mas entendo a aplicação que essa teologia faz da evolução, como também o faz a economia, a biologia e outras. Mas preocupa-me o aspecto religioso, transcendente da questão.
A religião não diminui a ninguém. O Cristianismo em particular exibe os louros de grandes avanços na sociedade Ocidental e basta comparar historicamente os países que permitiram a expansão do Evangelho com os que o proibiram. Por isso não vejo motivo para o Cristianismo como tal (e os cristãos) abrir mão dos elementos sobrenaturais e místicos do seu discurso para tornar-se relevante, interessante ou mesmo palpável ao homem de hoje.
Ao fazer essa faxina incorrem-se dois erros, ao menos. Primeiro, destitui-se a fé do seu próprio objeto. A fé procura o invisível, o improvável, o mistério. O contrário é razão e, portanto, pertence às ciências. E segundo, a fé cristã quando saqueada dos elementos que constituem a sua cosmovisão sobrenatural deixa de ser cristianismo e desce ao nível de qualquer código ético, até mesmo – guardadas as devidas proporções – ateísta.
Aqueles que admitem a Deus de modo diferente dos cristãos também vivem bem com o próximo, preservam a natureza, lutam pela igualdade de direitos, trabalham, pagam impostos. Essa é a norma ética vigente e pessoas de bem procuram esses valores. Muitas até lutam por eles. Jesus, no entanto, não encarnou nem morreu nem ressuscitou para vivermos eticamente. Esse não foi o anúncio feito pelos profetas. Jesus veio para dar-nos vida em abundância, nesta vida e na próxima.
Por isso resisto em eliminar o nascimento virginal, a ressurreição e ascensão do Cristo glorificado e não permuto a esperança no arrebatamento por melhor que seja a teoria ou modelo acadêmico proposto. Espero, como uma criança, a volta de Jesus, que levará a mim e a todos quantos esperam ansiosamente por sua vinda.
Ele nos levará a um céu longe daqui. Trabalho, pago impostos, dou emprego, respeito às leis, preservo a natureza. Isso vai contra o que dizem, que quem espera morar no céu tem deixado as responsabilidades de lado em nome do messianismo que solucionará tudo por aqui. Esse discurso era válido há décadas atrás.
A esperança dos que creem e esperam a Jesus do modo como eu é uma esperança responsável, inclusive com o texto bíblico, e nossos argumentos não são precedidos por nomes como Weber, Berger e outras lendas da sociologia. O que falamos é acompanhado por um firme e convicto “assim diz o Senhor”.
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sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Mistura que fica melhor
Vez ou outra me deparo com alguém recriminando a leitura deste ou daquele autor. “Se lê esse, não pode ler aquele”. Como sou editor de livros, também ouço “se publica esse, não pode publicar aquele”. Que conversa é essa?
Há vários motivos pelos quais não admito essa dicotomia, essa separação. E se você é líder, de um pequeno grupo que seja, deve estar preparado para interagir com as mais diversas entranhas da natureza humana.
Primeiro. Ler Calvino, Caio Fábio, a Bíblia, o Rebe, Huberto Roden e outros é imperativo. Não ler (ou não publicar) é alienação, definhamento intelectual e espiritual (isso sem dizer cultural!). Claro que há leituras que não acrescentam coisa alguma e essas nem tomo conhecimento mais (e também não vou mencioná-las). Mas se não posso interagir com cosmovisões diferentes da minha, sobre cada assunto da vida e do mundo, há muito mais a ser feito então, como não ligar a tevê, não ler notícias, não acessar internet etc. Neste caso a intolerância começa (ou definitivamente está) em nós. Que fique claro, não vou na direção do ecumenismo, ao menos neste post.
Segundo. O caminho pavimentado para o extremismo (seja ele o fundamentalismo ou mesmo o liberalismo) é “fechar questão” com determinadas escolas de pensamento. Há grupos que gostam muito de rótulos. Não ler (ou não publicar) de tudo um pouco faz de mim um radical extremista à curto prazo. Por que torcidas organizadas saem para o quebra-quebra em áreas públicas? Por que fanáticos religiosos explodem lugares públicos? Porque não sabem e não podem conviver pacifica e hamoniosamente com o diferente. A solução é destruí-los em vez de dialogar e buscar harmonia, mesmo que essa harmonia não signifique aderir ao pensamento do outro. Você quer se tornar um extremista? Então leia só o que a sua banda escreve, ouça só o que a sua turma fala.
Terceiro. É saudável o exercício do aprendizado e desejável a busca do discernimento, que da perpsectiva natural vem do conhecimento. Quando tenho contato com formas diferentes de pensamento, com cosmovisões distintas (e até divergentes), posso exercer o juízo e a avaliação daquilo que eu mesmo creio e provar se a visão do outro não é mais coerente e sólida que a minha. Isso promove o amadurecimento, solidifica posições estáveis e denuncia falhas em concepcções dúbias e contraditórias. Portanto, quem não se expõe e não permite que seu sistema de valores e crenças seja confrontado com uma leitura discordante, por exemplo, esteja certo de que não está seguro naquilo que crê e nas posições que adota. Precisa investir mais em conhecimento e diálogo.
A solidez de uma forma de pensar não pode ser ocultada a fim de ser protegida; é preciso permitir o escoamento daquilo que foi aprendido e dar chance a que outros aprendam conosco, seja pelo que sabemos, seja pelo que somos ou pelo simples modelo. Há muitas pessoas que ensinam sem abrir a boca e cada um de nós também pode aprender dessa forma.
O título deste post era “Toda verdade vem de Deus?”. Mas como achei muito ortodoxo, muito “certinho”, resolvi começar a quebrar paradigmas por aqui mesmo.
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Há vários motivos pelos quais não admito essa dicotomia, essa separação. E se você é líder, de um pequeno grupo que seja, deve estar preparado para interagir com as mais diversas entranhas da natureza humana.
Primeiro. Ler Calvino, Caio Fábio, a Bíblia, o Rebe, Huberto Roden e outros é imperativo. Não ler (ou não publicar) é alienação, definhamento intelectual e espiritual (isso sem dizer cultural!). Claro que há leituras que não acrescentam coisa alguma e essas nem tomo conhecimento mais (e também não vou mencioná-las). Mas se não posso interagir com cosmovisões diferentes da minha, sobre cada assunto da vida e do mundo, há muito mais a ser feito então, como não ligar a tevê, não ler notícias, não acessar internet etc. Neste caso a intolerância começa (ou definitivamente está) em nós. Que fique claro, não vou na direção do ecumenismo, ao menos neste post.
Segundo. O caminho pavimentado para o extremismo (seja ele o fundamentalismo ou mesmo o liberalismo) é “fechar questão” com determinadas escolas de pensamento. Há grupos que gostam muito de rótulos. Não ler (ou não publicar) de tudo um pouco faz de mim um radical extremista à curto prazo. Por que torcidas organizadas saem para o quebra-quebra em áreas públicas? Por que fanáticos religiosos explodem lugares públicos? Porque não sabem e não podem conviver pacifica e hamoniosamente com o diferente. A solução é destruí-los em vez de dialogar e buscar harmonia, mesmo que essa harmonia não signifique aderir ao pensamento do outro. Você quer se tornar um extremista? Então leia só o que a sua banda escreve, ouça só o que a sua turma fala.
Terceiro. É saudável o exercício do aprendizado e desejável a busca do discernimento, que da perpsectiva natural vem do conhecimento. Quando tenho contato com formas diferentes de pensamento, com cosmovisões distintas (e até divergentes), posso exercer o juízo e a avaliação daquilo que eu mesmo creio e provar se a visão do outro não é mais coerente e sólida que a minha. Isso promove o amadurecimento, solidifica posições estáveis e denuncia falhas em concepcções dúbias e contraditórias. Portanto, quem não se expõe e não permite que seu sistema de valores e crenças seja confrontado com uma leitura discordante, por exemplo, esteja certo de que não está seguro naquilo que crê e nas posições que adota. Precisa investir mais em conhecimento e diálogo.
A solidez de uma forma de pensar não pode ser ocultada a fim de ser protegida; é preciso permitir o escoamento daquilo que foi aprendido e dar chance a que outros aprendam conosco, seja pelo que sabemos, seja pelo que somos ou pelo simples modelo. Há muitas pessoas que ensinam sem abrir a boca e cada um de nós também pode aprender dessa forma.
O título deste post era “Toda verdade vem de Deus?”. Mas como achei muito ortodoxo, muito “certinho”, resolvi começar a quebrar paradigmas por aqui mesmo.
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segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A intolerância dos "tolerantes"
Um dos aspectos mais evidentes do discurso teológico liberal recente na América Latina é o clamor pela tolerância. Aliás, o atual discurso da Teologia da Libertação, que inicialmente não deu muitas das respostas que pretende dar hoje e, por influência da posmodernidade, fala muito da tolerância como também da inclusão.
Pois bem, o "judas" da vez é o dito fundamentalismo. Mas fundamentalistas somos todos, já disse alguém. Todo discurso está "fundamentado" em uma ideologia, em uma teologia, em uma sociologia, enfim, todo discurso sustenta-se num fundamento.
O fundamentalismo teológico atacado pelos liberais tem endereço, tem voz e tudo o mais. São instituições, professores e pregadores que herdaram e por isso perpetuam um modo de pensar sistemático e um método de fazer teologia dito hermético e importado. Sim, há muita verdade nisso. Com o crescimento e avanço nas pesquisas lingüísticas, sociológicas, arqueológicas e antropológicas, a teologia sistemática e suas adjacências torna-se mera alternativa, não a única, e por ser alternativa deve ser deixada em seu lugar cumprindo o seu propósito.
Mas o aparato liberal, que proclama a tolerância e a inclusão não cogita dialogar nem admitir em seu meio qualquer herança do passado recente, e nisso se denuncia, pois só o imaginar que o outro está errado já indica intolerância, exatamente a intolerância que os ouvimos reclamar dos... fundamentalistas!
Percebo, então, o quão pernicioso tem sido, não o discurso (talvez), mas o resultado do discurso no coração daqueles que o acolhem. Posso crer que os propaladores desse discurso saibam o que estão afirmando, mas e quanto àqueles que estão recebendo essa fala, essa glossa? Se de fato são pérolas o que os liberais estão dizendo, receio que podem estar sendo jogadas a porcos.
Lembro de quando convalidei meu curso de teologia, ouvi e vi alunos ávidos por chegar a seus humildes pastores locais e constrangê-los com as abordagens da teologia liberal alemã, da crítica da forma e do método histórico-crítico. A troco de quê? E mais recentemente, numa palestra, vi e ouvi um assumido fundamentalista ser zombado e vaiado ao usar seu tempo de direito para questionar o palestrante ao final de sua preleção.
Não são "eles" os tolerantes? Assim, o liberalismo motra sua impotência em promover o respeito ao próximo contido em seu discurso. Que mais ele deve deixar de promover e que eu não tenha visto ou ouvido?
Verdade seja dita, ao menos uma verdade incompleta. À semelhança da acusação contra os ditos fundamentalistas, de que fazem teologia com o coração endurecido e árido, parte dos liberais - senão todos, faz teologia para mentes sedimentadas, que têm dificuldade em permitir o que entra no espírito descer ao coração, descer à alma, a fim de que dê fruto. São igualmente ou mais intolerantes do que aqueles aos quais condenam como sendo os verdadeiros intolerantes.
Qual a diferença, então, entre acusados e acusadores? Penso que a diferença está nos ouvintes, nos "adeptos" de cada escola. Os ouvintes ditos fundamentalistas entendem o que ouvem; os ouvintes dos liberais não sabem do que seus interlocutores estão falando, porque nunca foram afetados nem pelo pernicioso de um discurso hermético que trouxe os fundamentos do cristianismo até nós, nem pela vanguarda de um discurso advindo de um estudo sério, honesto, imparcial e bíblico; estou considerando uma terceira via, a do diálogo.
A bem da verdade, e verdade como a encontramos no Evangelho, os "liberais samaritanos", fazendo frente ao fundamentalismo judaico, perguntaram a Jesus onde era o locus da adoração: "Aqui ou lá devemos cultuar?", ao que Jesus, sempre muito equilibrado, coerente e dialogal saiu-se com um "nem aqui, nem lá, pois o Pai procura verdadeiros adoradores". A resposta não sugeriu um "ficar em cima do muro", mas refletiu o equilíbrio que todos devemos perseguir, e o aprofundamento em questões relevantes e fundamentais do nosso tempo e contexto, que todos devemos aprofundar.
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Pois bem, o "judas" da vez é o dito fundamentalismo. Mas fundamentalistas somos todos, já disse alguém. Todo discurso está "fundamentado" em uma ideologia, em uma teologia, em uma sociologia, enfim, todo discurso sustenta-se num fundamento.
O fundamentalismo teológico atacado pelos liberais tem endereço, tem voz e tudo o mais. São instituições, professores e pregadores que herdaram e por isso perpetuam um modo de pensar sistemático e um método de fazer teologia dito hermético e importado. Sim, há muita verdade nisso. Com o crescimento e avanço nas pesquisas lingüísticas, sociológicas, arqueológicas e antropológicas, a teologia sistemática e suas adjacências torna-se mera alternativa, não a única, e por ser alternativa deve ser deixada em seu lugar cumprindo o seu propósito.
Mas o aparato liberal, que proclama a tolerância e a inclusão não cogita dialogar nem admitir em seu meio qualquer herança do passado recente, e nisso se denuncia, pois só o imaginar que o outro está errado já indica intolerância, exatamente a intolerância que os ouvimos reclamar dos... fundamentalistas!
Percebo, então, o quão pernicioso tem sido, não o discurso (talvez), mas o resultado do discurso no coração daqueles que o acolhem. Posso crer que os propaladores desse discurso saibam o que estão afirmando, mas e quanto àqueles que estão recebendo essa fala, essa glossa? Se de fato são pérolas o que os liberais estão dizendo, receio que podem estar sendo jogadas a porcos.
Lembro de quando convalidei meu curso de teologia, ouvi e vi alunos ávidos por chegar a seus humildes pastores locais e constrangê-los com as abordagens da teologia liberal alemã, da crítica da forma e do método histórico-crítico. A troco de quê? E mais recentemente, numa palestra, vi e ouvi um assumido fundamentalista ser zombado e vaiado ao usar seu tempo de direito para questionar o palestrante ao final de sua preleção.
Não são "eles" os tolerantes? Assim, o liberalismo motra sua impotência em promover o respeito ao próximo contido em seu discurso. Que mais ele deve deixar de promover e que eu não tenha visto ou ouvido?
Verdade seja dita, ao menos uma verdade incompleta. À semelhança da acusação contra os ditos fundamentalistas, de que fazem teologia com o coração endurecido e árido, parte dos liberais - senão todos, faz teologia para mentes sedimentadas, que têm dificuldade em permitir o que entra no espírito descer ao coração, descer à alma, a fim de que dê fruto. São igualmente ou mais intolerantes do que aqueles aos quais condenam como sendo os verdadeiros intolerantes.
Qual a diferença, então, entre acusados e acusadores? Penso que a diferença está nos ouvintes, nos "adeptos" de cada escola. Os ouvintes ditos fundamentalistas entendem o que ouvem; os ouvintes dos liberais não sabem do que seus interlocutores estão falando, porque nunca foram afetados nem pelo pernicioso de um discurso hermético que trouxe os fundamentos do cristianismo até nós, nem pela vanguarda de um discurso advindo de um estudo sério, honesto, imparcial e bíblico; estou considerando uma terceira via, a do diálogo.
A bem da verdade, e verdade como a encontramos no Evangelho, os "liberais samaritanos", fazendo frente ao fundamentalismo judaico, perguntaram a Jesus onde era o locus da adoração: "Aqui ou lá devemos cultuar?", ao que Jesus, sempre muito equilibrado, coerente e dialogal saiu-se com um "nem aqui, nem lá, pois o Pai procura verdadeiros adoradores". A resposta não sugeriu um "ficar em cima do muro", mas refletiu o equilíbrio que todos devemos perseguir, e o aprofundamento em questões relevantes e fundamentais do nosso tempo e contexto, que todos devemos aprofundar.
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