sábado, 29 de dezembro de 2012

AUTORIDADE É PARA OS FRACOS - 2

O último texto sobre "autoridade" não me satisfez. Escrevi pouco sobre o que queria, de fato, enfatizar. Por isso a necessidade de avançar, insistir no tema.
Vejo a rarefação do cristianismo nessa sanha por autoridade como há na Igreja. Algumas delas, é bem verdade. Vejo muito pouco a Jesus e sobram perfis de líderes corporativos nas palestras; nem dá para chamar de pregação ou sermão a um discurso que destoa do que foi ensinado pelo Mestre da Galileia.
Jesus disse para termos autoridade sobre demônios e pecados. Os mestres modernos e pós-modermos ignoram isso, mas falam em autoridade sobre pessoas, equipes e líderes. Lembram mais a gerentes de venda de Consórcio Remaza querendo motivar equipes do que homens santos apontando o caminho para uma vida de desapego. Cansam.
De repente um batalhão de crentes avança orientado pelo desejo de liderar. Qierem liderar o mundo enquanto não resolvem a vida de um cônjuge e um parzinho de filhos. Não se fala outra coisa. Gostaria de voltar a ouvir sobre o fruto do espírito ("amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança", Gálatas 5.22) e como desenvolvê-los. Mas agora não dá, porque parte da Igreja está pautada pela agenda de valores estranhos ao Evangelho. O resultado são palestras ensinando religiosos a serem bons mundanos. "Bons" é por minha conta: religiosos orientados por valores mundanos não são maus religiosos nem bons mundanos. São fracos.
Quem são os fortes, então? Fortes não são os que se deixam levar pela inércia popular. Não se faz força para chegar ao erro e ao pecado: basta deixar-se levar. Pare de resistir e logo está lambuzado da sujeira: ela é o padrão do mundo.
É preciso esforçar-se - isso sim - fazer força para produzir valores legítimos, equalizados aos valores que encontramos na vida de homens e mulheres de fé. E é bom lembrar que fé em nada se parece com auto-sugestão nem com confissão positiva nem com autoajuda.
É preciso nos esforçarmo por virtudes e valores que privilegiem a vida pessoal modificada pelas boas Novas e pelos direitos do vizinho. É muito estranha essa preleção que ensina a conquistar o mundo lá fora e o nivelamento dos bons (seleção natural aplicada à sociedade), mesmo que para isso a família seja desintegrada e os direitos do meu semelhante sejam desconstruídos porque alguém se imagina "filho do rei".
Nada mais pobre do que essa prosperidade secular e poucas coisas são tão anticristãs como algumas mensagens ouvidas em certas igrejas.

AUTORIDADE É PARA OS FRACOS

Poucos temas despertam tanta atenção de evangélicos como a autoridade. Livros são escritos, congressos são realizados, DVDs são distribuídos, tudo com a finalidade de ensinar uma parcela de cristãos interessados a reconhecer, desenvolver e exercer sua autoridade nos mundos espiritual e físico.
Se você navegar pela TimeLine do Twitter de alguns pastores ou palestrantes, verá com que facilidade elaboram frases de efeito sobre autoridade. Vá a uma boa livraria evangélica e em cinco minutos você verá alguém que não consegue cuidar da própria vida, mas está inebriado pelo canto da sereia desse modismo, à procura de material sobre como se tornar um líder em umas poucas lições (lições dadas, muitas vezes, por gente que nada sabe sobre o tema; é bom que se diga).
Como conciliar esta tendência com a orientação dada por Jesus em Mateus 20? Vejamos o texto:

"Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal".

Tenho grande dificuldade em enfatizar certas passagens da Bíblia em detrimento de outras; isso é desonestidade, em primeiro lugar. Está claro que a procura e o desejo de possuir autoridade espiritual é um desvio flagrante e equivocado do espírito do Evangelho, do espírito cristão. O desejo de ter autoridade, como a vemos estimulado na Igreja, é uma tentativa de igualar-se ao sistema vigente, a cultura corrompida e ao padrão de comportamentos humanos, contra os quais cristãos cuidadosos deveriam exercer sua influência, caso tivessem sido influenciados por Jesus e por suas palavras. Isso não ocorreu. Esses cristãos não conhecem as palavras de Jesus nem gastam tempo com ele a fim de serem influenciados.
Há umas décadas, parte dos cristãos entenderam que era preciso aproximar-se das pessoas de fora da Igreja para poder apresentar-lhes o Evangelho. Mas entenderam que também era preciso mostrar que a Igreja tinha algum atrativo: músicas com os mesmos ritmos, reuniões com a mesma dinâmica e... comportamento e linguagem semelhantes. O sistema e a cultura permaneceram corrompidos como sempre foram, mas a Igreja, ao baixar a guarda para legitimar e expandir seu discurso, permitiu que a influência de fora entrasse pela porta da frente, e os cristãos estenderam palmas e cantaram: "Hosana! Somos atraentes e parecidos!".
Não parou aí. Aqueles que foram atraídos para dentro a Igreja, como não viram diferença entre lá e cá, demonstaram pouca disposição em manifestar sinais mínimos de mudança comportamental: não houve conversão, mas convencimento. Por seu lado, alguns cristãos que "abriram suas mentes" para a aproximação, passado algum tempo deixaram de buscar almas e contentaram-se repartir os despojos, isto é, aquilo que trouxeram de fora: ambição, egoísmo, individualismo, sede de poder, empenho por autoridade, necessidade de auto-afirmação e uma gama de defeitos e vícios os quais não precisávamos em hipótese alguma.
As virtudes que percebo como essenciais e que marcaram toda a história da Igreja, as mesmas que grandes religiões perseguem, foram abandonadas por esta parcela da Igreja; hoje fazem parte de um museu da história dos fracos. Humildade, serviço, mansidão, submissão, amor, longanimidade, paciência, prudência. Quem quer isso? Quem quer ser conhecido por essas qualidades?
Jesus não enganou os cristãos durante toda a trajetória da Igreja nos últimos dois mil anos. O Evangelho não foi reeditado; ele é o mesmo desde o primeiro século. Desse modo, todo aquele que procura ler e entender a Bíblia como um todo orgânico e unificado, que não deturpa o sentido original das Escrituras e tem se aproximado de Jesus com reverência, colocando-se no lugar do discípulo diante do Mestre perceberá facilmente que a autoridade apregoada em nossos dias é para os fracos. Cristãos que cuidam de sua espiritualidade não são encantados pela sedução de viver conforme o modelo caído e em estado de putrefação, modelo perverso e enganador da cultura vigente. Há cristãos boquiabertos diante da possibilidade de serem poderosos, reconhecidos, autoridades nacionais (ainda que, repito, não entendam bem o que é isso).
Não quero essa autoridade ilegítima, condenada e denunciada por Jesus, contrária ao Evangelho e essencialmente anticristã. Procuro e busco o modelo deixado pelo Senhor e insisto em fazer dele o meu modo de vida. Esforço-me por ser servo; autoridade é para os fracos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Onde está Deus na violência de São Paulo?

Moro em São Paulo há mais de quarenta anos. A recente onda de violência na cidade de São Paulo, na Grande São Paulo e nas demais grandes cidades do país não é recente. É bom que fique claro, desde o início, que todos os dias, há décadas, morrem pessoas na cidade. Houve tempos nos quais foram registrados picos de violência. Há pouco tempo a cidade vizinha Diadema ficou conhecida como uma das cidades mais violentas do mundo. Após pressão (internacional, inclusive), o poder público interveio e hoje o quadro naquela cidade é bastante diferente.
Fora o registro histórico, há outro dado lamentável: a pressão e o aproveitamento político da situação. Esse é pior, porque não importam as vítimas civis e as baixas nos quadros da polícia (até hoje 92 policiais mortos em 2012): importa manchar a imagem do atual Governante, do atual Prefeito, dos atuais gestores. O interesse político, somado ao papel da imprensa (de serviço ou desserviço público), manipulam uma população desinformada e com baixíssimo (senão inexistente) senso crítico para avaliar dados e informações.
Mas neste breve artigo vou destacar outro agente, ou ausência dele, na atual situação. Falo de Deus. Antes, no entanto, quero voltar vinte e poucos anos no tempo, quando eu ainda era um dependente químico, usuário de drogas na cidade. Dos quinze aos vinte e quatro anos de idade (antes de tornar-me cristão em 1991) usei drogas, leves e pesadas, em casa de conhecidos e em público. Quando fazia em público, éramos eventualmente surpreendidos quando uma viatura fazia as regulares rondas. Ao vermos uma viatura, jogávamos bem longe o que tivesse à mão, temendo o que a polícia faria, pois seguramente ela faria algo com bastante rigor.
Recordo que algumas vezes saíamos de carro, e ficávamos circulando pela Marginal do Tietê de ponta a ponta, indo e voltando, fazendo uso de drogas, por falta de um lugar para ficar. A intenção era despistar a polícia. Mas se houvesse uma blitz (ou comando, como chamamos hoje), era um pânico só!
Bem diferente a situação de hoje. Usuários e bandidos hoje recebem a polícia à bala. Respondem grosseiramente quando são abordados, dão socos, são violentos. Quanta diferença!
Se você perguntar a que atribuo isso, tenho uma resposta na ponta da língua: faltou aos pais de hoje ensinar aos seus filhos, ontem, sobre Deus, em casa. Eu aprendi, desde os primeiros anos, a existência de uma hierarquia, imaginaria mas que funcionava: Deus, meus pais, os professores, meus amigos e eu. E hoje? Os amigos até importam, mas os professores têm sido agredidos nas escolas (particulares, inclusive). Os pais são ausentes, isso quando conseguem permanecer casados. E Deus? Deus não está na contabilidade da família de hoje e, portanto, não pode estar presente nem ser responsabilizado pela violência nossa de cada dia.
Eu vivi o dia a dia de violência na cidade de São Paulo, nas madrugadas, nas ruas, e a violência que vivi cessou ao encontrar-me com Jesus. E as pessoas de hoje? Deus não faz parte da rotina delas, em parte por negligência dos próprios cristãos. Deus não faz parte dos planos dos casais, nem da educação dos filhos, nem do cotidiano de grande parte da população. Foi isso o que a mentalidade desde o Iluminismo fez: pôs Deus para fora. O resultado foi esse que descrevi acima.
O que não foi percebido é que Deus permaneceu no seu lugar, onde sempre esteve. O homem fechou a porta, mas quem ficou para fora foi ele próprio. Para resolver o problema da "nossa violência", esse homem deverá bater à porta de Deus, voltar-se para ele e refazer a velha estrutura que estava funcionando bem, obrigado. E a ordem a ser restabelecida é: Deus, nossos pais, nossos mestres e nós... se sobrar alguém.

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Reconciliação: uma mensagem para hoje

Fundada por por Selêuco c. 300aC, Antioquia tornou-se a terceira maior cidade do Império Romano. Antioquia foi importante ponto e rota comercial e tornou-se um influente centro do pensamento teológico, tendo nomes como Inácio e João Crisóstomo como bispos.

Havia ali farta diversidade no campo do pensamento. Dentro os habitantes, contava-se mais judeus em Antioquia do que em toda Jerusalém. O judaísmo predominante na igreja em Jerusalém impedia o amplo florescimento do cristianismo; mas em Antioquia havia sinagogas nas quais foi possível estabelecer vínculos com a nova religião. Soma-se o helenismo e cultura grega naturais na cidade de Antioquia, o culto ao Imperador, os elementos do gnosticismo, religiões asiáticas, chalatanismo babilônico e o templo de Apolo: o desafio não era pequeno.

Curiosamente foi em Antioquia onde os discípulos de Jesus foram, “pela primeira vez, chamados cristãos” (At 11.26). E um dos segredos que vejo para que isso acontecesse reside na mensagem de reconciliação ensinada por Paulo.

Revertendo o que Noé predisse milhares de anos antes, o Espírito Santo estava reconciliando consigo o mundo, etnias e classes sociais antes separadas. Vemos a conversão do cananita etíope (At 8); do semita Saul (At 9) e do jafetita Cornélio (At 10). Em seguida, em Atos 11, não mais um indivíduo, mas uma igreja entende o sentido plural de sua missão.

Paulo fala de reconciliação em quatro textos ao longo de sua obra: em Romanos 11 (sobre Israel), em 2Corintios, Efésios e Colossenses.

Rm 11.15: “Pois se a rejeição deles é a reconciliação do mundo...”.

2Co 5.18-20: “Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem [ou palavra] da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus.”

Ef 2.15,16: “[...] na sua carne desfez a inimizade [...] para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela [a cruz] as inimizades.

Cl 1.19,20: “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.”

A raiz grega da palavra reconciliar (apokatalassō) indica restauração, restabelecimento e cura. De fato as pessoas e a sociedade estão doentes. Quando um filho grita e estapeia sua mãe, quando um adolescente recebe a polícia à bala, quando um político eleito pelo povo desvia dinheiro que deveria ser usados na melhoria de vida de milhões de pessoas, estamos vendo o resultado da doença chamada pecado. Não gostamos mais dessa palavra; é obsoleta. Mas não há com ignorar seus efeitos diários em nossas vidas. Tapar o sol com peneira em nada ajuda.

A cura do homem é o que precisamos observar na expressão da nossa mensagem e missão diárias. A igreja deve curar as pessoas, não adulá-las. As pessoas estão separadas de Deus e para reconciliá-las, precisamos aplicar a Palavra que corta e opera, não uma filosofia ou promessa que ilude e mata.

Portanto, a mensagem da Igreja não deve ir ao mesmo sentido dos acontecimentos do seu tempo. Num ambiente que se separa de Deus matando o Salvador do homem, a igreja em Antioquia promovia a reconciliação pelo Evangelho, na prática missionária local e estrangeira. A igreja não pode ser uma alternativa cultural, ela deve ser a melhor – senão a única – opção espiritual: a única que reconcilia o homem com Deus.

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”. (2Co 5.17)
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Rhema: poder adicional?

Desde que foi publicado no Brasil o livro de Paul Yonggi Cho “A Quarta Dimensão”, em 1981, uma safra de livros, artigos, pregações, editoras, ministérios e muito mais tem surgido utilizando a palavra rhema. Com isso, praticamente uma “lenda gospel” se sedimentou em torno da suposta eficácia dessa palavra rhema.

Na página 43 ele diz que “Romanos 10.17 mostra-nos que o material usado para edificar a fé é mais do que simples leitura de Deus: “a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”. Nesta passagem “palavra” não é logos, mas rhema. A fé, especificamente falando, vem pela pregação da palavra rhema.”

Jesus, chamado o Verbo de Deus (do grego Logos tou Theou) concordaria com essa declaração do autor? Vejamos.

Nos evangelhos, a palavra rhema aparece em

Mateus
12.36: “Mas eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.”

Marcos 9.32: “Mas eles não entendiam o que ele queria dizer e tinham receio de perguntar-lhe.”

Lucas 2.17 (rématos): “Depois de o verem, contaram a todos o que lhes fora dito a respeito daquele menino.”

Lucas 2.50 (rēma): “Mas eles não compreenderam o que lhes dizia.”

João 5.47 (rémasin): “Visto, porém, que não creem no que ele escreveu, como crerão no que eu digo?” e

João 6.68 (rémata dzoēs aiōníōn): “Simão Pedro lhe respondeu: ‘Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna’.” Aqui com o significado de palavras de vida eterna.
  Note, em cada um dos versículos, que nada há de tão especial nessas passagens. A palavra rhema é usada em seu modo primário e nas variações gramaticais sem que qualquer indício de ação ou mesmo “geração de fé” ocorra.

Em língua portuguesa temos alguns léxicos, que são obras que trazem o significado das palavras conforme usados em seu contexto original. No caso, como eram usadas pelos autores que escreveram o Novo Testamento. No léxico de GINGRICH e DANKER1 lemos que rhema significa “aquilo que é dito, palavra, dito, expressão”. Esses foram os significados reais conforme usados originalmente. Os autores do Novo Testamento tinham essa compreensão a respeito da palavra rhema. Nada de especial ou excepcional com a palavra. Não se espera, em função disso, um detrimento da outra palavra grega, logos.

Portanto, não se pode imaginar a existência de algum poder sobrenatural que envolva determinadas expressões, ou esperar que a ocorrência de um milagre ou o rompimento de algum obstáculo espiritual ou natural ocorra simplesmente porque Deus deu a alguém “alguma palavra rhema” com esta finalidade.

A Palavra rhema é um dito como outro qualquer, como lemos no léxico e confirmamos nos evangelhos. Se há algo extraordinário acontecendo em nosso meio (e sabemos que há), isso se dá por soberania de Deus. Todos devemos saber isso, mesmo aqueles que não leem o grego. Para isto, se o leitor se der o trabalho de ao menos iniciar a leitura do Evangelho de João, verá que há uma expressão diferente usada pelo apóstolo para descrever a Jesus: Logos. Jesus é o Logos de Deus, a Palavra de Deus.

Ora, se o próprio Jesus inspirou ao apóstolo a descrevê-lo usando logos, por que deveríamos esperar que Jesus decidisse por um termo grego de menos importância ou eficácia? Se rhema fosse, assim, uma palavra tão poderosa como se pretende, acredito que João teria escrito:

“No princípio era o rhema. Ele o rhema estava com Deus, e o rhema era Deus”.

Veja se na sua Bíblia diz isso.



1 GINGRICH, F. Wilbur e DANKER, Frederick W. Léxico do N.T. Grego/Português. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984.


sábado, 27 de outubro de 2012

O diabo do homem faz a Bíblia falar

"E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela". (Gênesis 3.6, ênfases minhas)

Todos conhecemos o relato da tentação. Nele lemos ter o diabo sugerido a Eva que o fruto proibido daria um conhecimento tal que não se tinha domínio. Deus, ainda segundo o diabo, omitiu conhecimento, poder e domínio que agora tinham o seu desvelamento tornados possíveis seguindo os rastros indicados pela serpente. Eva, então, viu, desejou e tomou para si o fruto, e o deu a seu marido. O conhecimento veio, mas não do modo como desejaram.
Quando era pastor em uma igreja aqui em São Paulo, durante a reunião com o grupo de jovens, um deles perguntou: "Pastor, por que a Bíblia não fala nada sobre grandes temas da humanidade?". Perguntei "Quais temas?". O jovem disse: "A construção das pirâmides, o advento de Hitler...".
A Bíblia, o texto sagrado dos cristãos, deveria ser usada somente para anunciar a salvação da alma. A mim parece ser este o eixo natural, o tema central já em Gênesis que segue até ao Apocalipse. O assunto da Bíblia é a salvação por causa da Queda descrita acima, e esta salvação é realizada em Jesus, que é amplamente anunciado em suas páginas.
Assim, o texto da Bíblia tem sua maior concentração nos assuntos pertinentes a salvação. Para o autor divino (Yahweh) e os autores humanos (sacerdotes, apóstolos, profetas e outros), a "humanidade" a quem a Bíblia se dirige, é a humanidade toda. A Bíblia registra grandes temas relativos à humanidade. Em outras palavras, todas as coisas necessárias ao conhecimento humano (eventos, histórias, pessoas, testemunhos etc.) e inerentemente relevantes ao universo religioso judaico-cristão, estabelecido e permanente há pelo menos seis mil anos, estão contidos na Bíblia.
No entanto, do Iluminismo para cá, a Bíblia tem sido atacada de todas as formas, usada indevidamente, acusada de todos os crimes, recusada por todas as declarações que faz. Mas ela está aí, aumentando a sua presença, sendo traduzida para novos idiomas e dialetos e sendo exportada para culturas que antes a rejeitavam.
Os ataques contra ela parecem não ameaçá-la: ninguém há que ofereça substituto ao modelo de salvação da alma humana como a Bíblia. Acusá-la de imprecisão científica? A Bíblia não é um livro de ciências; é um livro que trata da salvação, como disse. Ela tem erros nas informações geográficas? Seu assunto é a salvação. Há imprecisão historiográfica? Ela se ocupa da alma humana. Essas acusações não dizem respeito ao seu "negócio principal" e ela não faz concessões: seu foco é a salvação do pecador perdido.
Se o empenho do Iluminismo e da modernidade não afetaram a credibilidade da Bíblia, a outras correntes mais modernas ela parece ter envelhecido; sua proposta precisava de uma repaginada.
Com lentes inadequadas para enxergar as propostas anunciadas por seus autores supracitados, novas abordagens foram aplicadas na leitura do texto bíblico para "readequá-la" a mente moderna. Resumidamente, num continente impregnado pelo racionalismo cientificista, o programa de demitologização dos teólogos liberais não sobreviveu até aos nossos dias. Ela não abriu mão de suas histórias, ainda que parecessem míticas.
Já nos Estados Unidos, o próprio berço de ouro deu ocasião a aplicação de uma abordagem capitalista e consumista, para que ela falasse a linguagem do mercado; e foi criada a pobre Teologia da Prosperidade (e da saúde do corpo).1
Na América Latina, quando a massa pobre era a regra no continente, uma leitura libertária da Biblia (ou ao menos de alguns textos específicos), deu ocasião, primeiramente no seio da Igreja Católica e mais recentemente no meio evangélico, a Teologia da Libertação. Quiseram que a Bíblia declarasse sua opção pelos pobres, já que eram muitos. Quando conjunturas econômicas mais favoráveis avançaram, os evangélicos importaram dos Estados Unidos o que havia sobrado da Teologia da Prosperidade, seduzindo-a a prometer vida mansa, tal qual um gênio da lâmpada.
E assim a Bíblia tem sido sequestrada e usada. No cativeiro da cultura onde ela é feita refém, quem se aproxima dela com concepções ou conveniências próprias usam-na para fazê-la falar o que querem ouvir, o que é agradável aos olhos e o que é desejável entender. Tal qual o diabo fez, toda tentativa de fazer ou usar a Bíblia para uma finalidade estranha ao seu sentido particular, é uma tentativa diabólica.
Ela, no entanto, sobreviverá a cada um de nós preservando em suas páginas a mensagem para a qual foi planejada e escrita. E que bom que tem sido assim, que ela viva por si, até mesmo sem essa minha defesa.

1 Health and Wealth Gospel (Evangelho da Saúde e Prosperidade), Faith Movement (Movimento de Fé), Faith Prosperity Doctrines (Doutrinas da Fé e Prosperidade) ou Positive Confession (Confissão Positiva).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Fala, que eu te escuto


O comportamento de muitos cristãos de hoje não endossa a fé que dizem sustentar. Aspectos que regem a prática cristã são encontrados, evidentemente, na Bíblia, e orientam atitudes simples e primárias como falar.

Um cristão pode se notabilizar pelos conhecimentos que tem, mas pode colocar tudo a perder se não moderar o seu vocabulário. Esse risco é previsto no Antigo e no Novo Testamento, mas como insinuei acima, muitos dos indicadores primários da fé cristã têm sido deixados para trás e substituídos por rotinas e expedientes das pessoas que não têm qualquer compromisso com a fé em Jesus Cristo.

Num texto clássico sobre o tema, Jesus advertiu: “Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’, será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mateus 5.22). Essa orientação não caducou. Então vejamos o seu sentido. Jesus escolheu o termo grego Γακά (raká). Não sabemos o que ele significa, mas uma pesquisa nos ensina que raká, para os falantes daquela época, era um termo abusivo. Entre os seus significados mais prováveis estão: tolo, cabeça-oca ou mesmo burro.

Na sequência do versículo lemos “louco”. Aqui Jesus empregou o termo Μώρέ (Môré), outra palavra que pode ser traduzida por tolo, insípido ou insensato; considere que os cristãos são advertidos por Jesus a que sejam o contrário de insípido: sejam sal, e não insípidos.

Noutro documento do Novo Testamento, Efésios 4.29, Paulo diz: “Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem”. Torpe é a tradução de σαπρός (saprós). Figurativamente ela transmite a ideia de mau, ruim, imprestável. No contexto de Mateus 7.17, onde Jesus fala dos frutos da árvore, ela significa podre.

E finalmente em Colossenses 3.8, a expressão “... abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar.” Essa “linguagem indecente” é a tradução de αισκρολογιαν (aiskrologian), uma junção de duas palavras para formar o que naqueles tempos era entendido por palavra indecente, obcenidade ou mesmo fala abusiva. Esta é a única passagem no Novo Testamento onde aparece aiskrologian.

Que devemos entender aqui? Que embora estejamos imersos numa sociedade que não zela pelo modo mais decente de expressar-se, que não faz qualquer esforço para ser gentil, educada e mesmo decente no uso da fala, essa tendência natural das pessoas que não professam a mesma fé que nós não pode engolir o nosso modo correto de falar, de agir e de nos mostrarmos na mesma sociedade. Chamar irmãos de “trouxas”, “imbecis” e “otários”, como vemos até mesmo em programas de televisão, não passa perto de qualquer padrão saudável no cristianismo bíblico. A inteligência do cristão deverá elaborar argumentos suficientemente fortes ao ponto de dispensar o uso de expressões chulas e vocabulário que possa ser equiparado a dos mais desprezíveis pecadores.

Para muitos isso parece difícil; mas seguramente é possível. Talvez seja esse o motivo porque Tiago dedicou boa parte de sua epístola (Tg 3.1-12), e mesmo o livro de Provérbios, a tratar da questão. O menor membro do corpo derruba a mais consagrada celebridade, mas o exercício persistente poderá ajudar a cada um de nós na eliminação de outros vícios que atrapalham o aprofundamento da mais simples espiritualidade.